De 12/5 a 2/9/2007, esteve em cartaz a exposição
Outra Objetividade o CCSP no olhar dos artistas, cuja
abertura fez parte das comemorações dos 25 anos
do Centro Cultural. Leia, abaixo, texto introdutório
de Martin Grossmann, diretor do CCSP, e confira as fotos que
estavam expostas.
Exposição Outra objetividade
- o CCSP no olhar dos artistas
Raramente
nos deparamos com uma construção arquitetônica
que se desenvolve na integração da modelagem
da luz, da plasticidade resultante do intercurso do ferro
com o concreto armado, do encadeamento rítmico dos
pisos com sua horizontalidade generosa e da transparência
cuidadosamente estudada, obtida pelos cortes perpendiculares
das grandes superfícies envidraçadas. Incorporadas
e perfeitamente à vontade neste ambiente estão
as pessoas, aquelas que diariamente buscam o Centro Cultural
São Paulo movidas por interesses plurais e certamente
atraídas não só por essa beleza lúcida
como pelas atividades culturais aqui desenvolvidas.
O
CCSP pertence às pessoas como também pertence
à cidade, não de forma impositiva, mas pela
inserção gentil e cuidadosa em um contexto áspero
e impiedoso de uma cidade do porte de São Paulo. Rodeado
por avenidas de tráfego intenso, por prédios
e pontes, além de ser transpassado em suas fundações
pela linha Norte-Sul do metrô, ele aqui está,
no bairro do Paraíso, em harmonia com seu entorno e
fiel a sua missão, há 25 anos. Com essa sua
beleza lúcida propõe um modelo de atualidade.
O atual é mantido por suas características arquitetônicas
que promovem a participação, e por sua estratégia
de ocupação que tem gerado, durante o período
de sua existência, um sentimento de pertencimento generalizado:
das pessoas pelo lugar, do lugar para a cidade e vice-versa.
No entanto, há algo de perverso nessa situação:
de tão bem instalado que está, de tão
bem recebido que foi, de tão bem utilizado que é,
corre o risco de passar desapercebido. Está na cidade,
mas não provoca ruídos, não desperta
muita atenção, não se destaca e, assim,
atua silenciosamente na dinâmica cultural da cidade.
Dar voz a esse equipamento cultural, valorizando seu patrimônio
material, imaterial e humano tem sido a meta das gestões
dos últimos anos. É uma tarefa complexa, pois
demanda esforços diversificados bem como ações
integradas não só internas, mas contextuais.
Outra
Objetividade é uma manifestação conjunta
desse desejo. Um trabalho coletivo envolvendo as equipes do
CCSP, sua direção e os artistas. Quem melhor
do que os artistas para revelar o conhecido, o experienciado,
de forma e intensidade nunca antes vista, sentida, vivida?
Assim como o CCSP, a fotografia também tem sido muitas
vezes tomada como algo dado, sem demandar questionamento e,
em seu caso específico e ainda hoje, é tomada
como um registro fidedigno do referente. O que queremos expor
com Outra Objetividade é a necessidade de uma nova
atitude crítica, construtiva e criativa que provoque
reverberações tanto para o CCSP e seu contexto
sócio-cultural como para a condição da
fotografia na contemporaneidade. Essa postura é necessária
diante do esgotamento das categorias institucionalizadas não
só em relação à cultura fotográfica
como ao que global e genericamente denominamos de pós-moderno.
O
título Outra Objetividade foi deliberadamente escolhido
para essa ação conjunta, pois se relaciona e
cria referências interessantes não só
com as tentativas de artistas brasileiros de interpretar a
"realidade brasileira" por meio de atitudes e gestos
poéticos-políticos recheados de revolta e contestação,
sendo a mais provocativa delas a "nova objetividade"
vociferada por Hélio Oiticica em texto célebre
de 1967 e também, mais recentemente, com conceituações
questionadoras do domínio americano a respeito do entendimento
do papel da fotografia na configuração de uma
cultura estética pós-modernista. Esse é
o caso da exposição curada por Jean-François
Chevrier e James Lingwood em 1988 em Londres Une autre objectivité
/ Another Objectivity que reuniu obras distintas e suficientemente
autônomas com intuito de resistir a interpretações
reducionistas da genealogia histórica ou da assimilação
dogmática da cultura fotográfica. Referenciando
essas correspondências e reforçando uma ação
cultural informada e crítica, duas citações
merecem destaque para o debate que queremos motivar com essa
exposição:
A
noção de objetividade surgida no anos 20 do
século passado, fundamental para a tradição
documental e descritiva iniciada no século XIX, se
converteu em um componente básico da modernidade fotográfica,
mas foi rapidamente reduzida a dogmática idéia
positivista da fotografia direta ou pura.
Devemos (e hoje podemos) reavaliar esse critério, dota-lo
de outra definição que corresponda a historia
da fotografia na arte contemporânea. (Jean-François
Chevrier e James Lingwood 1988)
Por
isto e para isto, surge a primeira necessidade da "nova
objetividade" procurar pelas características nossas,
latente e de certo modo em desenvolvimento, objetivar um estado
criador geral, a que se chamaria de vanguarda brasileira,
uma solidificação cultural (mesmo que para isso
sejam usados métodos especificamente anti-culturais);
erguer objetivamente dos esforços criadores individuais,
os itens principais desses mesmos esforços, numa tentativa
de agrupá-los culturalmente. (Hélio Oiticica
1967)
Caio
Reisewitz é formado em Comunicação
Visual pela FAÁP. Estudou na Alemanha, onde freqüentou
a Fachoberschule für Gestaltung, em Darmstadt e
a Johannes Gutenberg-Universität Mainz, em Mainz,
na qual se especializou em fotografia. Em 1996, realizou
suas primeiras exposições individuais
na Schlossgarten Galerie, em Darmstadt, e no Centro
Cultural
São
Paulo. Já participou de diversas mostras internacionais
e, em 2004, da 26a Bienal de São Paulo.
Ding
Musa iniciou sua carreira como assistente de
laboratório de João Musa e de Elisabeth
Savioli. Freqüentou cursos de linguagem imagética
com Carlos Moreira e de fotografia contemporânea
com Eduardo Brandão.
German
Lorca registra a paisagem da cidade de São
Paulo, em especial os locais da região central,
como a praça da Sé. No final dos anos
1940, início dos 1950, produziu imagens que se
tornaram muito conhecidas como Malandragem (1949), À
Procura de Emprego (1951), e Apartamentos (1952). Em
1954, foi o fotógrafo oficial das comemorações
do IV Centenário da
Cidade
de São Paulo. Sua produção da época
em que foi membro do Foto
Cine Clube Bandeirante é comentada no livro
A Fotografia Moderna no Brasil, de Helouise Costa. Já
ganhou diversos prêmios como a medalha de ouro
do Prêmio Alexandre del Conte (Buenos Aires, 1952)
e o Prêmio Fotos Publicitárias, pela Folha
de São Paulo, em 1963.
João
Musa é professor de fotografia na ECA-USP,
escola pela qual concluiu seu mestrado em artes com
a dissertação Viagem a uma Terra Desconhecida.
O trabalho deu origem ao ensaio fotográfico homônimo
exposto no Masp, em 1992, e lhe rendeu o prêmio
de melhor fotógrafo do ano da APCA. Desenvolveu
o projeto de doutorado O Viajante e as Cidades. Em 2004
e 2005, foi contemplado com a bolsa da Fundação
Vitae para pesquisa em tecnologias de digitalização
e representação de imagens coloridas da
paisagem. Atua como fotógrafo, sobretudo nas
áreas de publicidade, institucional, reprodução
de obras de arte e na sistematização e
preservação de arquivos.
Luiz
Benedito Castro Telles é arquiteto e
desenvolveu, junto a seu colega Eurico Prado, o projeto
completo do prédio do Centro Cultural São
Paulo. Também atuou no Centro de Controle Operacional
Unificado da CPTM, com a arquiteta Miriam Simão
Macul. Realizou trabalhos para o SESC Consolação
e SESC - Edifício Federação do
Comério e Centro Empresarial Nações
Unidas, além do Centro Cultural FUNREI. Desenvolveu
o projeto arquitetônico de reciclagem do "Solar
da Baronesa de Itaverava" em São João
Del Rei, MG, entre muitos outros. Foi professor na FAAP
e atualmente ministra aulas na Mackenzie. *Leia
a primeira parte da entrevista com o arquiteto Luiz
Telles, sobre sua experiência profissional e sobre
os primórdios do projeto arquitetônico
do Centro Cultural.
Marco
Buti é gravador, desenhista e professor.
Nascido em Empoli (Itália), mudou-se para o Brasil
em 1962. Recebeu o ganhou o Premio Internazionale di
Biella per l'Incisione, em Biella (Itália); o
prêmio aquisição na 9ª Mostra
de Gravura Cidade de Curitiba, em 1990, e o prêmio
de gravura da APCA, em 1997. Lecionou gravura e desenho
na Unicamp, em que foi um dos
responsáveis
pela montagem do ateliê de gravura. É chefe
do Departamento de artes da ECA-USP, em que também
é professor. Publicou o livro Marco Buti, Coleção
Artista da USP, pela Edusp. Apresentou seu doutorado
no CCSP em 1999, durante a exposição Ir,
Passar, Ficar.
Mauro
Restiffe é formado em cinema pela Faap
e estudou fotografia no International Center of Photography
(Nova York). Representante da nova geração
de fotógrafos-autores, opera na fronteira entre
o universo da fotografia e o das artes plásticas.
Realiza trabalhos estruturados em torno de duas vertentes
básicas: uma autobiográfica e a outra
metalingüística.
Nair
Benedicto foi uma das fundadoras da Agência
F4 de fotojornalismo. Especializada em temas de cunho
social, realizou uma série de trabalhos audiovisuais
sobre a questão da mulher no Brasil. No final
dos anos 1980, realizou para a Unicef uma ampla documentação
sobre a situação da criança e da
mulher na América Latina. Atualmente, dirige
a agência Imagens
e participa da equipe criadora do NAFoto - Núcleo
dos Amigos da Fotografia.
Nelson
Kon é fotógrafo e mantém
um estúdio em São Paulo. Formado pela
FAU-USP, especializou-se em fotos de arquitetura e cidades.
Seu acervo compreende principalmente imagens da arquitetura
brasileira moderna e contemporânea.
Pedro
Perez realiza trabalhos que envolvem modelagem
3D, manipulação de imagens digitais, editoração
eletrônica, entre outros. Trabalha com modelagem
em CAD para as artistas plásticas Ana Maria Tavares,
Branca de Oliveira e Carmela Grossé. É
formado em Artes Plásticas pela ECA-USP. Durante
sua iniciação científica, foi orientando
de Martin Grossmann, atual diretor do CCSP. Foi web-designer
da Editora Glasberg e ilustrador de algumas capas da
revista Tela Viva.
Rochelle
Costi é fotógrafa e artista multimídia.
Realizou instalações, em Porto Alegre,
com fotografias e objetos que colecionava, como cinzeiros,
malas, vidros e lâmpadas. Estudou na Saint Martin
School of Art e na Camera Work, ambas em Londres (Inglaterra).
Trabalhou com fotografia editorial e sua atuação
em jornais e revistas lhe possibilitou o contato com
ambientes diversos, o
que
estimulou suas pesquisas sobre espaços privados
e resultou em séries fotográficas que
registram fachadas e interiores de casas. Participou
da 24ª Bienal Internacional de São Paulo,
em 1998, e das 6ª e 7ª Bienais de Havana,
em 1997 e 1999. Em 1997, recebeu o Prêmio Marc
Ferrez de Fotografia da Funarte e, três anos depois,
a Bolsa de Artes da Fundação Vitae.
Rubens
Mano é fotógrafo e artista multimeios.
Possui pesquisas sobre a paisagem urbana e trabalha
com objetos tridimensionais. Entre 1992 e 1998, ajudou
a organizar o projeto Panoramas da Imagem, com exposições,
oficinas e debates sobre a presença da fotografia
na arte contemporânea. Recebeu os prêmios
Marc Ferrez, da Funarte; J. P. Morgan de fotografia
e o de
estímulo
à fotografia, da Secretaria de Estado da Cultura
de São Paulo. Trabalha diretamente com projeções
luminosas. Um exemplo é a instalação
Detetor de Ausências, parte do evento Arte Cidade
II, em que projeta dois feixes de luz sobre o Viaduto
do Chá, em São Paulo. Em 1999, integrou
o grupo Capacete, que reúne artistas interessados
em criar estratégias de intervenção
em espaços não institucionais. Em 2002,
seu trabalho Vazadores causou polêmica na 25ª
Bienal Internacional de São Paulo, pois propunha
a criação de um acesso alternativo à
entrada oficial do evento. A obra não foi aceita
pelos organizadores, o que fez Mano se retirar da Bienal
antes do término da mostra.