| conteúdo menu principal menu lateral | ||||||||||||||||||
|
Arquivo
Saiba Mais
|
Mais sobre a série Monográficas A mostra da artista Fernanda Gomes inaugura uma série de individuais, chamada Monográficas, coordenada pela Curadoria de Artes Visuais do CCSP e dedicada a pensar a produção de arte no Brasil nos últimos 30 anos. O objetivo é reunir, a cada vez, um conjunto de trabalhos por meio do qual seja possível avaliar com abrangência a obra de um artista cuja atividade tem início na virada para os anos de 1990. Além disso, existe a expectativa de que o ciclo possa contribuir, com o tempo, para o traçado de um amplo quadro de problemas referentes às transformações de linguagem, às condições de atuação no ambiente artístico e a questões culturais relevantes no período. Tal iniciativa pretende complementar e aprofundar o alcance da programação de artes visuais da instituição, composta já pelo Programa de Exposições e o Projeto de Fotografia do CCSP, ambos organizados por edital e destinados especialmente a artistas em formação, pelas seleções de obras da Coleção de Arte da Cidade, com núcleos de arte moderna e contemporânea, e por coletivas concebidas pela curadoria de artes visuais a fim de examinar aspectos recorrentes na produção artística recente.
Mais sobre a obra de Fernanda Gomes De tudo fica um pouco
Desde o início, na segunda metade da década de 1980, o trabalho de Fernanda Gomes compõe-se de materiais corriqueiros e procedimentos que têm a dimensão da mão: colar, amarrar, raspar, pintar, empilhar, suspender no ar, ou simplesmente posicionar no espaço, de travesseiros a detritos recolhidos na rua, de pedaços de fio dental usados a artigos do mobiliário doméstico, de papeis de cigarros fumados a copos cheios d'água, caixas de fósforo, um saco de dormir ou duas colheres fundidas em ouro de 18 quilates, sob encomenda, unidas em estrutura única pela ponta de seus cabos e brutas, por falta de acabamento. Nem sempre a constituição física desses objetos passa por alteração depois de incorporados à produção da artista. Às vezes bastam ações mínimas, como apoiar placas de acrílico ou ripas de madeira contra a parede; em área e angulação precisas, é verdade. Mas mesmo nas execuções minuciosas, para a construção de pequenas esferas com cravos-da-índia e linha, por exemplo, não há transformação de matéria, adições ou supressões, necessariamente, só labor. Em comum, as peças carregam sinais de pessoalidade e memória - algumas por conter marcas de gasto e deterioração, outras reunidas dia a dia, durante períodos longos de tempo -, sem que haja, com isso, a indução do observador a conteúdos particulares, confessionais ou narrativos.
A face íntima, e intimista até, desta obra se afirma por singularidades, em idiossincrasias e, também, nos movimentos de dispersão, próprios ao sujeito que se dissolve no anonimato de operações tão laboriosas quanto econômicas, destituídas de parentesco direto com uma "expressão artística", para, ao final de suas realizações, ampliar a capacidade sugestiva de itens relegados, noutras circunstâncias, à invisibilidade e esquecimento. A presença discreta dessas peças em salas de exposição costuma, assim, produzir situações indefinidas, oscilantes entre certa domesticidade, com ares de recolhimento, e a franca aparição pública; entre manifestações residuais de vida prática e uma atmosfera difusa de abandono; entre, de um lado, a crueza, a origem aparentemente remota e inacessível das partes e, de outro, o tom austero, sóbrio, do conjunto, desde a neutralidade das cores, que de assépticas não têm nada, até o rigor das soluções, próximas às de um artífice. Neste ponto, as diferentes maneiras de dispor os objetos em contextos específicos são decisivas, seja para a elaboração de ritmos visuais com formas geométricas distribuídas nos painéis, seja com aspecto fortuito ou provisório, instável ou descontínuo, sugerindo no alto (quando pendurados) e no piso (quando espalhados) percursos deambulatórios pela extensão do ambiente. Ordenações que, de um modo ou de outro, tomam o espaço em sua característica elementar de organizador físico da percepção, onde os trabalhos passam a ser o lugar que ocupam e o vínculo que estabelecem com o entorno, longe da intenção de modificá-lo e com chances mínimas, para não dizer nulas, de uma configuração se repetir em outras condições.
Àquela subjetivação imanente aos processos da artista - com índices de uma individualidade que não se compartilha, aquém das superfícies -, sobrepõe-se um estado de solidão. Menos por sensações de falta, ausência, do que de isolamento e despojo. Dentre as questões internas à sua lógica, a obra formula problemas da relação entre sujeito e objeto, dissolve por vezes as fronteiras entre um e outro - na confecção de bolas de fios de cabelo, por exemplo -, e interroga a todo instante, com jeito simples, silencioso, sobre onde e como nos situamos no mundo. Se o leitor quiser, uma espécie de chamamento à tomada de posição ética, mas, em primeira instância, um divertido exercício de atenção para os sentidos. Diante da amplidão que se abre nas exposições de Fernanda Gomes, o visitante é instigado a, junto com os trabalhos, converter também os vazios, as lacunas, em campo de experiência. Mensurando as distâncias e as interações rentes entre um objeto e outro, palmilhando o roteiro de movimentos que julgar melhor ou possível, mantendo-se alerta para as mínimas partes de espaço e tempo que a obra propõe - sobretudo se "escondida", quase imperceptível, com sugestões a uma obsolescência ou um desaparecimento iminente, por causa das matérias frágeis, de temporalidades várias e em configurações vulneráveis. Não é à toa, portanto, que os trabalhos dispensam títulos ou qualquer designação definitiva. Trata-se de uma obra que se constrói pelas superfícies, acima de tudo por aquilo de que é feita e por sua conformação. Intitular peças ou mostras da artista implicaria estímulos e planos de significação além dos que a exterioridade, plena, já incita naquilo que dá a ver e pensar.
Daí o fato de a palavra surgir, aqui, apenas objetualmente, na apropriação de livros, moedas, sabonetes, embalagens, em que estão impressos os escritos a serem agregados por essa linguagem irrestrita. No mais, talvez seja mesmo preferível a denominação de "coisas" para tais resultados, se o sentido atribuído ao termo for amplo e indeterminado o suficiente ("o que não é ser é coisa") para dar conta da lida com o repertório moderno da pintura, da escultura, do desenho (de Kazimir Malevich a Robert Ryman, de Kurt Schwitters a Eva Hesse etc.) e, a uma só vez, com a trivialidade do cotidiano. Quando apresenta a sua primeira exposição individual, em 1988, no Rio de Janeiro, Fernanda Gomes surge em desalinho com o entusiasmo do ambiente cultural brasileiro pela pintura energética, colorida e hedonista que se produzia em âmbito internacional, alçada a um estatuto hegemônico no Brasil sob slogans de "geração 80" e "volta à pintura". Sua produção parecia, antes, travar diálogo com obras que contribuíram para o vigor experimental em larga escala da arte feita no país nos anos de 1960 e 1970, como, entre outros, Mira Schendel e Artur Barrio. E afora as tantas diferenças entre esses dois artistas, talvez existam pontos de convergência (por caminhos distintos) em tentativas de des-reificar o objeto artístico, as idéias de estilo, categoria e técnica, de romper com o pressuposto de estabilidade da noção de forma, a fim de armar relações voláteis entre os seus elementos, de modo ao mesmo tempo assertivo e contingente, advindo da experiência da arte como ação. Sutis ou viscerais, as ações de Mira e Barrio se dão imersas no pensamento, em contato com as "impurezas" da realidade imediata e cujas conseqüências mantêm algo de uma pulsação orgânica, além da concepção de imaterialidade.
Ora, ocorre algo próximo a isso no trabalho de Fernanda Gomes: ao desautorizar prescrições de "artisticidade" (materiais, gêneros, habilidades, o que for); nos gestos de auto-determinação; pelo encaminhamento de suas decisões a uma direção processual e especulativa; e pelo enfrentamento poroso com o cotidiano, não para figurar a mera extensão dele, mas, ao contrário, obstinado a fundar as próprias condições de emancipação em relação a fatores de hábito e rotina. Nesse último aspecto, a reivindicação de autonomia nada tem a ver com o anseio a uma zona pretensamente privilegiada da arte, senão para incorporar essa antinomia (entre a genealogia de objetos banais e uma totalidade problemática para além de si mesma) como irredutível, sem o intuito de forjar uma síntese apaziguadora nem de submeter prerrogativas de um pólo às do outro. Tanto que a articulação esparsa entre as unidades desta produção aponta para uma linguagem que, completa, não se cristaliza, às voltas com situações abertas e variáveis, numa contínua atualidade em que a espessura temporal, ou os traços de desgaste, teima em insinuar um porvir. É, em suma, pela análise reflexiva de suas possibilidades, pelos seguidos estágios de depuração durante a feitura, que a obra conquista o tom meditativo capaz de tornar o ínfimo, o delicado e o prosaico amplos, resistentes e desconcertantes. José Augusto Ribeiro,
Curador de Artes Visuais do CCSP |
Hoje no CCSP
Rede sem fio Mailing
Parceiros Plugins
Melhor visualização | ||||||||||||||||
![]() | ||||||||||||||||||
|
| ||||||||||||||||||