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  À dança - por Iracity Cardoso
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   Site CCSP

domingo, 23 dezembro de 2007
fonte: Caderno
2, O Estado de S.Paulo


A primeira amostra de uma quase política
Mostra com projetos selecionados pela recente Lei de Fomento evidencia importância de um programa para a área, mas ainda precisa de ajustes fundamentais

Helena Katz

Na cidade de São Paulo, em 2007, a dança foi marcada pelos efeitos do primeiro edital da sua Lei de Fomento: aumento expressivo de espetáculos - fato que poderia ser somente celebrado, mas, dada a natureza do que foi exibido, pede reflexão. Ao expor produtos de natureza distinta nos mesmos espaços, como que sinalizou para as cerca de 36 mil pessoas que assistiram aos mais de 400 espetáculos realizados que todos eles se equivalem e que fomento é sinônimo de repasse de recursos.

Os primeiros produtos dessa lei vieram a público em 2007, quando foi realizada sua 1ª Mostra. Segundo dados da Programação de Dança da Galeria Olido, entre 4/10 e 4/11, ocorreram 78 apresentações gratuitas, vistas por 5.722 pessoas (não contabiliza o público de 18 atividades paralelas como mostras de vídeo e de fotos dos grupos fomentados, lançamentos de DVDs e livros, debate sobre a lei e conversa com criadores).

A Lei de Fomento à Dança é indispensável, uma conquista histórica, capitaneada pelo movimento Mobilização Dança, e garante verba direta do orçamento da Prefeitura. É isso que lhe confere a possibilidade de se tornar, de fato, um programa de políticas públicas para a dança. Mas, para isso, será necessário não confundir o programa com instrumento de distribuição de verba.

Segundo o site www.centrocultural.sp.gov.br/fomento_danca/fomento_faq.htm, "o objetivo é estimular a continuidade dos trabalhos e auxiliar na difusão da produção artística paulistana". Ou seja, produção e difusão estão reunidas de forma inespecífica e não está claramente definido o que se entende por "produção artística paulistana". Isso significa que podem fazer parte, sem nichos específicos que abriguem necessidades distintas, tanto grupos jovens quanto os de longa carreira povoada por trabalhos descontínuos. Todos devem mesmo ser fomentados, mas cada qual demanda um tipo próprio de fomento.

Assumir-se como um programa implica identificar com muita acuidade o que se entende por fomento, o que deve ser fomentado, como isso deve acontecer, por quanto tempo e com quais formas de avaliação. Esses entendimentos, então, são traduzidos em uma plataforma capaz de abrigar o atendimento das especificidades. O edital surge depois, pois não passa do instrumento legal que permitirá a execução da(s) plataforma(s) proposta(s) pelo programa. Só assim editais podem deixar o formato generalista.

Mas há uma boa notícia no horizonte: Iracity Cardoso, assessora e curadora de dança da Secretaria Municipal de Cultura, informou que as reuniões para o aprimoramento do próximo edital já estão adiantadas. Confirma que vêm sendo levados em conta tanto os relatórios das comissões julgadoras envolvidas nos três editais quanto o das duas profissionais que foram contratadas para elaborar uma análise crítica do programa. Vale torcer para que quatro tópicos não sejam esquecidos: a necessidade de definir o conceito de "núcleo artístico" que norteia os editais; a urgência em incorporar instrumentos oficiais de acompanhamento e avaliação dos selecionados; a rediscussão do conceito de "contrapartida social" que tem obrigado artistas a se travestirem de educadores do terceiro setor; e a questão da gratuidade dos espetáculos.

Vivemos, segundo Gilles Lipovetsky, na sociedade de hiperconsumismo. Como, em um ambiente assim, se lida com o fato de espetáculos de dança serem oferecidos de graça? Dizer à população que não é necessário pagar para assistir dança, em vez de instituir preços subsidiados, talvez carregue um potencial deseducativo nublando uma compreensão fundamental: a de que aquela é uma atividade profissional e, quem a desempenha, vive dela.

Já foram realizados três editais e o quarto deve ser anunciado no início de 2008. No primeiro (2006), com dotação de R$ 2 milhões, foram premiados 14 entre 32 inscritos. Nos dois seguintes, em 2007, foram repassados, respectivamente, R$ 2 milhões (março) e R$ 1,5 milhão (agosto). A Galeria Olido reabre dia 25 de janeiro com uma programação com os selecionados do segundo e do terceiro editais (24 trabalhos) e ainda estuda o formato da 2ª Mostra. A injeção desse montante na produção de dança da cidade traria mesmo mudanças no seu cenário. O que se coloca agora é a necessidade de refinar o modo como as mudanças devem ser conduzidas, para que se transformem em uma conquista política mais definida e clara.


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