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Entrevista com Ana Maria Rebouças

"Quanto mais buscarmos integrar todos os processos expressivos, mais ricos podemos nos tornar em cultura e criatividade"

Entrevista e edição:
Juliene Codognotto, Marcia Dutra e Vinícius Máximo

Ana Maria Rebouças é curadora do Núcleo Interdisciplinar do Centro Cultural São Paulo. Nesta entrevista, ela fala sobre a interdisciplinaridade e os projetos de pesquisa de linguagens artísticas desenvolvidos no CCSP.

Quando foi criada a curadoria interdisciplinar e a partir de quais necessidades do Centro Cultural São Paulo?

A ideia da curadoria interdisciplinar veio a partir do Fernando Oliva, que era diretor de curadoria na época, e do Martin Grossmann, então diretor do CCSP, que estavam querendo estimular projetos interdisciplinares. Eu tinha pensado num projeto que envolvesse pesquisa de linguagem em diferentes áreas artísticas no Espaço Cênico Ademar Guerra, utilizado muitas vezes para experimentação de grupos. Comecei a pensar no Zona de Risco, que seria um projeto de criação que permitiria aos grupos ficar mais tempo na instituição. Pensamos então que o Espaço Cênico Ademar Guerra, em alguns meses do ano, poderia ser como um laboratório para os artistas pesquisarem, experimentarem, e não só um espaço que recebe uma produção pronta, em temporadas específicas. A ideia era trazer para o Centro Cultural essa característica de experimentação que sempre teve aqui. Zona de Risco nasceu primeiro como um projeto do Espaço Cênico Ademar Guerra, depois pensamos outras atividades que justificassem a criação de uma curadoria interdisciplinar. Comecei a fazer o Encontro de Improvisação e alguns outros projetos, também de caráter interdisciplinar, foram incorporados à curadoria interdisciplinar, que nasceu no primeiro semestre de 2010.

Espaço Cênico Ademar Guerra
Espaço Cênico Ademar Guerra - Foto: Sônia Parma

Quando exatamente surgiu o Zona de Risco e como o projeto tem se desenvolvido?

O Zona de Risco surgiu em agosto de 2009, quando quatro grupos de dança, teatro, música e artes visuais foram convidados e ficaram durante mais ou menos três meses no CCSP. A escolha dos grupos para o projeto é feita pensando na contribuição que eles podem dar à discussão interdisciplinar. Um dos critérios é o grupo estar aberto ao diálogo interdisciplinar, mesmo que não trabalhe na fronteira de linguagens. Este ano acontece a segunda edição e a ideia é que haja uma vez por ano, cada vez com uma proposta diferente. Fronteiras foi o tema a que os quatro grupos da primeira edição chegaram depois de muita discussão.

Zona de Risco 2009
Zona de Risco 2009 - Foto: João Mussolin

Já o Coletivo Bruto foi convidado para o Zona de Risco 2010 com a proposta de criar um espetáculo sobre o Centro Cultural São Paulo a partir de experiências de deriva. Convidamos um só grupo para a edição deste ano, para trabalhar a partir de um conceito situacionista de meados do século 20, criado quando um grupo de arquitetos e urbanistas pensava estratégias de atuação no mundo e discutia os procedimentos de deriva na sociedade contemporânea, no sentido de trazer de volta o cotidiano e se apropriar do gosto pela vida e do espaço público. Desde outubro, o grupo tem feito várias intervenções no prédio, envolvendo, inclusive, os usuários do CCSP. Essas ações pelo espaço são registradas em vídeo e, a partir do material recolhido, o coletivo vai apresentar em novembro o resultado da residência, chamada pelos integrantes de Habitação Bruta.

Você considera que a questão da pesquisa entre linguagens é uma demanda dos próprios artistas? Você identifica isso como evidente na cena artística atual?

Eu acho que é evidente se olharmos um pouco para a produção que está sendo feita hoje em todas as artes, com cruzamentos entre vídeo, dança, teatro, corpo e tecnologia, mas nem sempre esse discurso fica muito explícito. Acho que os grupos vêm procurando o diálogo entre as linguagens, mas isso não é feito de forma muito consciente. Existem vários cruzamentos e pretendemos explorar mais isso. Essa é a tendência que está se consolidando. Há também grupos que são interdisciplinares, como o Coletivo Bruto, que convidamos para o Zona de Risco deste ano. Ele já tem uma proposta clara, é um coletivo que busca diversas poéticas e linguagens.

O Encontro de Improvisação (EI!) antes era mais voltado para a área de dança. O que mudou no projeto para que ele tenha passado a ser classificado como programação interdisciplinar?

Mudou bastante coisa. Antes de colocarmos o EI! na curadoria interdisciplinar, já havíamos chamado a Cia. Inadequada, um grupo de teatro com forte ligação com dança, para participar, além de alguns grupos de música e instrumentistas. Já estávamos buscando a improvisação em outras áreas e pensando em colocar outras linguagens no encontro. Como as experiências estavam sendo enriquecedoras e vários coletivos também tinham propostas de improvisação não apenas em dança, resolvemos tornar o Encontro de Improvisação um projeto interdisciplinar. Agora, todo grupo que vem fazer o EI! traz uma proposta específica para o encontro, dizendo como vai trabalhar com improvisação. Assim como o Zona de Risco, o Encontro de Improvisação muda a cada ano. Este ano é EI! - Coletivos. Estamos trabalhando com grupos que já têm uma formação mais interdisciplinar e voltada ao cruzamento de linguagem. Chamamos, por exemplo, o Barbatuques, que faz percussão corporal, e o Coletivo Iaré, que propôs trabalhar plasticamente a expressividade do corpo.

Você disse que a partir do Zona de Risco outros eventos foram incorporados à curadoria interdisciplinar, além do Encontro de Improvisação. Quais são esses eventos?

A curadoria interdisciplinar está responsável pelo Paradas em Movimento e também pela Anilla Cultural, que vai ser inaugurada no dia 6 de novembro e é um anel cultural que envolve cinco centros culturais (quatro na América Latina e um na Espanha). Será instalada a Internet 2, uma Internet de alta velocidade, e os cinco centros culturais vão estar conectados por essa rede. Estamos procurando formas de utilizar essa estrutura em propostas artísticas, co-criações também envolvendo improvisação, porque a ideia é que aconteçam em tempo real. Cada centro cultural pensou um projeto a partir de uma metáfora comum, a Nova Ágora, que traz a ideia da praça pública na Grécia Antiga, e o que seria essa Nova Ágora virtual.

Como você avalia a resposta do público aos projetos que estão sendo chamados de interdisciplinares?

No ano passado, o Zona de Risco teve uma boa resposta do público. No Encontro de Improvisação temos tentado fazer um bate-papo com o público no último dia de atuação do grupo. As pessoas têm acompanhado e aprovado a tentativa de ampliar os recursos de improvisação, não só com movimentos de corpo, mas também com falas, com artes plásticas. Acho que são interessantes esses projetos interdisciplinares que tentam buscar um ser humano integral e utilizar cada vez mais recursos para poder se expressar.

Como você definiria uma obra interdisciplinar?

Eu não vejo uma característica que defina uma obra interdisciplinar, mesmo porque eu não sei se é uma obra, se tem o caráter de obra. Temos, na verdade, uma proposta muito mais modesta, que é estimular a experimentação. Então, eu não acho que seria interessante definir o que é isso. Alguém que vem participar de alguma atividade ou assistir a algum evento interdisciplinar não pode esperar nada que esteja acostumado a ver. Isso pode tanto gerar um estímulo quanto um receio, um bloqueio. É sempre um desafio, porque existem muitas possibilidades de interdisciplinaridade nas artes. De início, pode causar um estranhamento, mas também abre outras possibilidades de apreensão, de percepção da realidade, de sensações. A ideia é sempre expandir tanto os sentidos quanto a capacidade de apreensão da realidade, porque vivemos uma época muito especializada em tudo. Perdemos a visão do todo, a visão integral do ser humano. As artes também estão muito compartimentadas e o público está muito segmentado, então a ideia também é deslocar um pouco esse circuito. Uma música, por exemplo, está ligada à letra, à manifestação de dança e à expressão tanto por texto quanto por som e corpo. Uma manifestação artística nasce de uma necessidade, de como percebemos o mundo e de como podemos expressar essa percepção de mundo. Quanto mais buscarmos integrar todos os processos expressivos que temos a possibilidade de desenvolver, mais ricos podemos nos tornar em cultura e criatividade. Quando você não mostra o esperado, a pessoa vai ter que reagir de outra forma e, quando ela se depara com uma coisa que não sabe o que é, ela participa mais, porque já não está condicionada a um comportamento esperado.

Veja a programação interdisciplinar completa

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