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Associação dos Dramaturgos do Nordeste

Texto de Racine Santos

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A pedra do nosso reino
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A Associação dos Dramaturgos do Nordeste é uma entidade que reúne mais de duas dezenas de autores que alimentam os palcos da região. Foi criada para refletir sobre os problemas dessa dramaturgia que traz as cores daquela parte do país. Pois, diferente das demais regiões, ali se produz um teatro com características próprias. Um teatro que, em sua maior parte, tem por base o folclore, a cultura popular, os mitos, as lendas e os problemas sociais. Um teatro que, diferente do romance de 30, tenta fugir de um regionalismo estreito para contribuir para a formação de um teatro brasileiro e dialogar com a cena contemporânea.
Por se alimentar sobretudo do folclore - que para Florestan Fernandes seria "a expressão da mentalidade popular" -, o teatro nordestino, mais que qualquer outra expressão artística, mostra o lado pícaro, risível, carnavalizado da região. O teatro nordestino foge do Nordeste oficial, do literário, da sociologia, do polígono das secas, do que serviu de tema a Portinari e levou Paulo Prado a afirmar, em Retrato do Brasil, que o nordestino é um povo melancólico. E se a sociologia, o romance, as artes plásticas, o cinema e até mesmo a música contribuíram para cristalizar uma imagem da região onde a fome, a miséria e a tristeza eram as tintas empregadas, é na cultura popular que o teatro vai buscar os elementos para retratar e expor a outra face do Nordeste, ou seu duplo, o paródico, o picaresco, o riso popular com toda a sua potencialidade subversiva.
Enquanto o Severino, personagem do livro Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto, tornou-se quase que um filho único de uma família de retirantes, dos que sofrem eternamente as agruras da seca; o João Grilo, de Ariano, multiplicou-se ao lançar mão de um arquétipo responsável por muitos personagens desse teatro nordestino.
Esse teatro nordestino que tem por base a cultura popular começou a ser percebido, em conceito e forma, a partir dos anos 1950, quando um grupo de artistas e intelectuais formado por Joel Pontes, Gastão de Holanda, Aloísio Magalhães, Hermilo Borba Filho e Ariano Suassuna, na cidade do Recife, volta-se para o estudo e o aproveitamento da riquíssima cultura popular da região. A partir daí, principalmente depois do sucesso da Auto da Compadecida, foram abertas as cortinas que possibilitaram o repertório dessa dramaturgia, desse teatro.
O cenário para essa produção dramatúrgica geralmente é o sertão das caatingas ou pequenas cidades do interior, onde o homem e a natureza não estão separados. Sabemos que é o sertão que dá originalidade ao Nordeste, e que são os fatores culturais que definem a região e lhe dão identidade. Dessa forma o teatro nordestino tem contribuído para a formação de uma consciência regional que, segundo Gilberto Freire, se forma antes da consciência nacional, e é mais forte que esta.
Foi para discutir, estimular e promover essa dramaturgia que tem por base a cultura popular, mas não para reproduzi-la e sim para aproveitar do que ele tem de revelador do homem, que nasceu a Associação dos Dramaturgos do Nordeste. Reunidos em Natal (RN) para o I Encontro de Dramaturgos do Nordeste, em 1998, um grupo formado por Luís Marinho, Altimar Pimentel, Luís Maurício Carvalheira, Racine Santos, Rubem Rocha Filho, Romildo Moreira e Tácito Borralho, criou a associação. A partir daí passou a se reunir anualmente e a participar de encontros e festivais que se realizam periodicamente na região. E nesses encontros a ADN tem levantado questões tais como: A quem se destina a dramaturgia que estamos produzindo? O que deseja ver o público que freqüenta os teatros da região? Tem importância para o teatro brasileiro cultivar uma dramaturgia com essas características?
Além desse trabalho de promover e discutir a dramaturgia nordestina e de seus encontros anuais, a ADN criou a Coleção Teatro Nordestino, um projeto que tem por objetivo publicar textos de seus associados, distribuídos em cinco volumes. Desses, dois já foram editados, reunindo 10 autores. É com essas atividades e adotando essa política que pretendemos contribuir para um teatro brasileiro mais rico e mais comprometido com nossa realidade.

Racine Santos
Presidente da ADN