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de
30/5 a 16/8
Objeto imaginado
curadoria: Paulo Monteiro
A partir da ideia de supressão do objeto artístico, a
Mostra traz um panorama da arte contemporânea pertencente ao acervo
da Coleção de Arte da Cidade de São Paulo, com
trabalhos de Antonio Dias, Cildo Meireles, Antonio Manuel, Artur Barrio,
Cássio Michalany, Rodrigo Andrade, Raquel Garbelotti e Wagner
Morales.
Terça a sexta, das 10h às 20h; sábados, domingos
e feriados, das 10h às 18h - Sala Tarsila do Amaral

The desert - Let it absorb, déc.1970.
Autor: Antônio Dias. Serigrafia sobre papel. 56,5 x 76,4 cm
Objeto imaginado
Paulo Monteiro
Curadoria de Artes Visuais
Depois do fim da Segunda
Guerra Mundial, em 1946, a pintura ocidental passou por um período
de crise. O plano da tela estava mais do que conquistado, estava esgotado,
ele parecia haver se transformado em uma superfície avessa ao
ato artístico, uma superfície estranha à própria
arte. Fazer uma nova forma surgir a partir da experiência abstracionista
mais radical parecia uma tarefa impossível.
Essa foi uma percepção,
entre outras, que colaborou no Brasil para o surgimento de trabalhos
como os de Lygia Clark, Willis de Castro e Helio Oiticica. O Objeto
Ativo, de Willis de Castro, é uma das formas mais radicais do
objeto de arte autônomo. Ele foi concebido com a consciência
das limitações da pintura. Nele a arte se dirige aos problemas
da arte ao mesmo tempo em que precipita no espaço tridimensional
a sua incompletude que faz parte da sua razão de ser. Para ver
um "objeto ativo" em todas as suas faces é preciso
se deslocar pelo espaço, mas, ainda assim, ele permanece inapreensível
em sua totalidade, surpreendente em sua tridimensionalidade, íntegro
em sua filiação estética construtivista e liberto
da rigidez doutrinária da arte concreta.
A radicalização do caráter
objetual da pintura propunha novas relações entre o espectador
e o objeto, mas também anunciava a crise da autonomia da arte.
Isso porque a nova arte se relacionava diretamente com o espaço
tridimensional, agora não mais considerado como um espaço
neutro com um espectador ideal estático. As características
físicas do espaço e com elas os aspectos sociais e políticos
que envolvem esse espaço passaram a ter um grau de relevância
considerável.
Nesse novo contexto a arte se transformaria
não mais unicamente a partir de sua linguagem, mas a partir da
linguagem de um espaço que não era mais aquele dos museus
e das galerias.
A ideia de público no sentido moderno, ou seja, o público
visto como alguém que pode entender e gozar da arte ou não,
sem que fosse necessário qualquer elemento de identificação
com o espectador, era agora contrariada.
Para esse novo público não
estático, não específico, em um espaço que
não era o do museu, a autonomia modernista do objeto artístico,
cuja linguagem sempre autorreferente e abstrata parecia distante da
realidade imagética das ruas e dos lugares frequentados pela
maioria das pessoas, poderia ser considerada um entrave para a comunicabilidade
da arte.
Com isso a ideia de objeto artístico
autorreferente ficava no lado oposto da grande parte das propostas da
vanguarda das décadas de 1960/70, já que esta ideia, além
de considerar o público e o espaço como ideal, ainda serviria
ao mercado de arte, pois se apresentava invariavelmente na forma de
um objeto comercializável.
Em toda parte surgiriam ideias nos anos
1960 e 1970 sobre a morte da pintura e a morte da arte e, consequentemente,
a morte do objeto. Segundo Josef Kosuth, um dos mais importantes artistas
desse período, "(...) quando alguém compra um Flavin
(referência ao trabalho de Dan Flavin), não está
comprando uma decoração luminosa; porque, se estivesse,
poderia simplesmente ir a uma loja de ferragens e comprar os materiais
por uma quantia consideravelmente menor. Não se está comprando
nada, está se subsidiando a atividade de Flavin como um artista".
Parte da vanguarda das décadas
de 1960/1970 acreditava que o objeto artístico teria uma eficácia
apenas passageira, ele, em si, não significaria nada, mesmo que
depois de sua instalação, e passível de se transformar
em registro histórico, ele passasse a ter o mesmo estatuto fetichizado
das demais pinturas e esculturas. Por um tempo, não muito preciso,
ele teria a vantagem de conter integralmente, e livre das considerações
estéticas, a mensagem transformadora e revolucionária
da cultura, o que nem a pintura e nem a escultura estariam aptas a fazer.
Mas se, por um lado, a supressão
temporária do objeto serviria como base para uma atuação
mais diretamente politizada e eficaz porque estaria livre do mercado,
por outro, várias experiências das décadas de 1960
e 1970: as performances de Joseph Beuys, as instalações
temporárias de Cristo ou de Kosuth, o corpo nu de Antonio Manuel
no MAM do Rio, tiveram um registro visual cuja criação
passava pela organização de um sentido. Esse sentido era
articulado em grande parte pelos materiais empregados na concepção
de objetos mesmo que provisórios.
Muitos artistas passaram a perceber essa
dimensão do objeto como algo que poderia ser positivo.
A supressão e a afirmação
do caráter objetual da arte passam a fazer parte de um mesmo
contexto: o da arte contemporânea. As designações
arte conceitual, arte-pop, arte minimalista, neoexpressionismo, ou outras,
são termos que servem mais aos dicionários e, claro, ao
mercado de arte e pouco para nos esclarecer qualquer coisa sobre essa
movimentação.
Toda essa situação reflete
em parte uma condição de sobrevivência da arte,
em primeiro lugar aos sucessivos anúncios da morte da linguagem
artística tradicional e em segundo aos anúncios da morte
do objeto artístico.
Nessa condição de sobrevida, a arte precisou estar de
algum jeito sempre próxima da sua negatividade o que parece ter
sido essencial para sua permanência.
A questão da morte da arte traduzida
como a supressão da imagem ou da materialidade dos objetos se
transformaria em mais um dos temas recorrentes da própria arte.
Na Coleção de Arte da Cidade
de São Paulo encontramos vários trabalhos que se aproximam
da idéia de supressão e de ausência. Nos Flans,
de Antonio Manuel, existe a relação do corpo nu, ausência
de vestimenta, com a matriz de um jornal; ou na substituição
da arte pela "ilustração da arte" na gravura
intitulada The Desert, de Antonio Dias. Quando olhamos a gravura, onde
se vê a figura de um metro, em um trabalho de Cildo Meirelles,
inevitavelmente nos perguntamos se aquelas seriam medidas reais ou fictícias
nos lembrando da ausência do "metro" objeto. Vemos ainda
o desaparecimento da imagem nas fotografias de Fabio Miguez, o desaparecimento
da tela em uma pintura sutil de Rodrigo Andrade e a ausência do
dinheiro nas palavras dos cem, de Jac Leirner.
Com mais ou menos aspectos materiais,
a parte boa da nova arte parece muitas vezes nos chamar a atenção
para o aspecto incompleto e também negativo de seus objetos e
propor a todo o momento uma relação com alguma outra coisa
que não eles, como que nos estimulando à criação
de um outro objeto, sem corpo, sem materialidade, um objeto imaginado.
Lista de obras
Albano Afonso
(São Paulo, SP, 1964)
Sem título (da série: Fazendo estrelas após Van
Gogh), 2003/2004
fotografia
98x142,9cm
Antônio Dias
(Campina Grande, PB, 1944)
The desert - Let it absorb, déc.1970
serigrafia sobre papel
56,5x76,4cm
Antônio Manuel
(Avelãs de Caminha, Portugal, 1947)
Jornais clandestinos, 1975
impressão sobre papel jornal
54,7x37,2cm
Isso é que é, 1976
flan
53,6x38,2cm
Corpo fechado, 1975
flan
55x39cm
Artur Barrio
(Porto, Portugal, 1945)
...Pão... Bread... Sit... C...Y... CAMPOS, 1970/1981
impressão off-set (cartão postal) e hidrográfica
sobre papel
11x15cm
Situação T/T, 1, 1ª
Parte, 1970/1981
impressão off-set (cartão postal) e hidrográfica
sobre papel
15x10,9cm
P... H......., 1969/1981
impressão off-set (cartão postal) e hidrográfica
sobre papel
11,4x15,5cm
Registro de ação: Marfim
Africano..., 1980/1981
fotografia
17,1x23,9cm
Registro de instalação:
você lê... você vê?, 1980/1981
fotografia
17,7x23,9cm
Situação: nevoeiros ou
os ouvidos à distância, 1981
fotografia e hidrográfica sobre papel
dimensões variáveis
Situação: 2 relação
de pontos simultâneos, 1981
hidrográfica sobre papel
23,9x17,8cm
Sem título, 1980/1981
fotocópia sobre papel
dimensões variáveis
Carlos Fajardo
(São Paulo, SP, 1941)
Neutral, 1966
impressão off-set sobre papel
29,5x21cm
Cassio Michalany
(São Paulo, SP, 1949)
Sem título, 2002
esmalte sintético sobre tela
120,5x320cm
Cildo Meireles
(Rio de Janeiro, RJ, 1948)
Sem título (série Metros), 2003
serigrafia sobre papel
59x75cm
Fábio Miguez
(São Paulo, SP, 1962)
Deriva II, 1997/98
fotografia colada sobre MDF
71,3x99,1x1,2cm
Deriva II, 1997/98
fotografia colada sobre MDF
71,6x99,1x1,2cm
Deriva II, 1997/98
fotografia colada sobre MDF
71,6x99,1x1,2cm
Gabriel Borba
(São Paulo, SP, 1942)
Nada a declarar, 1981
caneta hidrográfica e carimbo sobre papel
84,7x59,6cm
Jac Leirner
(São Paulo, SP, 1961)
O Livro (Os cem), 1987
impressão off-set sobre papel
66,9x57x3,8cm
Járed Domício
(Fortaleza, CE, 1973)
Limpando o céu, 2003
plotagem, vassoura e vitrine
dimensões variadas
José Resende
(São Paulo, SP, 1945)
Convite, 1982
plástico e borracha
10,4x15,6cm
Julio Plaza
(Madrid, Espanha, 1938 São Paulo, SP, 2003)
Sem título, dec. 1970
fósforo e fita crepe sobre papel
29,5x21cm
Katia Prates
(Porto Alegre, RS, 1964)
Dia, 2003
fotografia
170x270,9cm
Laura Huzak Andreato
(São Paulo, SP, 1978)
Elementos externos: fachada e piso-Degrau, 2004
lajota de cerâmica e madeira
12x72x26cm
Elementos externos: fachada e piso-Beiral,
2004
pastilha de cerâmica, madeira, metal e vidro
9,5x90x34cm
Leon Ferrari
(Buenos Aires, Argentina, 1920)
Autopista del Sur, 1981
heliografia sobre papel
107,4x99,9cm
Cruzamento 3, 1982
heliografia sobre papel
107,5x100,5cm
Lydia Okumura
(Osvaldo Cruz, SP, 1948)
Situations, 1975
serigrafia sobre papel
171,9x217,5cm
Lygia Pape
(Nova Friburgo, RJ, 1929 - Rio de Janeiro, RJ, 2004)
Eat Me, 1976
serigrafia sobre chapa de alumínio
39,9x46cm
Raquel Garbelotti
(Dracena, SP, 1973)
Sem título (da série Paisagem sucessiva), 2003
fotografia
67,2x140cm
Rodrigo Andrade
(São Paulo, SP, 1962)
Sem título, 2001
óleo sobre tela
34,9x45,1cm
Sérgio Sister
(São Paulo, SP, 1948)
Sem título, 1995
óleo sobre tela
140,2x120,3cm
Wagner Morales
(São Paulo, SP, 1971)
Cassino, 2003
vídeo digital
duração: 1333
Arquivo Multimeios/CCSP
Revista Malasartes número 1, 1975
Revista Malasartes número 2, 1976
Revista Malasartes número 3, 1976

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