Ricardo Resende é
o novo diretor do Centro Cultural São Paulo. Convidado pelo secretário
municipal de Cultura, Carlos Augusto Calil, para a direção-geral
da instituição, ele assume o cargo após passagens pelo MAC-USP,
MAM-SP e Funarte.
Nascido em Guaranésia, cidade do
interior de Minas Gerais, em 1962, Resende cresceu em Mococa, no interior
paulista. Mudou-se para a cidade de São Paulo em 1982 com a intenção
de cursar Arquitetura. Não chegou a completar o curso de Arquitetura
e fez Artes plásticas na FAAP. É mestre em História
da Arte pela USP.
Fale um pouco
sobre a sua relação com o Centro Cultural São Paulo.
Tenho uma relação antiga com ele. Cheguei a São Paulo
em 1982 com a intenção de fazer faculdade de Arquitetura.
O primeiro lugar da cidade que visitei foi o Centro Cultural São
Paulo, recém-inaugurado naquela época. Assisti a uma sessão
de cinema à noite. Tudo me impressionou muito, principalmente a
iluminação. Depois de 28 anos, é muito gratificante
chegar à posição de diretor do Centro Cultural São
Paulo, que eu considero um espaço importantíssimo na cidade.
A partir de uma determinada idade, começamos a assumir posições
de muita responsabilidade. A idade e a prática adquirida são
fatores importantes. Você só adquire conhecimento com o tempo,
não existe formação imediata. Acho que é por
aí esta minha chegada ao cargo, pelos anos de bagagem.
Você acha
que, mesmo passados 28 anos da inauguração do Centro Cultural
São Paulo e da sua chegada à cidade, este espaço
ainda causa o mesmo impacto na juventude? E o quanto isso te desafia como
diretor?
Retornando hoje para dirigir este espaço, percebo que o perfil
do público do CCSP é sempre o mesmo, o que envelhece é
só o prédio. Para mim, o grande desafio é dar continuidade
ao trabalho bem-sucedido que o Calil [Carlos Augusto Calil, atual secretário
municipal de Cultura e diretor do CCSP de 2001 a 2005] e o Martin [Grossmann,
diretor do CCSP de 2006 a maio de 2010] desenvolveram nos últimos
anos, colocando a instituição como referência no município,
no estado, no país e no mundo.
O objetivo não é buscar o maior número de visitantes
ou de eventos por mês, e sim a eficiência e excelência
no nosso trabalho com o público. É preciso priorizar as
ações culturais e os eventos também de forma didática,
pensando que o Centro Cultural São Paulo é um espaço
de qualificação, de formação cultural e, portanto,
de educação. A nossa responsabilidade não é
só apresentar o espetáculo pura e simplesmente. Temos que
transformar, "usar" os nossos eventos, exposições
e shows como instrumentos de educação e formação
de plateia.
Foto:
Sônia Parma
Conte sobre as
suas experiências profissionais anteriores.
Todas as experiências profissionais que eu tive até hoje
foram importantes, desde o meu estágio, em 1986, no MAC-USP (Museu
de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo), que
considero a minha escola, onde pude aplicar o que eu havia adquirido no
meu curso universitário. O que mais me emocionou na minha passagem
por lá foi o dia em que tive a chance única e reservada
a poucos de pegar uma Tarsila do Amaral nas mãos. Como assistente
de produção de uma exposição, busquei na reserva
técnica o quadro A negra. Fui contratado depois e passei sete anos
como produtor de exposições e arte educador. Em 1994, fui
para o MAM-SP (Museu de Arte Moderna de São Paulo). Naquela época,
era um museu com apenas duas pessoas na curadoria. Fazia a produção
e a montagem das exposições e implementei o serviço
educativo. O MAM-SP foi um grande aprendizado. Passei a ser assistente
de curadoria de Tadeu Chiarelli [atual diretor do MAC-USP], que também
me orientou no mestrado em História da Arte que fiz na USP. Na
gestão de Ivo Mesquita [atual curador da Pinacoteca do Estado de
São Paulo], cheguei a curador do museu e tive a oportunidade de
experimentar as várias áreas da museologia. Em seguida,
participei de um edital inédito no país para os interessados
em dirigir o Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão
do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza. Meu perfil foi escolhido por um
conselho curador do museu e fiquei lá durante dois anos. Conseguimos
construir a reserva técnica da instituição e procuramos
qualificar os funcionários e formar um acervo. Em 2009, fui para
a Funarte (Fundação Nacional das Artes), convidado por Sérgio
Mamberti, presidente da instituição, para dirigir o Centro
de Artes Visuais. No período em que fiquei na Funarte, buscamos
superar uma grande distorção que existia internamente em
relação à verba destinada às diferentes linguagens.
Saindo da Funarte, onde a situação está mais equilibrada
hoje, e vindo para cá, acho que trago uma experiência muito
grande em administrar a precariedade, muito característica da maioria
de nossas instituições. Infelizmente, no nosso país,
as instituições culturais sempre estiveram em situações
bastante delicadas. Mas acredito que o CCSP tenha as condições
totais para superar isso. Temos público e uma equipe de funcionários
que me parece bastante coesa, eficiente e disposta a trabalhar.
De acordo com
matéria publicada pelo Estadão, você cogitou que fosse
criado um espaço museológico no CCSP. O que seria tornar
o Centro Cultural São Paulo um espaço museológico?
Esse é o seu principal plano para a instituição?
Não, o principal plano é dar continuidade ao trabalho que
já vem funcionando: os eventos, exposições, shows,
a biblioteca, etc. O que temos pela frente é potencializar. Existe
por trás disso, obviamente, uma infraestrutura necessária
que precisa ser recuperada ou construída. Quando o Calil me convidou
para a direção-geral, ele me fez algumas colocações.
A minha responsabilidade é dobrada, pois não estou apenas
fazendo uma gestão pura e simplesmente. Tenho também o compromisso
de comemorar os 30 anos desta instituição em 2012, e o CCSP
tem que estar bem, inteiro, funcionando de forma eficiente. Isso requer
a reforma dos teatros, que é uma prioridade, a construção
da reserva técnica para que possamos juntar todos os acervos em
um local em que haja condições de conservação,
preservação e facilitação ideal do trabalho
dos funcionários que cuidam deles. O secretário também
ressaltou a necessidade de valorizar todos esses acervos, que fazem parte
do coração do CCSP, e mostrá-los ao público
para que ele saiba de sua existência. Quando digo espaço
museológico, me refiro a uma coisa mais ampla, a um espaço
que tenha condições ideais de preservação,
conservação e apresentação dos acervos, voltado
não apenas às artes visuais. O CCSP trabalha e expõe
vários tipos de linguagens. Temos então que pensar sempre
em espaços multidisciplinares, de confluência das linguagens.
Faz parte dos
seus planos criar condições para que as obras da Coleção
de Arte da Cidade, que está sob os cuidados do CCSP, possam ser
expostas e mostradas para o público?
Sim, a proposta é tirar a coleção da reserva técnica
e mostrar para o público. Acho que é uma obrigação
de uma instituição como esta fazer com que o acervo circule,
levando-o para outros espaços da cidade e, assim, ampliando nosso
público. O acervo que está aqui é de interesse nacional.
Como detentores desse acervo, temos a obrigação de mostrar,
de dar acesso a ele, não somente a pesquisadores, mas ao público
em geral, além de buscar os mecanismos para que ele circule também
fora do prédio. É um trabalho desafiador, mas é de
desafios que nós vivemos. Uma vida sem desafios está fadada
à conformidade e mesmice.
Sua área
é artes plásticas. De que maneira você como diretor
geral vai trabalhar com todas as outras áreas?
Hoje, mesmo a nomenclatura mudou de artes plásticas para artes
visuais, porque as artes plásticas se "contaminaram"
com outras linguagens. As artes visuais são um campo da arte, o
mais abrangente de todos, porque "contamina" e é "contaminado"
por outras linguagens, como o teatro, a dança, o circo, a música.
Elas estão presentes em tudo, confluem com outras áreas,
que também se complementam.
Quando fui convidado para a direção-geral do CCSP, me senti
inseguro e pensei: "não conheço teatro nem música,
suficientemente talvez, para o cargo". Mas talvez não seja
tão importante isso. Na verdade, o importante é ter bons
curadores e funcionários que me ajudem a suprir esta minha deficiência
e conhecer mais todas as linguagens. Meu trabalho é de maestro
no sentido de orientar na busca que vamos desenvolver em comum: um centro
cultural dinâmico que tem o público e os artistas como centro.
O que queremos ser? Que público queremos atingir? São essas
perguntas que nós temos que nos fazer, buscando as respostas no
próprio público.