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CCSP acompanha debate sobre jornalismo
cultural por: Paula Bassi
A manhã prosseguiu com uma
homenagem a Clarice Lispector. Primeiramente, houve uma palestra-exposição
de Nádia Battela Gotlib, professora e pesquisadora da USP e organizadora
da publicação Clarice - Fotobiografia, publicada em 2008
pela Imprensa Oficial. Partindo de uma pesquisa intensa, Nádia,
que também é autora de Clarice - Uma Vida que se Conta,
traça a trajetória da escritora desde a história
de imigração de seus familiares e seu nascimento na pequena
vila de Chechelnyk, Ucrânia, passando pela sua peregrinação
por várias cidades do mundo como esposa do diplomata Maury Gurgel
Valente e, finalmente, como a autora renomada. A homenagem prosseguiu
com o recital Poética da Esfinge, com a atriz Denise Stoklos. Confira
aqui a lista de obras de Clarice Lispector disponíveis na Biblioteca
Sérgio Milliet. Visite o site do evento, que acontece
de 3 a 6 de maio no TUCA.
Critica literária argentina questiona papel da internet na difusão cultural por: Eder Brito Beatriz Sarlo apresentou um panorama histórico dos pólos culturais latino-americanos A crítica literária Argentina, Beatriz Sarlo, referência mundial em estudos culturais participou do primeiro dia do II Congresso de Jornalismo Cultural, evento realizado pela Revista Cult em São Paulo. Com mediação do historiador Gunter Axt, a conferência abordou o tema "Jornalismo Cultural, literatura contemporânea e as novas mídias de comunicação". Após apresentar um consistente panorama dos pólos de produção cultural da América Latina, Beatriz avaliou as diferenças de profundida e de estilo de reportagens em jornais diários e as grandes revistas culturais, quase extintas na opinião da argentina. "As grandes revistas independentes que surgiram tinham o conteúdo diferenciado porque muitas vezes eram financiadas pelos próprios artistas. Isso as diferencia dos grandes meios de comunicação", explica. "O fim destas revistas independentes está vinculado a mudança na universidade que, por sua vez, é influenciada pelos jornais diários. Os jornais diários mudaram o perfil dos leitores, pois não possuem espaço para debates aprofundados", conclui. Beatriz também avaliou o papel da internet na difusão cultural. "Não sei se a internet permite debates culturais tensos. Ainda não estou segura de que todas as pessoas estão na mesma direção".
por Eder Brito Eric Lax e Ruy Castro dão uma divertida "aula" de como escrever biografias É mais fácil escrever a biografia de uma personalidade viva ou morta? Esta foi a dúvida que deu o tom do divertido colóquio que reuniu o jornalista e escritor norte-americano Eric Lax e Ruy Castro, jornalista e escritor brasileiro, mediados por Cassiano Elek Machado, diretor editorial da Cosac Naify. Responsável pela biografia oficial de Woody Allen e por outros livros que explicam a carreira do cineasta, Eric Lax explicou como desenvolveu o trabalho, baseando-se em quase quatro décadas de conversas periódicas com Allen. "A biografia realmente é diferente quando o biografado está vivo. Você nunca consegue 'A' verdade. Você sempre consegue 'uma' verdade. Mas quando você se relaciona com quase 40 anos como eu me relacionei com o Woody, você aprende a checar os fatos. ", explica Eric. "Biografado bom é biografado morto", discordou Ruy Castro. "O biografado vivo pode ser muito mentiroso e também incentiva os amigos e parentes a mentirem para você", resume o jornalista. Ambos também falaram das técnicas utilizadas para pesquisa, apuração e realização de entrevistas. "Além da pesquisa de documentos e materiais antigos, eu entrevisto uma média de 200 pessoas, em baterias de perguntas quase investigativas. Esta é a melhor forma de ir conhecendo todos os fatos e aprendendo tudo sobre o seu biografado", explica Ruy Castro. "Também é preciso entender muito sobre todas estas 200 fontes, não apenas sobre o biografado. E tudo o que é coletado, vão sendo arquivado em ordem cronológica. De repente, chega um momento que não há mais nada a ser apurado e você começa a redação final do livro", conclui. Eric Lax também reforçou a necessidade de se envolver totalmente com a fonte. Ele falou da oportunidade que teve para fazer a biografia de Humphrey Bogart, continuando o trabalho de uma autora que havia falecido. "Teve um momento em que eu 'falava' muito mais com esta autora morta do que com a minha própria esposa".
O futuro e o presente do jornalismo literário por Eder Brito Profissionais discutem as possibilidades da reportagem cultural aprofundado na atualidade Textos mais aprofundados e análises mais densas, com elementos do chamado jornalismo literário, praticamente não têm mais espaço no jornalismo, especialmente nos veículos impressos e a internet pode ser uma alternativa. Esta foi uma das principais conclusões do debate "Jornalismo literário: a narração da realidade com informações adicionais que fogem à imposição do lead". Mediado por Wellington Andrade, vice-diretor da Faculdade Cásper Líbero, o encontro reuniu Paulo Markun, da Fundação Padre Anchieta, Carlos Heitor Cony, escritor e colunista da Folha de S. Paulo, Joaquim Ferreira dos Santos, escritor e colunista do O Globo e Paulo Franchetti, professor de teoria literária da Unicamp. "O jornal impresso não precisa dar o que a televisão e a internet já deram no dia anterior. Daí é que surge a possibilidade de se utilizar do jornalismo literário", diz Joaquim Ferreira dos Santos. "O jornalismo literário nos faz pensar muito sobre a diferença entre jornalista e escritor. O escritor, a princípio não tem público. O jornalista tem e precisa se preocupar com isso", opinou Cony. "O jornalismo literário é um tipo de discurso que não abdica da objetividade, não é imparcial, mas permite criar símbolos que explicam a realidade É a história do presente e não a ficcionalização do presente" analisa Franchetti. "Acredito que existem duas saídas para isso: a regionalização e a elitização. Este é o caminho para não deixar o interesse no veículo impresso diminuir", conclui o professor. "Estamos na era do jornalismo
declaratório e isso contradiz a utilização dos recursos
do jornalismo literário. Só conseguiremos resolver isto
com o surgimento de bons repórteres", conclui Paulo Markun.
"O jornalismo literário não tem mais espaço
no veículo impresso de hoje, pois o jornalista fica preso à
pauta, ao espaço disponível e a falta de tempo. Eu ainda
tenho muita esperança nos blogs. O blog está para a literatura
assim como o campo de várzea está para o futebol",
conclui. "Na internet as pessoas fogem da supervisão do chefe
ou do professor e é um local onde as pessoas escrevem por prazer",
defende Franchetti.
Jornalista juiz por Paula Bass A manhã do segundo dia do II Congresso de Jornalismo Cultural foi permeada com discussões sobre juízos de valor articulados por jornalistas e críticos em relação às obras de arte. Dentro desse escopo, a literatura foi uma das áreas mais debatidas. O jornalista e crítico Manuel da Costa Pinto, apresentador do programa Letra Livre (TV Cultura), considera que a literatura não pode ser desvinculada do prazer de se discutir sobre ela.
Manuel integrou a primeira mesa da manhã, que teve como tema a formação do crítico de literatura e foi integrada também pelo jornalista Humberto Werneck, pelo escritor Milton Hatoum e por Marcio Seligmann-Silva, professor de teoria literária da Unicamp. O pesquisador comentou sobre a crise de critérios na contemporaneidade e afirmou que, atualmente, é comum guiar-se somente pela novidade. Daí a necessidade do crítico construir um vasto repertório, exigência que se impõe também pela responsabilidade de desconstruir cânones e desestimular a repetição de fórmulas.
Carlos Graieb, editor-executivo da Revista Veja, considera essencial valorizar essa formação de repertório, do conhecimento de julgar construído e agregado por profissionais da comunicação. O jornalista participou da segunda mesa do dia, em que foi discutido o tema O Jornalismo Pós-mídias Digitais. A questão do juízo proferido por jornalistas causa controvérsias quando colocada no âmbito da internet, onde teoricamente é possível publicar qualquer opinião, a um custo que tende a zero.
Graieb vê a postura de jornalistas e críticos em relação a isso como desesperada e defensiva. Apesar de o custo de publicação tender a zero, o editor ressalta, a criação ainda demanda recursos, que podem ser contabilizados desde a dedicação pela formação de repertório do profissional até os esforços em ganhar relevância meio a sobrecarga de informação. Márion Strecker, diretora de conteúdo do UOL e integrante da mesma mesa, chama atenção para o fato de que, em um contexto em que nunca se consumiu tanta cultura, o jornalismo da área perdeu relevância e espaço para serviços de entretenimento.
Na opinião de Ivana Bentes,
professora de comunicação e cultura da UFRJ, não
se trata de uma crise restrita ao jornalismo cultural, mas da cultura
de humilhação do leitor como forma de aumentar o capital
simbólico do veículo. Na contemporaneidade, a informação
não é mais escassa e restrita a poucos. Ivana nomeia o Google
como um dos maiores comunicadores atuais, já que este não
a torna refém da opinião de poucas pessoas da grande mídia.
Trata-se de uma mudança de economia que deve ter compreendida e
na qual a mídia deve encontrar uma forma adequada de inserir-se.
Segundo a pesquisadora, há uma mutação antropológica,
mas não é o caso da extinção dos antigos mediadores
e sim do surgimento de novos. Relembrando o mote dos midiativistas italianos,
cita: Se você odeia a mídia, torne-se mídia.
Paulo Arantes explica o nascimento da questão cultural por: Eder Brito Para o filósofo,
lutas pós-revolução Francesa influenciaram o advento
do termo "cultura" O professor Paulo Arantes apresentou a conferência "Metamorfoses da Questão Cultural". Em mesa mediada por Márcia Tiburi, professora de filosofia do Mackenzie, Arantes explicou o surgimento do termo cultura, explicando como ele se derivou do nascimento das questões sociais. "Houve uma luta pós-revolução na França em busca dos direitos e resultados que eram garantidos na Constituição. Foi nessa mesma época que aconteceu o advento da sociologia, como ferramenta ideológica para solucionar essa questão social surgida", explica o professor. "Simultaneamente, inventou-se a dicionarização da cultura. A sociedade de mercado, a vulgaridade democrática e a industrialização começaram a receber respostas dos filósofos, escritores e artistas", explica. Para ele, o nascimento do termo "cultura" surgiu como um embate entre o mercado, como a melhor maneira de tentar descobrir o que era essa nova sociedade. "A cultura era a oposição do homem que sabe o que está acontecendo e que se opõe às bases dos problemas", concluiu.
por: Eder Brito Hervé Aubron explica
o jornalismo cultural no país da Bastilha O jornalista cultural francês
não é mais um especialista. Ele é um "navegador",
que precisa abranger todos os assuntos em seu pensamento e manifestá-los
em sua maneira de explicar e cobrir os assuntos nos veículos de
comunicação. A conclusão nasceu da conferência
"O jornalismo cultural francês", capitaneada por Hervé
Aubron, editor-adjunto da revista France Le Magazine Littéraire,
mediada por Juvenal Savian, editor de ciências humanas da Revista
Cult.
Como descobrir o que é arte? por: Eder Brito Jornalistas e artistas debatem como é possível diagnosticar as novas formas de produção artística Como o jornalismo cultural pode abordar as novas formas do fazer artístico? Mediados por Kátia Canton, curadora e professora do MAC/USP, quatro profissionais da área discorreram durante uma hora e meia sobre o assunto, apresentando suas indagações e respondendo questionamentos da platéia. Fábio Cypriano, crítico de arte da Folha de S. Paulo, Agnaldo Farias, curador da 29ª Bienal de São Paulo e professor de história da arte da FAU/USP, Leda Catundo e Alexandre Orion (ambos artistas plásticos) eram os integrantes da mesa. O debate começou com um Fábio Cypriano "provocativo", propondo reflexões e dizendo que a produção artística só pode ser legitimada pelas instituições: galerias, museus ou bienal. "O jornalista tem capacidade de descobrir ou definir o que é arte?", questiona Cypriano, que foi seguido pela fala da artista Leda Catunda. Para Leda, arte é quase uma ferramenta sociológica. "A realidade é um pouco difícil de absorver. A arte é uma maneira de criar prováveis interpretações para esta realidade", diz. "Por isto, o jornalismo cultural deve se ocupar das questões que os trabalhos evocam", conclui a artista. Agnaldo Faria iniciou sua fala acusando
o meio acadêmico e a imprensa de tratarem a cultura como assunto
secundário, gerando a falta de profundidade do entendimento e das
reflexões sobre o que é arte. "Todo curso universitário
é técnico e tudo que é técnico baseia-se no
que já foi produzido antes. O artista é a figura que está
na fronteira desta definição", explica. "O estudante
está sendo preparado para lidar com alguns produtos, mas sem aparato
crítico. Ele precisa aprender a analisar numa escala que muito
além do simples espectador", concluiu.
Questionamento sócio-cultural por: Eder Brito Debate com Chico de Oliveira
e José Arbex Jr. defende aproximação do jornalismo
cultural com a crítica social Um dos debates mais conclusivos e produtivos do II Congresso de Jornalismo Cultural aconteceu no final da tarde de 4/5, durante o segundo dia de programação do evento promovido pela Revista Cult. Com mediação de Marta Raquel Colabone, gerente de estudos e desenvolvimento do SESC-SP, o debate reuniu Chico de Oliveira (sociólogo e professor emérito da USP), Ruy Braga (professor de sociologia da USP), Jorge Caldeira (jornalista e escritor) e José Arbex Jr. (professor da PUC/SP e editor da revista Caros Amigos) em torno de três questões: qual é o papel da crítica cultural contemporânea? Como ela pode ser compreendida diante de tantas mudanças? Qual é a função social do jornalismo cultural na democratização do conhecimento?
A mesa começou com a opinião de Ruy Braga, que explicou como a indignação da sociedade com o capitalismo fez nascer os conceitos de crítica social e crítica cultural. Existem quatro fontes de indignação com o capitalismo: o capitalismo como fonte de desencantamento com a vida; capitalismo como fonte de opressão e aprisionamento; capitalismo como fonte de miséria e o capitalismo como fonte de desigualdade, explicou. Ele também acusou os meios de comunicação de massa de sofrerem atualmente de um fatalismo e um conformismo muito grandes. Precisamos aproximar a crítica cultural da crítica social, bloqueando a mercantilização da cultura, concluiu.
José Arbex Jr. apresentou sua opinião,
utilizando o exemplo da Escola Nacional Florestan Fernandes, entidade
idealizada pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), como
verdadeiro pólo de estudo e vivência da cultura nacional.
A escola aproxima trabalhadores rurais da alta intelectualidade brasileira,
ministrando cursos de teorias sociais, história e realidade latino-americana.
A mídia atual não tem nada a ver com o jornalismo
cultural neste sentido. É impossível dissociar o jornalismo
cultural da questão social, avalia Arbex. Chico Oliveira
complementou a opinião de Arbex, dizendo que o pensamento crítico
nacional se desenvolveu pouco depois do final da ditadura. Parece
que o advento da democracia fez todos ficarem contentes e satisfeitos
e cessou a crítica em todos os sentidos. Criticar muitas vezes
é apontar como a cultura introduz algumas coisas no povo,
explica. Barbárie e civilização sempre caminharam
juntas, na história de qualquer sociedade. O papel do crítico
é colocar-se contra a barbárie, mesmo que isso lhe custe
o próprio pescoço, concluiu o professor Chico.
Entre fazer arte e entreter por: Paula Bassi Até que ponto entretenimento e arte podem ser conceitos mesclados e quando devem ser distinguidos? Nuria Azancot, redatora-chefe do caderno El Cultural, do jornal espanhol El Mundo, iniciou sua conferência no terceiro dia do II Congresso de Jornalismo Cultural elencando papéis que considera essenciais aos suplementos culturais: constituir-se como espaço de reflexão e visão crítica e atentar-se aos movimentos insurgentes, além de estimular a militância e o questionamento. Sem cultura e sem leitura, considera, não há debate, e a manipulação é facilitada. Na concepção de Nuria, o objetivo do jornalismo cultural não deveria ser a rentabilidade, mas a qualidade. Nesse sentido, pode haver uma grande distância entre a arte e o entretenimento, que possui um viés mais mercadológico e, portanto, não deve ser tema primordial. Essa visão difere da proferida por Raquel Garzón, editora da revista de cultura Ñ, do jornal argentino El Clarín. A jornalista, integrante da mesa Os Limites Instáveis entre a Cultura e o Entretenimento, acredita que não se trata dos temas que serão abordados, mas do tipo de tratamento adotado. O comunicador deve produzir, afirma, com ambições de profundidade antropológica. O jornalismo cultural, a seu ver, deveria ser onívoro, contar o mundo por meio do pensamento crítico e servir como meio e não como fim: o público deve terminar sua leitura mais ávido por cultura. Segundo Nuria, o grande desafio dos suplementos seria a comunicação horizontal, aprofundada, que atrai o curioso sem afastar o especialista. Laura Greenhalgh, editora-executiva dO Estado de São Paulo, desenvolve a questão considerando que há níveis de cultura nos quais o entretenimento está, de fato, presente e faz girar as pás da cultura. Mesmo reconhecendo o entrelaçamento entre os dois conceitos, Vladimir Safatle, professor de filosofia da USP, considera essencial distingui-los, já que o entretenimento submete a cultura aos parâmetros e, simultaneamente, aos limites do prazer. Por outro lado, as obras de arte carregam uma instabilidade entre o prazer e o desprazer que é impossível de ser mantida com nos produtos voltados ao mercado. Devido à necessidade de ampla circulação, no entretenimento são bloqueadas certas experiências, principalmente aquelas relacionadas a tempo e complexidade. Para Marcos Augusto Gonçalves,
editor de Opinião do jornal Folha de São Paulo, a questão
sobre mercado e cultura muitas vezes se torna maniqueísta, pueril
e improdutiva. Se, por um lado, a transformação da arte
em produto conferiu poder ao mercado, isso não acontece por autoridade,
mas pelas exigências do próprio público conquistado.
Além disso, o jornalismo cultural existe por causa do mercado e
inserido nele, assim como a arte. A própria postura impressa em
muitos cadernos de cultura respondem a uma pressão mercadológica:
"um jornal burguês é liberal em política, conservador
em economia e revolucionário em cultura", comenta Marcos.
Jornalismo cultural precisa ser educativo Eder Brito Debate reúne jornalistas e gestores em torno O jornalismo cultural precisa reconhecer o seu papel de formação e orientação, evitando personalismos. Refletindo sobre a questão "o jornalismo cultural tem condições de debater a complexidade das manifestações culturais contemporâneas e produzir reflexões consistentes sobre elas?", a mesa reuniu dois editores de veículos impressos e um dos principais gestores culturais do país. Danilo Miranda, diretor do SESC-SP, Daniel Piza, editor-executivo e colunista do jornal O Estado de S. Paulo e Marcos Flamínio, editor do caderno Mais! Do jornal Folha de S. Paulo. "Tudo que é engendrado pelo conhecimento humano é cultura", explica Danilo Miranda. "O jornalismo cultural precisa ter compromissos com a educação, mas não a educação formal, sob a ótica da necessidade de informação para o leitor", concluiu. Daniel Piza também refletiu sobre o papel educativo do jornalismo cultural e o nascimento deste gênero na Europa. "O jornalismo cultural nasceu há 300 anos atrás na Inglaterra, justamente com o objetivo de levar o conhecimento do ambiente acadêmico doutoral para o público leigo, para a família", analisa. "A idéia hoje é a mesma. Mas o jornalismo cultural não pode ser apenas divulgação. Ele precisa ter um olhar crítico, de orientação. A formação por trás da informação", diz. Marcos Flamínio desenvolveu seu discurso analisando principalmente como a expansão da web tem influenciado a formatação dos cadernos culturais. "Atualmente o jornalismo cultural não dá conta em dois sentidos: no sentido quantitativo, já que a web multiplicou de maneira incrivelmente exponencial o conteúdo disponível e no sentido qualitativo, já que a academia tem produzido cada vez mais conteúdo especializado". Flamínio acredita que, em consequencia destas duas variáveis, o jornalismo cultural tem valorizado cada vez mais o personalismo dos colunistas, em uma tentativa de resgatar suas origens, quando se consumiam os cadernos e conteúdos culturais muito mais pelo nome de autores que legitimavam o conteúdo. "E esta reação que o jornalismo cultural tem hoje não é das melhores", concluiu.
Crítica de Cinema perdeu a ressonância social Eder Brito
A crítica de cinema, uma das vertentes mais "consumidas" dentre os produtos críticos contemporâneos, mereceu um debate específico na programação do II Congresso de Jornalismo Cultural. Luiz Zanin, crítico de cinema do jornal O Estado de S. Paulo e Inácio Araújo, crítico de cinema do jornal Folha de S. Paulo discutiram o tema "A Crítica de Cinema e a produção contemporânea" com a cineasta Laís Bodanzky, em debate mediado por Hubert Alquéres, diretor-presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Diretora de filmes como Chega de Saudade, Bicho de Sete-Cabeças e do recém-lançado As Melhores Coisas do Mundo, Laís Bodanzky iniciou o debate apresentando o conceito de crítica na visão de quem é realizador de filmes. "O cinema não é uma arte barata. A crítica é importante, mas às vezes é desleal receber o julgamento do mercado". Laís também avaliou como a internet aumenta a percepção do realizador a respeito de seu próprio trabalho. "Tenho lido muitos comentários e textos muito ricos na internet, de gente que nem se acha crítico de nada. Como realizadora, é muito bom poder ouvir outros lados", analisa. "Antes nós só tínhamos o retorno da mídia 'oficial'. E quando isso acontece, a gente sempre se pergunta se aquilo realmente representa o todo ou se é apenas um olhar", questiona. Luiz Zanin iniciou sua fala confessando que nos últimos dez anos ser crítico tornou-se uma opção muito menos cômoda. "A internet trouxe uma explosão de olhares novos. É a verdadeira democratização do olhar", explica. Para Zanin, o cinema é "o futebol do mundo das artes", pois muita gente acha que entende do assunto. "O que eu mais sinto é que a crítica dos meios 'oficiais' não tem mais ressonância social, uma diminuição real da influência. E esta ressonância limitada não permite prolongar o debate sobre os filmes", concluiu. Inácio Araújo reforçou o debate, enfatizando a importância de entender a história do cinema para construir críticas mais consistentes. "Aprendi a importância de fazer um curso de história do cinema todo ano. A observação crítica precisa ter este apoio histórico. Mas é claro que também tem a subjetividade, que passa pela experiência de cada um e mesmo da opinião própria", analisa.
Eugênio Bucci defende integração
ministerial Eder Brito Ministério
da Cultura debate políticas públicas com especialistas Eugênio Bucci, jornalista e professor da ECA/USP foi a voz mais exaltada do debate "Políticas Públicas Culturais: o papel do Estado na dinâmica cultural e a distribuição de recursos", mesa integrante do II Congresso de Jornalismo Cultural. Para Bucci, os ministérios da Cultura, Educação e Comunicações precisam se integrar. "O Estado precisa entender que já existe uma confluência entre educação, comunicação e cultura e tem que começar a pensar em unificação da estrutura interna e do orçamento", discursou. "O Ministério das Comunicações é visto apenas como infra-estrutura e nunca como Cultura", explicou. A mesa teve a mediação do historiador Gunter Axt e também contou com a participação de Alfredo Manevy, secretário-executivo do Ministério da Cultura e Fábio Cesnik, advogado especialista da área. Manevy enalteceu a mudança de olhar do Governo para a área nos últimos anos. "Nós tivemos uma migração do interesse do Estado sobre a cultura. Antes a cultura era vista como um instrumento de controle da sociedade, uma ferramenta para um projeto político maior", avalia. "A redemocratização fez passar de um Estado interventor para um Estado democrático, porém ausente. Agora a nossa luta é para viabilizar a cultura como política de Estado e não como política de governo", diz. Fábio Cesnik participou do debate especialmente para avaliar os modelos de financiamento estatais, atuais responsáveis por muitas discussões na área de políticas públicas culturais. Ele criticou principalmente o novo texto da Lei Rouanet. "O novo texto não retoma o poder das Comissões, como a CNIC (Comissão Nacional de Incentivo à Cultura) e isso é uma questão fundamental, uma nova fase", diz.
Debate sobre indústria fonográfica defende até a retomada do vinil Eder Brito Educação musical nas escolas, redução de impostos para a área e até a volta da produção de discos em vinil. O debate "A crise da indústria fonográfica e os caminhos para a produção musical contemporânea" foi um dos momentos que mais gerou sugestões de soluções para um dos problemas do cenário cultural brasileiro, em discussão mediada por Ivan Giannini (superintendente de comunicação social do SESC-SP) durante o II Congresso de Jornalismo Cultural. A mesa mediada por Giannini foi composta por Jotabê Medeiros, crítico de musical do jornal O Estado de S. Paulo, Júlio Medaglia, maestro e arranjador, Sérgio Martins, crítico de música da revista Veja e o músico Lobão. Jotabê foi o primeiro a falar e apresentou um bom panorama do mercado fonográfico brasileiro, onde o faturamento financeiro é "nanico perante outras áreas". Ele também apontou o download ilegal de música como um dos vilões, já que no Brasil, 95% do que é baixado na internet é ilegal. "Com isso, os artistas se vêem obrigados a fazer turnês maiores e mais desgastantes. Não sobra tempo para fazer pesquisa e composição, não dá para fazer um trabalho melhor artisticamente", avaliou. A opinião de Sérgio Martins foi muito parecida com a de Jotabê. "Hoje as gravadoras vislumbram mais o show do que a vendagem de discos. Os artistas já negociam os contratos com lucros de seus shows direcionados diretamente para as gravadoras", diz. Martins também elencou dois dos principais motivos da crise da indústria fonográfica, em sua opinião. "A indústria ignorou o poder da internet e enfatizou demais a busca pelo público adolescente, um público muito volúvel. Hoje ele gosta de uma coisa, amanhã ele não gosta mais", avalia. O músico Lobão apresentou
uma das sugestões mais inusitadas durante o debate. Para ele, a
volta dos discos em vinil pode ser uma alternativa. "Se você
entra em uma loja de Londres hoje, você vê que a maioria das
opções de discos são vinil. O vinil tem uma qualidade
sonora melhor que o MP3 e é ideal para quem gosta de ouvir música
de verdade", analisa. Ele também acha que o consumo de MP3
poderia ser diferente no Brasil, se não houvesse a carga tributária
imposta ao setor. "O ITunes não vem ao Brasil por culpa dos
impostos. Precisamos quebrar essa barreira dos impostos para desenvolver
uma política econômica de consumo de música na internet",
analisa. A internet também foi ponto da análise de Lobão
em outro sentido. Para ele, a cena independente superestima as possibilidades
"pífias" de divulgação da rede. "Todo
mundo fica iludido com a internet, mas o que precisamos é entrar
no mainstream. Só estando lá dentro para poder intervir",
conclui. Último a falar entre os integrantes da mesa, o maestro
Júlio Medaglia enfatizou que o mercado brasileiro não sabe
lidar com o talento dos artistas que possui. "Somos um país
musical, mas você liga a TV e parece um país não-musical",
disse, analisando o tratamento à música oferecido pelos
grandes meios de comunicação de massa. "Precisamos
é de um ensino musical descente nas escolas, para formar gerações
futuras mais generalistas, com senso crítico diferenciado".
O Jornalismo Cultural Alemão Eder Brito A última mesa do II Congresso de Jornalismo Cultural trouxe Julia Encke, repórter e crítica literária do jornal alemão Frankfurter Allgemeine, em conferência mediada por Jana Binder, diretora de cultura do Goethe Institut em São Paulo. Julia apresentou um panorama do jornalismo cultural alemão que, segundo ela, tem muitas publicações específicas. Cada um dos maiores jornais diários da Alemanha, por exemplo, possuem uma página inteira de crítica literária cada um. No desenvolvimento da crítica literária, Julia entende que reina a subjetividade. "O mercado editorial alemão é muito grande. Temos que desenvolver critérios, mas também deixamos claro que gostamos de escrever sobre o que é melhor para nós ou nos interessa", revela. "Nós temos espaço para fazer análises maiores, que ocupam até uma página. O que vale são os argumentos, para explicar a minha opinião de forma convincente", acrescenta. A jornalista disse também que o mercado dos impressos também sofre com a "migração" de anunciantes para a internet. Julia se mostra otimista, no entanto, e acredita que a leitura não será majoritariamente transferida para os meios eletrônicos. "Nós podemos entender o jornalismo impresso como um desasfio, sem desmerecer todas as novas mídias", concluiu.
Jornalismo: formação em crise por Paula BassI "Infeliz a profissão que não esteja em crise e esteja fundamentada em certezas". A constatação do professor Carlos Costa, coordenador do curso de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, foi proferida em meio a discussão sobre a formação do profissional de comunicação na atualidade. Se a crise na profissão é algo inerente, no caso do jornalismo, ela não está apenas relacionada ao fim da obrigatoriedade do diploma, mas a um ambiente em constante mudança - Carlos Costa relembra Richard Wurman e a sua Era da Ansiedade. A internet trouxe não somente a disseminação desenfreada da informação, mas também o forte questionamento das formas tradicionais de publicação. Sobre a profissão paira o dilema de informar quem já está informado e enfrentar opiniões duras como: "o jornalismo impresso é notícias velhas veiculadas em árvores mortas", definição enunciada pela pesquisadora Ivana Bentes, da URFJ, no segundo dia do II Congresso de Jornalismo Cultural. A forma como as faculdades lidam com esse
novo contexto é um dos pontos-chave para a profissão sobreviver
e se renovar. Rodolfo Carlos Martino, coordenador da Metodista, explica
que essa universidade abriu mão do modelo de disciplinas para adotar
o formato de módulos. O objetivo é integrar as aulas para
que as diversas plataformas não sejam concorrentes, mas complementares
na formação do aluno. Assim, não seriam formados
jornalistas especializados em impresso, rádio ou TV, e sim geradores
de conteúdo. José Luiz Proença, da ECA-USP, ressalta
a importância dos jornais-laboratórios, que levam à
contestação do modelo diário. Urbano Nobre Nojosa (coordenador
de jornalismo da PUC-SP) acredita ser impossível adotar uma perspectiva
tecnicista no curso, devido à mutabilidade das tecnologias. Ele
vê o jornalismo como um espaço para opinião pública
- o jornalista deve aprender a dar um sentido ao excesso de informação.
A formação do profissional, segundo Urbano, deve ser calcada
no tripé humanístico, crítico e profissionalizante,
pois o mercado é o destino de boa parte dos formandos. Apesar disso,
lembra da importância de diferenciar emprego - que seria uma mera
ocupação com o objetivo de sustentar-se - e trabalho, uma
identidade carregada de valores críticos e de ética. Daí
a importância de se valorizar a graduação e a profissão
do jornalista. Afinal, como encerra Rodolfo, o coordenador da Metodista,
"glória ao padeiro que se orgulha do pão". |
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