| conteúdo menu principal menu lateral | ||||||||||||||||||||||||||
|
março de 2007
|
english version
|
|||||||||||||||||||||||||
|
Arquivo
Saiba Mais
|
clique aqui para visualizar a versão original, em inglês
Larry Rohter (New York Times - 24/1/2007) tradução: Paula Bassi Da metade dos anos 1930 em diante, o etnomusicólogo americano Alan Lomax liderou expedições que buscavam cantores autênticos de blues e música folk no sul dos Estados Unidos. Graças a estes esforços, os cantores Muddy Waters e Woody Guthrie gravaram seus primeiros álbuns e foi estabelecido um modelo para a música popular americana.
No começo do ano de 1938, Mário de Andrade, Secretário Municipal de Cultura na época, despachou uma Missão de Pesquisas Folclóricas de quatro membros que foram às terras do nordeste do Brasil em uma missão semelhante. Sua intenção era gravar o máximo de música l e o mais rápido possível, antes que as influências do rádio e do cinema começassem a transformar a cultura característica da região. Viajando de caminhão, cavalos e burros, eles gravaram quem e o que parecesse interessante: carregadores de piano, peões, mendigos, sacerdotes do candomblé, trabalhadores de pedreiras, pescadores, trupes de dança e até mesmo crianças brincando. Mas a coleção da missão brasileira acabou abandonada por aqui. Apenas agora, 70 anos depois, o registro do que Mário de Andrade chamaria de "um tesouro prodígio fadado a desaparecer" está finalmente disponível, no formato de uma caixa com seis CDs, que documentam a raiz de virtualmente todos os estilos importantes da música brasileira moderna, do samba ao mangue beat. "Esse é um evento importante porque todas as principais tendências, sejam elas européias, africanas ou indígenas originalmente, são representadas e são detectáveis", diz Marcos Branda Lacerda, o diretor do projeto, organizado pelo governo aqui, na maior e mais próspera cidade do Brasil. "Abrange de tudo e, quando você escuta, você pode ouvir as influências que irradiam" e que faz a música brasileira a força global que é atualmente. A coletânea, chamada "Música Tradicional do Norte e Nordeste - 1938", consiste em mais que sete horas de música, retiradas de 1.299 faixas tocadas por 80 artistas, o que totaliza cerca de 34 horas que o time folclórico gravou em cinco estados do norte e nordeste do Brasil durante a primeira metade de 1938. Muitos dos estilos documentados nas gravações provaram ser uma grande influência no movimento tropicalista, que surgiu por aqui nos anos 1960 e que hoje tem admiradores internacionais como David Byrne, Beck e Devendra Banhart. Os fundadores do movimento, principalmente Caetano Veloso, Tom Zé e Gilberto Gil, que é atualmente Ministro da Cultura, todos vieram do interior da Bahia, estado do nordeste, e abertamente reconhecem sua dívida.
"Essa é a música que eu ouvia quando era criança na loja de meu pai e é de onde toda a riqueza e força da música popular brasileira veio", disse Tom Zé em entrevista. "Como filhos de portugueses, o Caetano, o Gil e todos nós tropicalistas absorvemos essa influência folclórica, transformamos e a levamos ao mundo". Tom Zé também notou que a música nordestina brasileira que veio de Portugal resultou da miscigenação cultural, especialmente da dominação árabe por lá durante a época medieval. As letras de algumas canções da coletânea datam de contos de trovadores daquele tempo, mas a presença árabe manifestou-se principalmente por meio de um estilo de vocal caracterizado pelo apreço por modulações vocais. "Essa influência ainda está na música popular brasileira de hoje", ele disse. "Eu ouço de uma forma mais clara e bela quando o Caetano canta. Eles desenvolveram uma maneira sofisticada e criativa de usar essas modulações que eram muito comuns nos cantores que ouvimos no sertão nordestino". Apesar do foco principal da missão estar principalmente nos ritmos, os violonistas ,provavelmente, vão se interessar pelos terceiro e quarto discos, que incluem gravações de duplas conhecidas como repentistas. Assim como o blues, o gênero é baseado no violão e enfatiza o desafio e a resposta, além de freqüentemente empregar uma mistura de bravatas e insultos que os americanos conhecem como "the dozens". Há trinta anos, depois de uma visita por aqui, um repórter mostrou algumas gravações de repentistas para o guitarrista primitivista americano John Fahey, que se interessava por música folclórica de todas a partes do mundo. Ele demonstrou curiosidade pelas afinações e escalas que os repentistas usavam, e comentou que alguns dos vocais roucos, ásperos e de certa forma anasalados, lembravam os dos cantores e guitarristas Son House e Bukka White. Tom Zé diz: "me dá arrepios só de pensar nessas semelhanças entre o blues americano e a música nordestina; é como se a mãe África acabasse com netos no Alabama e em Pernambuco", o estado no qual o time folclórico começou sua missão. Segundo Lacerda, das três principais correntes que se misturaram para tornar o Brasil o que é hoje, o elemento ameríndio é menos representado nos discos que os componentes europeus e africanos. Mas a coleção contém músicas executadas por bandas de pífano e grupos de percussão, que são originariamente indígenas, assim como gravações de praiás, um ritual musical indígena que praticamente desapareceu do Brasil moderno.
O projeto original foi idéia de Mário de Andrade, um dos intelectuais brasileiros mais proeminentes do século XX. Poeta, novelista, crítico, historiador de arte, musicólogo e autoridade pública, Andrade estudou para ser pianista, mas em 1923 se tornou um dos fundadores do movimento literário moderno, que dominou o cenário cultural brasileiro por décadas. "Nos anos 1930, Mário de Andrade e outros sentiram uma urgência em registrar as manifestações de cultura popular antes que fosse tarde demais", afirmou a musicóloga Flávia Camargo Toni, que escreveu parte dos textos presentes na coletânea. "Ainda não havia chegado eletricidade na maior parte do nordeste, então a vida era completamente isolada e poucas pessoas viajavam. Ele sentiu que tinha que aproveitar esse momento". Durante a Segunda Guerra Mundial, cópias das gravações foram enviadas à Biblioteca do Congresso, em Washington. Uma década atrás, a Rykodisc lançou um disco co-produzido por Mickey Hart, baterista do Grateful Dead. A produção se chamou "The Discoteca Collection" e fazia parte do projeto "Endangered Music", da Biblioteca do Congresso. Mas por aqui os esforços para recuperação só começaram em 2000. "Quando eu vi pela primeira vez o material nos anos 1980, o teto estava caindo e com goteiras, achei que iríamos perder tudo", disse Lacerda. "Mas eu fiquei grandemente surpreendido, quando descobri que a maior parte dos discos de 78 rotações estava em boas condições, e os que não estavam nós tivemos sorte de achar duplicatas, que poderíamos passar direto para CD e eliminar muitos dos chiados". Durante as viagens, a expedição de Mário de Andrade também coletou instrumentos musicais e outros objetos, filmaram e fotografaram danças e festivais. O resultado desse trabalho foi colocado à mostra no centro cultural municipal, incluindo os cadernos de anotações do time, o equipamento da marca Presto Recording Corporation que a equipe usava e transcrições de entrevistas e artistas. No tempo em que essas gravações foram feitas, o Brasil era governado por uma ditadura que tinha tornado ilegais as práticas religiosas afro-brasileiras. Como resultado, o time folclórico teve que requerer uma carta de autorização da polícia para continuar seu trabalho e "uma boa quantidade de objetos que eles coletaram, especialmente tambores, vieram de materiais confiscados pela polícia", disse Vera Lúcia Cardim, uma curadora do centro. A música brasileira,na atualidade, está exposta a influências internacionais, mas, a herança deixada pelo material coletado pela Missão folclórica continua relevante. Tom Zé se referiu especificamente a "What's Happening in Pernambuco: New Sounds of the Brazillian Northeast", disco lançado pelo selo Luaka Bop, de David Byrne, em sete de fevereiro. Ele disse que a coletânea estava repleta de ritmos derivados daquilo que a expedição folclórica documentou.
No passado,
o Brasil "não tinha uma cultura de preservação",
afirmou Flávia Camargo Toni, o que complicava os esforços de inserir
a evolução musical do país dentro de um contexto apropriado.
Mas com as gravações da Missão finalmente disponíveis,
ela diz, os brasileiros agora têm a "possibilidade de ouvir o passado
pensando no futuro". "Nós podemos mostrar o que nós fomos,
o que somos hoje e como isso aconteceu", ela diz.
|
Hoje no CCSP
Rede sem fio Mailing
Parceiros Plugins
Melhor visualização |
||||||||||||||||||||||||
![]() |
||||||||||||||||||||||||||
|
|
||||||||||||||||||||||||||