No show do Ultraje a Rigor
Relato de Ivan Castelo Branco

Sou freqüentador quase que assíduo do Centro Cultural São Paulo. Sempre que posso vou a esse espaço que é um dos mais simpáticos e agradáveis da cidade. Já assisti a espetáculos em todas as salas: peças de teatro na Paulo Emílio, Jardel Filho e Ademar Guerra, produções cinematográficas na Sala Lima Barreto, além das exposições. Adoro também ir à biblioteca e dar uma passadinha na Gibiteca Henfil, viajar nas aventuras do Homem-Aranha, Batman ou Super-Homem. A sala de que eu mais gosto é a Adoniran Barbosa, voltada aos shows e espetáculos músicais e teatrais. Uma arena na qual os artistas mostram seu talento como se fossem guerreiros cercados pelo público sempre ávido por música. Assisti a inúmeros espetáculos naquele espaço: Ira!, Zé Ramalho, Zé Geraldo, Mawaca, Blues Etílicos, Big Alambique, Golpe de Estado, Korzus, Capital Inicial e Pavilhão 9, só para ficar em alguns.

Um que marcou época no Centro Cultural foi o Ultraje a Rigor. Liderado por Roger Rocha Moreira, o grupo fez enorme sucesso na década de 80, com músicas irreverentes e bem-humoradas, além de forte crítica social. Se não me engano, aconteceu numa apresentação dos caras em 1999. A banda estava retomando sua produção após um período de ostracismo e iria tocar no CCSP. Acho que era um sábado e combinei com minha namorada alguns dias antes. Na noite do show, claro, havia uma fila considerável, o que indicava que a sala iria lotar. Prefiro assistir aos eventos da Sala Adoniran no piso inferior, onde ficam as cadeiras e o público, mais próximo, pode literalmente cantar com os artistas. Após comprar os ingressos e adentrar a sala, descemos as escadas e, como as cadeiras da frente já estavam ocupadas, nos sentamos na última fileira no lado oposto à mesa de som. O ambiente estava propício para o rock: casa cheia, tempo agradável e a adrenalina subindo na espera da banda.

Obviamente, os caras não entraram na hora, pois show de rock que se preze tem que atrasar. Por volta das sete e vinte, apagaram-se as luzes e a banda surgiu, Roger na frente, seguido por seus companheiros. Já nos primeiros acordes de "Rebelde sem causa", a galera que estava sentada ficou em pé e foi assim até o final. O jeito foi levantar também, caso contrário não seri possível ver o show. Alguns espertinhos foram além e ficaram em pé nas cadeiras. Eu e minha namorada tivemos que aderir àquela prática deplorável de dano ao patrimônio público, senão só veríamos cabeças, troncos e membros chacoalhando na nossa frente. Quase no final do show aconteceu o inusitado – o assento da minha cadeira se partiu ao meio e eu, tomado pelo susto e surpresa, fiquei com uma das pernas presas entre as duas metades avariadas. Minha namorada me ajudou a desprender a perna me perguntando se eu estava bem. Nem esperamos o término da apresentação, pois fiquei com receio de que algum funcionário ou segurança viesse atrás de mim querendo o ressarcimento da cadeira. Depois dessa aprendi a nunca mais ficar em pé nas cadeiras durante um show, que afinal de contas são feitas para acomodar outra parte do corpo.