O ato de colecionar associa-se, entre outros,
ao de guardar. A guarda é uma retração. O objeto
é retirado do mundo, sai de circulação para repousar.
É resguardado, amparado e acondicionado em um espaço e distintos
dispositivos de acolhimento: armazéns, reservas, armários,
gavetas, trainéis, caixas, pastas, envelopes. Nesta condição
resta a segurança de um sono hibernal, o sossego, o silêncio.
Cadavre Exquis desperta do sono letárgico
e retira, da Reserva Técnica da Coleção de Arte da
Cidade de São Paulo, 25 obras para que conjuntamente integrem uma
ação lúdica, planejada e desenvolvida em parceria
pela Divisão de Curadoria e pela Divisão de Ação
Cultural e Educativa, apoiados pelo Núcleo de Arquitetura e pela
Divisão de Acervo, Documentação e Conservação.
Estas 25 obras, organizadas em oito trincas, não só atuam
como obras em exposição, mas como peças em um tabuleiro.
Durante 74 dias, obras, curadores, visitantes, mediadores, funcionários,
seguranças, crianças, adultos, curiosos, especialistas,
leigos, entre outros, participarão colaborativamente de um instigante
jogo no interior da Sala Tarsila do Amaral.
Cadavre Exquis convida a todos para um
mergulho coletivo na poética. Busque e não busque sentido,
interprete e associe livremente as obras, seus imaginários e contextos.
Construa e desconstrua leituras, narrativas, lógicas. Troque suas
impressões com os outros, pergunte, questione, duvide. Acima de
tudo divirta-se. Afinal, não é usual usufruirmos de oportunidades
como esta.
Martin Grossmann
"Imaginação querida, o que sobretudo
amo em ti é não perdoares."
André Breton
Cadavre Exquis traz à
tona aquilo que muitas vezes é encarado como problemático
na Coleção de Arte da Cidade: sua falta de unidade. Nesta
exposição, o caráter multifacetado do conjunto é
explorado como uma materialização do processo criativo em
si, seus labirintos e portas de entrada que levam a outras e outras, em
um espelhamento tão sutil quanto irreverente entre as obras expostas.
O ponto de partida é a ideia de cadavre exquis, ou corpo estranho.
Popularizado como um jogo, esse foi um procedimento muito usado na década
de 1920 pelo grupo surrealista liderado por André Breton. Uma pessoa
começa um desenho ou texto e cada novo participante vai adicionando
um elemento, sem ver os anteriores. O resultado são imagens e histórias
cuja autoria é de muitas mãos.
Um desenho feito a partir desse princípio pelos críticos
de arte e intelectuais Lourival Gomes Machado, Sergio Milliet e Mario
Neme é a chave da exposição, localizado no centro
da sala e ampliado no chão. Desenho que é conversa a três
mãos, de três autores brincando, desafiando-se naquilo que
tanto os movia: nossa necessidade vital de criar sentidos e nos comunicar.
O triálogo seria uma forma mais equilibrada de conversa? O jogo
das trincas de trabalhos proposto pela curadoria remete à estrutura
do desenho de Lourival, Sergio e Mario. Reunindo obras e artistas de diferentes
momentos da história da arte brasileira, a exposição
busca estabelecer diálogos, muitas vezes inusitados, entre trabalhos
que inicialmente não foram feitos para serem pensados juntos.
No desafio da retórica, como diz Roland Barthes, "a vitória
é sempre da terceira linguagem. Essa linguagem tem por tarefa libertar
os prisioneiros: dispersar os significados, os catecismos. Como no melhor
jogo de barras, linguagem sobre linguagem, infinitamente (...). Que a
diferença não seja paga por nenhuma sujeição:
sem última réplica".
E com tudo isso, é uma exposição para crianças,
não só como público, mas como inspiração
porque são em geral elas que, em seu estado mais íntimo,
não acham nada absurdo. Tudo pode fazer sentido, seja lá
de onde quer que se parta.
Débora Bolsoni e Fernanda Lopes
Lista de artistas
Antonio Gabriel Nássara
Antonio Manuel
Belmonte
Cabelo
Caciporé Torres
Caio Reiseweitz
Carmela Gross
Cildo Meireles
Dudi Maia Rosa
Edouard Fraipont
Eduardo Climachauska
Egídio Rocci
Fabiano Marques
Flavio Motta
J. Carlos
João Paulo Leite
Julio Plaza
Lourival Gomes Machado
Mario Neme
Nuno Ramos
Paulo Monteiro
Paulo Nenflídio
Rochele Costi
Sandra Cinto
Sergio Milliet
Sergio Romagnolo
Shirley Paes Leme
Stela Barbieri