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Mais sobre os artistas Alexandre da Cunha Débora
Bolsoni
Mais sobre a obra Depende de operações simples - do posicionamento, de acoplagens, revestiduras ou pequenas adaptações - para que um carrinho de mão desempenhe papel de trono em determinada situação; para que as tiras de uma cadeira de praia conformem num chassi uma espécie de pintura descendente do abstracionismo geométrico; para que borrachas de desentupidores de pia sobre uma base de escultura aludam à cerâmica; ou para que um punhado de paçoca imite, depois de modelado no piso, um quebra-molas de asfalto, desses usados no controle de velocidade de automóveis. Em resumo, objetos e materiais arquiconhecidos adquirem, com muito pouco, condições de se passar por algo com o qual nem sequer se relacionam, pelo menos à primeira vista, e sem deixar de ser o que de fato são. Vem daí o título desta mostra, da capacidade atribuída a itens ordinários de fazer as vezes de outros, de mimetizar ou disfarçar-se de elementos diversos de si próprios, mas também reconhecíveis, seja na vida prática, seja por reportar a uma visualidade, uma tipologia ou um procedimento notável na história da arte. Perceber aspectos de certas coisas na visão de outras informa a natureza icônica das peças que compõem a exposição: em sua maioria, tridimensionais com potencial gráfico, sobretudo por incorporar ou reproduzir o design de utilitários - ou, quem sabe, justamente por isso, não são imagens sintéticas com a espessura de objetos? Nesse jogo de representação e metamorfose há um pouco, sim, da imaginação em atividade, porém, longe de dar vazão a fantasias, somente a fim de exercitar possibilidades de ilusão ótica e de enganos perceptivos. Porque, a partir de experiências visuais da mais imediata realidade, insinuam-se, aqui, processos de ideação e projeção, por exemplo, no vislumbre de uma linha de horizonte em um haltere improvisado com barra de ferro e latas de óleo, de um conjunto de livros de capa-dura em blocos de cimento revestidos com azulejo... Correspondências entre noções, materiais e contextos muitas vezes díspares ou antagônicos que, por estranhamento e humor, instigam o visitante a equacionar dados sobre o que o trabalho dá a ver, sobre os itens que o constituem e sobre o que estes representam (ou "dublam") agora, incorporados ao campo da arte. Dublê apresenta cerca de 30 obras de Alexandre da Cunha e de Débora Bolsoni realizadas em mais de 10 anos, desde o início das trajetórias, na virada para a década de 2000, até peças recentes e inéditas. A reunião dos trabalhos tem por objetivo a análise das produções no curso desse período, assim como a formulação de hipóteses sobre pontos de contato e diferenças entre uma e outra. De saída, em comum, os dois artistas se apropriam da materialidade do "mundo das coisas". Revelam-na manejável, dotada de possibilidades além daquelas já conhecidas em sua arena funcional e normativa, tão somente com montagens e decisões que se apoiam nas características físicas dos elementos, nada mais. Ainda assim, o que é maleável, poroso, macio, passa por rígido num relance, e vice-versa; o inanimado ganha sugestões de uma animação; e formas, cores, objetos habituais tornam-se diferentes, vívidos e inesperados. É um pouco como se um desfecho incerto se abrisse onde, por suposição, houvesse apenas mesmices da rotina. Débora Bolsoni e Alexandre da Cunha também revolvem categorias artísticas, vertentes estéticas, gêneros tradicionais e, às vezes, obras específicas de determinados artistas, ao evocá-los pelo ardil de associações e coincidências fisionômicas com materiais domésticos, do comércio popular, do mobiliário urbano, da arquitetura. Sem cerimônia e com um registro cômico de questionamento, os trabalhos "des-hierarquizam" a ordem empírica de tudo isso que estava disperso no tempo e no espaço, e lhes confere, com tais combinações, a força inaugural de um encontro imprevisto. Jamais na base da paródia, ao contrário. Alusões aos minimalistas, à paisagem, retrato e natureza-morta, às chamadas "esculturas públicas", ao "círculo negro" de Kazimir Malevich, rejeitam qualquer sorte de essencialismo e, com isso, passam por certo apagamento de prerrogativas. Não são apenas escolhas afetivas, mas o são também, junto com o interesse analítico; e a existência dessas escolhas só se realiza por meio de outros materiais, por meio de um círculo desenhado com giz branco em tabuletas comerciais pintadas de preto, ou por meio de dezenas de cobogós justapostos no piso, formando um quadrado cujas áreas vazadas foram preenchidas com espumas amarelas (numa espécie de cruzamento de Carl André com Donald Judd). De resto, continuam sendo os cobogós, as espumas, as tabuletas, o desenho em giz - e não as evocações à história da arte -, que instituem a situação e as próprias condições de aparecimento. Em formalizações claras e decididas - boa parte a envolver junção, empilhamento ou encaixe -, os dois trabalhos internalizam problemas relativos a valores de uso e de troca, monetários e simbólicos, fatores que contribuem para a definição, nas esferas pública e privada, do estatuto da arte e das matérias com que lidam. Estas e aquela, a arte e suas matérias, são pensadas por Alexandre e Débora como detentores de significação socioeconômica e cultural, considerando aí o lugar distintivo que ocupam e a função que cumprem no interior dos sistemas por que circulam - nos quais são classificados como conhecimento e negócio, objetos especiais ou triviais, nobres ou banais, coloquiais ou cultos, de bom ou mau gosto, autorais ou anônimos, manufaturados ou industriais, de acordo com esta ou aquela linhagem, com esta ou aquela filiação artística, marcados sempre por sinais de classe. Embora não "tematizem", as produções deixam entrever o que, nestes circuitos, são aspirações baratas de consumo, presunções "literárias" de repertório erudito, o kitsch, os protocolos de sofisticação etc. Tanto que as aproximações com experiências rotineiras de Alexandre da Cunha e de Débora Bolsoni ocorrem por meio de enganos, desvios, ambiguidades e contradições, por despistes aos regimentos e hábitos da cultura oficial em que estão inseridos. Há, de fato, um sentido ao mesmo tempo agregador e combativo nesses trabalhos, ambos em contínuo exame sobre as respectivas possibilidades de se instalar entre os demais acontecimentos do mundo. Sem perder de vista que, no perigo, é o dublê quem assume os riscos. José Augusto Ribeiro, Curador de Artes Visuais do CCSP
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