"Você vê
onde o Centro Cultural está e como pode fazer com que ele participe
do desenvolvimento da cidade"
entrevista: Marcia Dutra
edição: Ariel Bravo e Vinícius Máximo
Foto: Carlos Rennó
Em
2008, a cidade de Seul, capital da Coreia do Sul, ofereceu à prefeitura
de São Paulo vagas para o Programa de Mestrado em Administração
Pública da Universidade da Coreia. Hoje a parceria está em sua
quarta edição. No ano passado, o jornalista e funcionário
do Centro Cultural São Paulo Eder Brito foi um dos três selecionados
para a bolsa de estudos.
Treze meses depois,
Eder está de volta ao Centro Cultural. Em entrevista ao Informal, ele conta
sobre sua trajetória como funcionário da prefeitura e a experiência
pessoal e profissional na Coreia.
Faça um breve relato sobre sua trajetória na prefeitura
até chegar ao Centro Cultural São Paulo.
Eu entrei na prefeitura no dia 4 de fevereiro
de 2003. Fui trabalhar em um posto de saúde na Zona Sul de São
Paulo. Eu trabalhava na recepção e foi uma experiência
bem legal do ponto de vista pessoal, humano. Me ajudou muito a aprender
a lidar com pessoas de todos os níveis e em todos os tipos de situação.
Eu entrei como ATA (assistente técnico administrativo), hoje sou
AGPP (assistente de gestão em políticas públicas).
Depois da Secretaria de Saúde, tive passagens pela Secretaria de
Esportes e vim para o Centro Cultural em novembro de 2009. Sempre gostei
muito daqui e sempre imaginei como seria trabalhar aqui. Eu frequentava
principalmente a Sala Adoniran Barbosa para ver shows. E estando por dentro
você vê que é muito diferente do que simplesmente vir
assistir a um show a cada três semanas.
E na Secretaria de Esportes você fazia o quê?
Eu
era assessor de imprensa e comunicação. Comecei fazendo apenas assessoria
de imprensa e matérias para o site, mas conforme você vai mostrando
vontade, algumas pessoas conseguem identificar isso e vão te dando oportunidades
para desenvolver outros trabalhos. O trabalho ficou grande o bastante para que
eu pudesse dizer que era assessor de comunicação. Foi um período
sensacional de quase 5 anos. Agradeço as oportunidades que eu tive de promoção
profissional e de entender melhor o mercado em que eu estava, tanto o mercado
de comunicação quanto o mercado "prefeitura de São Paulo".
Do ponto de vista técnico e político, foi uma escola.
No ano de 2010, você participou do Programa de Mestrado em Administração
Pública da Universidade da Coreia, num convênio da prefeitura
de São Paulo com a prefeitura de Seul, na Coreia do Sul. Conte
sobre todo o processo de inscrição, seleção.
Por que você se interessou por fazer um mestrado num lugar tão
longe, tão diferente do nosso dia a dia?
Esse programa começou em 2008. Eu
quis me inscrever na primeira edição, só que eu estava
num momento profissional e pessoal muito legal. Essa decisão nunca
é somente profissional quando você escolhe ficar tanto tempo
fora do seu país e longe da sua família. E decidi continuar
na Secretaria de Esportes porque estava começando uma Virada Esportiva,
um momento que eu não queria perder na minha carreira.
Depois, em 2009, vim para cá. Comecei a desenvolver um trabalho
e a entender melhor o Centro Cultural. Acho que todo mundo precisa de
um tempo para digerir várias informações. Um local
com tanta história, tanta gente, tantas vocações...
Mas quando a Secretaria de Gestão Pública lançou
a bolsa novamente no ano passado, confesso que eu não resisti.
Pessoalmente senti que era a hora: eu estava pronto para ficar longe da
minha família, pronto para viver a experiência de ser estrangeiro
em outro lugar. E o lado profissional pesou também. Senti que podia
ser mais útil para a prefeitura fazendo um mestrado e me tornando
um funcionário mais empolgado.
O processo de inscrição foi relativamente simples: uma entrega
de documentos e um pré-projeto do que você gostaria de estudar
e pesquisar. Foram 7 pessoas inscritas para 3 vagas. Você precisa
provar desde a sua capacidade de se comunicar e de ficar longe da família
até a qualidade do seu projeto e do seu discurso de convencimento.
Qual era o projeto de mestrado? Ele mudou, já foi entregue?
Ele mudou totalmente. Os avaliadores querem
saber qual o seu interesse de linha de pesquisa para, depois que você
fizer todas as disciplinas, saber se aquilo ainda é realidade.
Quando você confronta o planejamento com a realidade ele se transforma
em outra coisa. Com a dissertação foi mais ou menos isso.
Eu queria ter feito algo mais ligado à comunicação
eletrônica na prefeitura de São Paulo, mas a dissertação
acabou sendo sobre a participação popular e a comunicação
no governo municipal. Basicamente, é uma análise da comunicação
e da participação dos conselhos populares nas políticas
públicas da cidade. Pela minha formação, eu não
tinha como não falar de comunicação, mas virou muito
mais um trabalho sobre democracia e participação. Eu ainda
não entreguei. O primeiro ano de aulas é na Coreia e depois
você tem mais um ano para terminar a dissertação aqui.
Também levei para a coordenação e o governo de Seul
a ideia de uma associação de alunos e ex-alunos, que virou
um fórum online para a gente continuar trocando experiências.
E já está funcionando.
Havia representantes de outras cidades no programa de mestrado?
Todas as turmas têm 20 alunos. Os
professores são coreanos, falando em inglês e com formação
em faculdades europeias e americanas. Na minha classe, havia três
brasileiros, chineses de Beijing e de Shandong, e estudantes de Hungria,
Indonésia, Sri Lanka, Mongólia e Taiwan. A cada turma muda
bastante o quadro, mas a maioria sempre é asiática.
O que foi mais marcante nessa experiência na Coreia?
É estranho falar isso, mas acho
que eu cresci influenciado por um monte de culturas e eu nunca tinha entendido
o que era ser brasileiro. Talvez, o choque positivo pra mim tenha sido
perceber o quanto o Brasil, apesar de sermos essa mistura maluca de raças,
credos, religiões, influências históricas, é
único ao mesmo tempo em que é uma farofa de tudo. Eu me
senti brasileiro principalmente no jeito de me expressar. Acho que o jeito
como a gente se relaciona com as outras pessoas realmente é diferente
das outras culturas que eu conheci. A coisa da frieza e da diferença
realmente não é brasileira. Eu também senti isso
vendo outros brasileiros em contato com essas outras culturas, principalmente
a asiática como um todo.
Um dia uma amiga coreana me perguntou:
"Por que você ri e é feliz o tempo inteiro?"
"É só o jeito de conversar, de tentar tornar o momento
da conversa mais agradável".
"Mas você fica assim mesmo quando você está triste
ou quando você não tem um motivo real para ficar feliz?".
Eu prefiro achar que esse é o jeitinho brasileiro a partir de agora.
Eu voltei respeitando e gostando muito mais do meu país, do jeito
como a gente faz política, do jeito como a gente se relaciona entre
a gente e com a nossa cultura, por mais diversa que ela seja.
O que você acha que conseguiu levar da sua experiência anterior
na administração pública para lá?
É bom perceber que muitos dos problemas
não são apenas problemas brasileiros. Corrupção
não é um problema brasileiro, é um problema mundial.
Eu vi uma chinesa chorando quando começou a falar do trabalho dela,
porque ela tinha que lidar com corrupção todo dia.
Quando eu falava para alguém na Coreia que eu era funcionário
público, olhavam como se eu fosse guitarrista de uma banda famosa,
alguém que venceu na vida. A sociedade brasileira tem uma imagem
do funcionário público preguiçoso. Quem está
dentro sabe que é mentira. Sabe que existem esses personagens mesmo,
mas que também existem pessoas preguiçosas na iniciativa
privada. Eu acho que os asiáticos enxergam o funcionário
público dos governos deles, apesar da corrupção,
com mais respeito.
As trocas de experiência foram constantes. Chegamos a fazer uma
conta de quantas apresentações cada aluno fez durante o
curso... Foram quase 200 apresentações em 13 meses. Desde
pequenas apresentações dentro da classe até apresentações
em fóruns, simpósios, congressos e outros eventos da universidade.
Você falava sobre tudo. Eu falei muito dos locais nos quais trabalhei,
inclusive do Centro Cultural, mas às vezes era uma discussão
sobre transporte, mobilidade urbana, orçamento, problemas políticos...
Realmente é um curso de administração urbana, para
você olhar para a cidade como um todo. Hoje entendo o meu trabalho
melhor. Você vai vendo as camadas e vê onde o Centro Cultural
está e como pode fazer com que ele participe do desenvolvimento
da cidade. Não é olhar para o desenvolvimento do Centro
Cultural São Paulo, do Ricardo Resende (diretor do Centro Cultural),
do Eder Brito... É olhar para o desenvolvimento do Centro Cultural
enquanto um elemento de uma engrenagem maior que é a administração
urbana. Eu tenho certeza de que era esse o objetivo dos professores.
Todos eram servidores de alguma prefeitura, de todos os departamentos
possíveis, com as mais diversas formações. E as pessoas
sempre sentiam um pouco de inveja porque eu era o único que falava
que trabalho num lugar em que posso assistir a um show de música
de vez em quando, ver peças de teatro... Eu era o único
servidor de todas as prefeituras que trabalhava num lugar como o Centro
Cultural, o que me ajudou a voltar gostando muito mais do local em que
eu trabalho.
O que você pode citar como mais importante a ser trazido para o
dia a dia do Centro Cultural São Paulo?
Uma cultura de planejamento. O curso te
ensina a ficar obcecado por planejamento, execução, avaliação.
Eu acho que foi uma lavagem cerebral positiva não só para
o trabalho, mas para tudo na vida. Se você quer comprar uma casa
daqui a 15 anos, qual o planejamento passo a passo pra você fazer
isso? Eu acho que todo mundo está meio convencido da necessidade
de planejamento, apesar de um monte de gente não planejar, fazer
as coisas na intuição... Você precisa de um pouco
de intuição, mas só na hora de resolver problemas
pontuais. O problema é quando as pessoas usam a intuição
para o macro, para tudo. Mas nem todo mundo está convencido da
necessidade da cultura de avaliação porque isso implica
olhar para trás. Eu acho que você tem que ser o primeiro
crítico do seu próprio trabalho.
Eu recomendo que as pessoas se inscrevam porque a bolsa é sensacional.
Eu fiquei com muita pena em saber que ninguém se inscreveu este
ano. Pode parecer assustador ficar um ano fora... se acontecer algum problema
na família ou tiver que terminar um namoro? Tem um monte de coisa,
mas vale a pena. Quando você olhar para trás, terá
sido só um ano.
Todo mundo reclama que a prefeitura não dá oportunidades,
mas talvez ela dê e você tenha um pouco de medo de sair da
sua zona de conforto. Então, procurem essa ou outras bolsas, ou
até mesmo um cursinho de HTML na Prodam.