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Anos 80 | Gosta de poesia? | Como tornei-me um apaixonado por livros | Rua Vergueiro, 1000 | Ultraje a Rigor no CCSP

Envie também sua história para o email siteccsp@prefeitura.sp.gov.br

 

Anos 80

Fátima Miranda (artista plástica e arte-educadora)

"É um enorme prazer poder revelar histórias e mais histórias que vivenciei no Centro Cultural São Paulo. Desde a minha adolescência, dizia que o CCSP era a minha segunda casa. Aliás, foram praticamente vinte anos freqüentando este ambiente cultural multifacetado. No ano de 1984, eu estava com meus dezessete anos de idade, sedenta por encontrar pessoas que falassem a mesma língua, ou seja, que curtissem música, teatro, natureza e pintassem, enfim, que criassem, discutissem política.

Estávamos no início da abertura política do Brasil e o CCSP parecia conceber uma energia viva, um local acolhedor para aqueles que desejavam ter acesso à cultura como um todo e dentro de um ambiente paisagísticamente tão bem desenhado. Assisti a inúmeros shows musicais, apresentações de dança, teatro, fiz diversos cursos. Conheci jovens estudantes da escola federal, com quem cantava as canções dos mineiros. Sempre sentados em círculo, tínhamos até um público que nos acompanhava, dentre eles, um mendigo que se emocionava ao ouvir sua música preferida.

Conheci o escritor Plínio Marcos no corredor central do CCSP, ele estava sempre com seus livros na entrada da Sala Adoniran Barbosa. Naquele tempo, os artesãos expunham seus trabalhos no corredor interno - botons sobre ecologia, sobre o partido humanista. Vendiam-se, também, sucos e lanches naturais e ouvia-se muita, muita música. O jardim superior era um local sagrado, ali nos reuníamos em círculo novamente, cantávamos e apreciávamos lá de cima a rua Vergueiro, tão movimentada, como se estivéssemos seguros sobre aquela grama verde e limpa.

Dentre os amigos, havia os garotos músicos do exército, os chamados "recos", os poetas, os politizados. O CCSP começou a abrigar também muitos artistas e professores chilenos que haviam fugido da ditadura de Pinochet. Era uma composição belíssima de jovens que amavam a natureza, a música, que ali se encontravam porque havia um sentido mágico e puro da vida. Tudo isso comportava o cenário cultural da rua vergueiro número 1000".

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Gosta de poesia?

Nelson de Souza Lima (jornalista)

Não sei se a maioria dos leitores têm conhecimento , mas o Centro Cultural São Paulo foi quase inundado em 1991 quando uma chuva colossal castigou a cidade. A tormenta foi tão forte que levou a instituição a um período de “férias” forçadas para reforma e manutenção. Durante um ano e dois meses o prédio, ficou fechado e nenhum espetáculo aconteceu, apenas os setores administrativos continuaram funcionando. No dia da sua reabertura, em outubro de 1992, a então prefeita Luiza Erundina compareceu cercada de assessores, jornalistas e curiosos. Aos poucos o público, que havia migrado para outros espaços, foi retomando o hábito de freqüentar esta importante instituição cultural de nossa cidade.

Outro fato curioso foi a volta de artistas anônimos que se identificavam como poetas independentes. Circulando pelos corredores do CCSP, sobretudo no foyer, eles esperavam a chegada do público para os espetáculos, olhavam, analisavam o perfil da pessoa e partiam para a abordagem. Com a indefectível pergunta: “Gosta de poesia?”, passavam a acompanhar a pessoa, tentando levá-la a adquirir um exemplar da obra apresentada. Mesmo diante da resistência, eles insistiam e tentavam de qualquer forma realizar a transação. Eu mesmo fui várias vezes surpreendido por estes poetas, mas nunca adquiri nada. Um deles, inclusive, tornou-se meu amigo. Embora não tivesse afinidade com sua poesia, criamos um vínculo que se manifestou em outras áreas como a música, uma vez que gostávamos dos mesmos gêneros. Havia outro que se valia da criatividade e vestia-se como Carlitos, o inesquecível personagem de Charles Chaplin. Esse que era muito sabichão preferia abordar as mocinhas bonitas. Aos poucos, os poetas foram ficando mais escassos, até se extingüirem completamente. Resolveram mostrar suas obras em outra freguesia. Até que fazem falta, pois compunham o cenário efervescente e múltiplo que é o Centro Cultural São Paulo.

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Como tornei-me um apaixonado por livros

Sidney G. Reis (usuário)

Fazia o curso Objetivo para prestar vestibular. O ano era 1995. Sempre gostei muito de ler, mas foi no curso que conheci mesmo os grandes autores: Machado de Assis, Bilac, Cruz e Souza, Camões, Fernando Pessoa, Eça de Queirós, José de Alencar, dentre outros.

Naquele ano, tive que ler 25 livros de literatura. Acontece que os professores ministravam as aulas tão bem que não tinha como não me apaixonar pelas letras. Foi aí que comecei a pesquisar mais e até cheguei a esboçar minhas primeiras poesias.

Saía do cursinho e corria para o Centro Cultural São Paulo, na Vergueiro, onde passava horas e horas. Às vezes ficava até fechar. Conheci alguns autores que eu nunca tinha lido como Dante, Petrarca, Aretino, Boccacio, Emiliano Perneta e Milton. Já me sentia em casa quando ia para lá. Foi uma das melhores épocas. Atualmente, quase não vou mais, devido à falta de tempo. Mas o tempo que passei serviu muito para ampliar meus conhecimentos com outros escritores.

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Rua Vergueiro 1000

Recebemos de André Costa Azevedo a seguinte história a respeito de seu pai, o músico Ademar Azevedo, e do Centro Cultural

(...) "Desde 1982, ano de inauguração do Centro Cultural, o endereço do Centro era Rua Vergueiro, ao lado da Estação Vergueiro do Metrô.
Em 12/4/1983, nele se apresentaria a banda conhecida como Grupo Espaço, integrada por Ademar Azevedo, Didi Mareschi, Ana Maria Mareschi e Toninho Reis, com um repertório de jazz e Bossa Nova.

Ademar Azevedo, responsável pela banda, ao fazer o trabalho de divulgação do citado show, quis simplificar a descrição do endereço do Centro Cultural e, talvez pela formação de engenheiro civil, percebeu que do outro lado da Rua Vergueiro o número da edificação que se encontrava bem em frente ao Centro era o número 1001. Logo, Ademar decidiu imprimir no material de divulgação do show o endereço Rua Vergueiro, número 1000. A partir daí, em todo documento referente ao Centro, passou a figurar o endereço Rua Vergueiro, n° 1000."(...)

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No show do Ultraje a Rigor

Ivan Castelo Branco

Sou freqüentador quase que assíduo do Centro Cultural São Paulo. Sempre que posso vou a esse espaço que é um dos mais simpáticos e agradáveis da cidade. Já assisti a espetáculos em todas as salas: peças de teatro na Paulo Emílio, Jardel Filho e Ademar Guerra, produções cinematográficas na Sala Lima Barreto, além das exposições. Adoro também ir à biblioteca e dar uma passadinha na Gibiteca Henfil, viajar nas aventuras do Homem-Aranha, Batman ou Super-Homem. A sala de que eu mais gosto é a Adoniran Barbosa, voltada aos shows e espetáculos músicais e teatrais. Uma arena na qual os artistas mostram seu talento como se fossem guerreiros cercados pelo público sempre ávido por música. Assisti a inúmeros espetáculos naquele espaço: Ira!, Zé Ramalho, Zé Geraldo, Mawaca, Blues Etílicos, Big Alambique, Golpe de Estado, Korzus, Capital Inicial e Pavilhão 9, só para ficar em alguns.

Um que marcou época no Centro Cultural foi o Ultraje a Rigor. Liderado por Roger Rocha Moreira, o grupo fez enorme sucesso na década de 80, com músicas irreverentes e bem-humoradas, além de forte crítica social. Se não me engano, aconteceu numa apresentação dos caras em 1999. A banda estava retomando sua produção após um período de ostracismo e iria tocar no CCSP. Acho que era um sábado e combinei com minha namorada alguns dias antes. Na noite do show, claro, havia uma fila considerável, o que indicava que a sala iria lotar. Prefiro assistir aos eventos da Sala Adoniran no piso inferior, onde ficam as cadeiras e o público, mais próximo, pode literalmente cantar com os artistas. Após comprar os ingressos e adentrar a sala, descemos as escadas e, como as cadeiras da frente já estavam ocupadas, nos sentamos na última fileira no lado oposto à mesa de som. O ambiente estava propício para o rock: casa cheia, tempo agradável e a adrenalina subindo na espera da banda.

Obviamente, os caras não entraram na hora, pois show de rock que se preze tem que atrasar. Por volta das sete e vinte, apagaram-se as luzes e a banda surgiu, Roger na frente, seguido por seus companheiros. Já nos primeiros acordes de "Rebelde sem causa", a galera que estava sentada ficou em pé e foi assim até o final. O jeito foi levantar também, caso contrário não seri possível ver o show. Alguns espertinhos foram além e ficaram em pé nas cadeiras. Eu e minha namorada tivemos que aderir àquela prática deplorável de dano ao patrimônio público, senão só veríamos cabeças, troncos e membros chacoalhando na nossa frente. Quase no final do show aconteceu o inusitado – o assento da minha cadeira se partiu ao meio e eu, tomado pelo susto e surpresa, fiquei com uma das pernas presas entre as duas metades avariadas. Minha namorada me ajudou a desprender a perna me perguntando se eu estava bem. Nem esperamos o término da apresentação, pois fiquei com receio de que algum funcionário ou segurança viesse atrás de mim querendo o ressarcimento da cadeira. Depois dessa aprendi a nunca mais ficar em pé nas cadeiras durante um show, que afinal de contas são feitas para acomodar outra parte do corpo.

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