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dia 7/8
Amazônia adentro, espetáculo infanto-juvenil em cartaz no Centro Cultural São Paulo desde o fim de junho, é o fio condutor do projeto Pra-lá de lendas, que propõe um diálogo entre as áreas artísticas, promovendo sessões de animações e contação de histórias sobre o universo folclórico brasileiro. No dia 7/8, dentro da programação do projeto, haverá audiodescrição da peça Amazônia adentro com Ana Maria Rebouças e Lizette Negreiros, que trabalham, respectivamente, na curadoria interdisciplinar e na curadoria de teatro do CCSP. Junto com Íris Fernandes e Ana Maria Campanhã, também funcionárias do CCSP, fizeram um curso promovido pelo Instituto Vivo para a formação de audiodescritores. "Achei que fazer esse curso era um modo de poder contribuir de alguma forma para que as pessoas portadoras de deficiência visual tivessem maior acesso à cultura", diz Íris, que trabalha na assessoria de imprensa do CCSP, divulgando a programação de dança. "O curso me interessou por vários motivos, principalmente pelo conhecimento de uma nova técnica e pela possibilidade de trabalhar aqui dentro do CCSP com a audiodescrição", comenta Lizette. Em maio deste ano, aconteceu no CCSP o primeiro espetáculo de dança com audiodescrição. Além desse recurso, a sessão especial de Crítica genética, da Cia. Danças, propôs que os portadores de deficiência visual assistissem ao espetáculo do palco para sentirem melhor a vibração dos movimentos da coreografia. Ana Maria Rebouças, uma das audiodescritoras de Crítica genética, conta que tentou incluir toda a movimentação dos dançarinos para que fosse possível acompanhar mentalmente o desenho que se formava no espaço. "Como a coreografia trabalhava com situações de relacionamento humano muito intensas, era impossível ao descrever não ser um pouco subjetiva". A objetividade, no entanto, prevalece na audiodescrição, sendo evitado, por exemplo, o uso excessivo de adjetivos. A descrição é feita de uma forma objetiva e concisa para que o próprio portador de deficiência visualize e interprete o trabalho artístico. Diferente da audiodescrição no cinema, no teatro ela é feita na hora, durante as pausas entre as falas dos atores, sem nenhuma interferência no roteiro da peça. "Os atores fazem tudo normalmente. Inclusive, quando improvisam, temos que nos adaptar ao improviso", explica Íris. Todos os aspectos visuais da peça, que é vista mais de uma vez pelo audiodescritor, e as ações físicas dos atores em cada cena são colocados num roteiro preparado prévia e especialmente para a audiodescrição, geralmente feita dentro de uma cabine acústica. Para Lizette, como a audiodescrição exige tempo e dedicação, os espaços culturais da cidade deveriam formar equipes de audiodescritores, além de promover uma programação constante com o recurso, como sugere Ana Maria Campanhã, da Divisão de Ação Cultural e Educativa. "Acho que devemos dar possibilidades ao portador de deficiência visual para que ele possa escolher se quer ir ao cinema, ao teatro, ou se quer ver uma exposição".
Audiodescrição - recurso de acessibilidade para a inclusão cultural das pessoas com deficiência visual Lívia Maria Villela de Mello Motta A audiodescrição é um recurso de acessibilidade que amplia o entendimento das pessoas com deficiência visual e intelectual, idosos e disléxicos em eventos culturais (peças de teatro, programas de TV, exposições, mostras, musicais, óperas, desfiles, espetáculos de dança), turísticos (passeios, visitas), esportivos (jogos, lutas, competições), acadêmicos (palestras, seminários, congressos, aulas, feiras de ciências, experimentos científicos, histórias) e outros por meio de informação sonora. Transforma o visual em verbal, abrindo possibilidades maiores de acesso à cultura e à informação, contribuindo para a inclusão cultural, social e escolar. Com esse recurso, é possível conhecer cenários, figurinos, expressões faciais, linguagem corporal, entrada e saída de personagens em cena, bem como outros tipos de ação e detalhes que são importantes para que as pessoas com deficiência visual construam o seu entendimento e interpretem aquilo que assistem. A audiodescrição é, dessa forma, um instrumento de inclusão cultural que contribui para desconstruir as barreiras que geralmente mantêm as pessoas com deficiência afastadas e isoladas da sociedade. Atividades como frequentar sessões de cinema, ir ao teatro e a outros espetáculos, visitar museus, exposições e mostras ainda não fazem parte do cotidiano das pessoas com deficiência e, mais especificamente, das pessoas com deficiência visual, principalmente por conta da falta de acessibilidade arquitetônica, comunicacional e atitudinal, confinando-os a conviver com seus pares em espaços especialmente destinados a eles. A audiodescrição traz a formalidade para algo que era feito informalmente graças à sensibilidade e boa vontade de alguns. Como uma atividade formal, ligada às artes visuais e ao entretenimento, teve início em 1981, nos Estados Unidos, como resultado do trabalho de Margaret e Cody Pfanstiehl. Até o final dos anos 80, mais de 50 casas de espetáculo já tinham em sua programação algumas apresentações audiodescritas. Na Inglaterra, essa prática data também dos anos 80, tendo início em um pequeno teatro chamado Robin Hood, na cidade de Averham, em Nottinghamshire, onde as primeiras peças foram narradas. Atualmente, há 40 teatros no Reino Unido que oferecem, regularmente, apresentações com audiodescrição. É o país líder nesse setor, seguido pela França, com 5 teatros. No Brasil, a primeira peça comercial a contar com o recurso de audiodescrição foi O andaime, no Teatro Vivo, em março de 2007. O teatro dispõe de aparelhos de tradução simultânea, e a audiodescrição é feita pelos voluntários do Instituto Vivo, que participam de curso de formação de audiodescritores. O Teatro Vivo foi e continua sendo o primeiro e único teatro brasileiro com recursos de acessibilidade para pessoas com deficiência visual. A Vivo, em parceria com Secretarias de Cultura, tem contribuído para divulgar a audiodescrição, levando peças, filmes e óperas para serem exibidos em outros teatros pelo Brasil afora. O cinema também vem se beneficiando com a audiodescrição em vários países europeus. No Reino Unido, o centro cultural Chapter Arts Centre, em Cardiff, foi o primeiro a fazer uso do recurso com tradutores ao vivo. Na França, a Fundação Valentin Haüy também começou a oferecer esses serviços. Na Europa e nos Estados Unidos, já são muitos os filmes audiodescritos. No Brasil, o primeiro filme no circuito comercial com audiodescrição foi Irmãos de fé, lançado em 2005. Outras iniciativas têm sido feitas, como o Clube do Silêncio, em Porto Alegre, que produziu alguns curtas-metragens com audiodescrição; o Ponto de Cultura, em Campinas, coordenado por Bell Machado; a Iguale, empresa de comunicação dirigida por Maurício Santana; além de trabalhos importantes sobre a audiodescrição desenvolvidos por pesquisadores, como Eliana Franco, da Universidade Federal da Bahia, e Francisco Lima, da Universidade Federal de Pernambuco. Também o Festival Internacional de Filmes sobre a Deficiência - Assim Vivemos, produzido por Lara Pozzobon e realizado no Rio de Janeiro e em Brasília, oferece acessibilidade para pessoas com deficiência visual e auditiva em todos os filmes desde 2003. Graciela Pozzobon, atriz, é responsável pela audiodescrição em todos os filmes do festival. Na televisão, o primeiro episódio envolvendo a audiodescrição aconteceu em 1983, na rede japonesa NTV. Nos anos 80, algumas experiências também foram feitas na Espanha, mas foi nos Estados Unidos que a audiodescrição decolou com programação produzida desde 1990 pela Media Access Group, o Descriptive Video Service. Esse serviço é patrocinado por doações e fundações, produzindo cerca de 6 a 10 horas de programação com audiodescrição por semana, que fica disponível em 50% das residências nos Estados Unidos. Essas transmissões são possíveis devido à presença de um canal secundário de áudio, a tecla SAP (secondary audio programme). Na televisão brasileira, já foram apresentados comerciais da Natura com audiodescrição feita pela Iguale, o programa Assim Vivemos no Canal Brasil e o documentário Vida em Movimento, de Marta Gil, sobre a inclusão das pessoas com deficiência, exibido pela TV Cultura. A evolução da televisão digital e de outras tecnologias do gênero mudarão o modo como as pessoas irão acessar a informação. À medida que as tecnologias abrem novas portas, outras poderão se fechar para as pessoas cegas e com baixa visão caso não sejam dados passos que assegurem meios alternativos de acessibilidade a esse novo ambiente. No Brasil, a audiodescrição já era para ter sido implementada na televisão desde junho de 2008, com duas horas de programação audiodescritas por dia. Entretanto, o recurso foi suspenso pelo Ministério das Comunicações, colocado em consultas públicas, e novas portarias foram baixadas. Uma verdadeira saga, que culminou com a publicação da portaria 188 de março de 2010, que prevê a transmissão de duas horas semanais de programas audiodescritos a partir de julho de 2011, já na TV digital, diminuindo drasticamente as possibilidades de acesso à cultura e informação. Os audiodescritores precisam de um curso de formação específico sobre o recurso que contemple informações sobre a deficiência visual, definição, histórico e princípios da audiodescrição, noções de sumarização, conhecimento sobre recursos técnicos, locução e, principalmente, atividades práticas. Antes de fazer a audiodescrição, precisam também assistir aos espetáculos e eventos que serão audiodescritos e ter informações sobre eles para se familiarizar com o tema, personagens, figurino, vocabulário específico, autor e cenários. Outro aspecto importante é a elaboração do roteiro para audiodescrição com tudo o que será inserido entre os diálogos. No teatro, esse roteiro costuma ser aprovado pelo diretor da peça, que verifica a coerência e a fidelidade ao tema e linguagem da obra. As informações sobre as cenas não podem expressar opiniões pessoais do audiodescritor. É, portanto, um trabalho minucioso que exige tempo, dedicação, objetividade e, acima de tudo, preparação. O
feedback das pessoas com deficiência visual que já experimentaram
o recurso comprovam a sua relevância e eficácia. Há um aumento
significativo do entendimento, o que contribui para a inclusão social e
cultural dessas pessoas, ampliando, e muito, suas opções de lazer
e cultura. Lívia Maria Villela de Mello Motta é doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC de São Paulo e atua tanto na área de formação de professores para a escola inclusiva como na área de inclusão cultural das pessoas com deficiência visual, com foco na formação de audidodescritores para teatro, cinema, TV e outros espetáculos. Foi responsável pela preparação dos audiodescritores da primeira peça com audiodescrição no Brasil, no Teatro Vivo, e continua formando profissionais para atuar nesse segmento, além de participar ativamente de atividades para divulgação, normatização e implementação do recurso na TV. |
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