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Dramaturgia nas ruas do
Nordeste
Lindolfo Amaral
Nos últimos 30 anos
as ruas do Nordeste receberam muitos cortejos diferentes daqueles
que até então a região estava acostumada a
presenciar. Os maracatus, bumbas-meu-boi, cheganças, reisados,
guerreiros, dentre tantos outros grupos de danças dramáticas,
vêm tendo como companheiros trupes teatrais que se alimentam
dessas manifestações ou, mais precisamente, das suas
heranças culturais. Foi nesse contexto que surgiu ou ressurgiu
o teatro de cordel, pelas mãos do Teatro Livre da Bahia,
na década de 70. Devem ser ressaltadas as influências
recebidas fora do país (quando o grupo baiano foi ao Festival
de Nanci/França, encantou-se com os espetáculos de
rua, apresentados naquela ocasião, ficando interessado em
realizar apresentações nas ruas de Salvador, todavia
ocorreram resistências internas, as quais foram vencidas anos
depois). O Teatro de rua sempre esteve aberto para incorporar novas
propostas. Tal fato não deixa de ser uma herança,
fruto do colonialismo que preocupa todos os envolvidos, principalmente
aqueles que estudam a cultura popular. Os pesquisadores sempre demonstram
resistência, esquecendo que a sociedade vive o processo dinâmico.
Desejar a manutenção de estruturas arcaicas é
querer manter os envolvidos dentro de uma redoma de vidro, sem contato
com o mundo exterior.
Ao que parece, essa concepção de mundialização
não é nova nas manifestações artísticas
ou mais precisamente no teatro. As nossas danças dramáticas
foram impostas pelos colonizadores. Elas adquiriram uma nova feição
a partir dos contextos culturais onde as mesmas foram inseridas.
É um alimentar-se e re-alimentar-se no tempo e na constância
dos espaços geográficos, dos atores envolvidos e de
outras variantes que possibilitam características próprias
aos grupos - a tal identidade.
No primeiro parágrafo foi levantada uma série de questões
sobre o teatro de rua e os elementos que ele utiliza para continuar
em plena função. Serão abordados alguns aspectos
expostos acima, pois é por demais pretensiosa a idéia
de cobrir tudo que se faz e vem se fazendo no Nordeste. A cada instante
surgem informações de experiências que estão
sendo desenvolvidas no interior da região. E são muitas.
Quando Hermilo Borba Filho começou a estudar a estrutura
do Bumba-meu-boi, ou mais precisamente do Cavalo Marinho, dava os
primeiros sinais que aquela manifestação popular tinha
muito a nos ensinar. Joaquim Cardozo seguiu a trilha e demonstrou
as possibilidades dramatúrgicas. Esses homens, juntamente
com Ariano Suassuna, destacaram-se no Grupo A Barraca, em 1945,
na Faculdade de Direito do Recife e deram uma grande contribuição
ao teatro. O que hoje estamos assistindo não deixa de ser
fruto de um trabalho surgido na década de 50 e que acabou
recebendo um grande golpe em 1964. Vários artistas tiveram
que mudar de endereço, devido as perseguições.
Outros morreram, não suportando a dor de afastar-se do seu
trabalho.
Os anos setenta trouxeram de volta as manifestações
para as ruas. De nada adiantou a repressão sobre os cordelistas.
Ninguém jamais irá conseguir calar a voz e as manifestações
do povo. Elas poderão adormecer para acordar mais fortes,
mais resistentes aos dissabores da vida. Assim foi e assim será.
Portanto, o Cordel retornou às ruas através do Teatro
Livre da Bahia, que influenciou o Grupo Imbuaça, de Sergipe,
e este influenciou o surgimento de diversos grupos no Nordeste.
Todos optaram em trabalhar a Literatura de Cordel. Dois exemplos:
O Grupo Alegria, Alegria, de Natal/RN, que montou As aventuras
de Pedro Malazarte, texto de Racine Santos, e o Grupo Joana
Gajuru, de Maceió/AL, que montou O malandro e a graxeira
no chumbrego da orgia, de João Augusto.
Outros autores são convocados para a rua, a exemplo de Vital
Santos (Árvore dos Mamulengos, montagem realizada
pelo Grupo Quem Tem Boca é Pra Gritar, de Campina Grande/PB)
e Guimarães Rosa, cujo conto "Corpo Fechado" serviu
de inspiração para a montagem "Baldroca"
(Grupo Joana Gajuru, de Maceió/AL). Existem autores que utilizam
a forma do Cordel para expor questões relacionadas à
saúde, habitação etc. Para exemplificar esses
dois temas, convém lembrar o texto O Auto da Camisinha,
do cearense José Mapurunga, que já registrou mais
de 150 montagens, e o escrito pela sergipana Virgínia Lúcia,
Quem matou Zefinha" montado em diversos estados brasileiros.
Todos os exemplos citados demonstram a opção dos grupos
em manter uma conexão com a cultura popular. Ao que parece,
existe uma preocupação com a comunicação,
ou melhor, com o público. Provavelmente esse deve ser o motivo
pelo o qual os grupos enveredaram pelo caminho do popular. São
desconhecidos trabalhos que tenham trilhado por outra paragem que
não seja ligada à identidade cultural. É bem
verdade que muitos grupos fazem a opção em construir
os seus próprios textos, utilizando as vezes os recursos
da colagem ou da improvisação (o trabalho é
apresentado a partir de um roteiro). Não se pode esquecer
as experiências dos mamulengueiros, que trabalham despojadamente
sem obedecer a uma dramaturgia formal, assim como os palhaços
que têm ocupado as ruas da região, a exemplo da Trupe
de Biribinha, da cidade de Arapiraca/AL. Neste caso, existe uma
ligação com Mateus dos Reisados. O palhaço
que a todo instante pergunta à Dona Deusa qual a próxima
brincadeira e conta as suas piadas, brinca com o povo fazendo a
alegria da roda. É o pescador que esquece por algumas horas
a sua labuta e envereda pelo mar do teatro, transformando-se em
personagem da brincadeira mais importante da sua comunidade. Ele
é uma figura reconhecida por seus pares. Essa metamorfose
lhe confere status de mestre. E dessa maneira ele constrói
uma dramaturgia que nunca será a mesma, pois encontra-se
na sua cabeça. É repassada de geração
em geração, enfrenta crises, pressões, interferências,
porém continuará viva, sobrevivendo a tudo, inclusive
ao modismo. Essa força que vem da natureza humana e assume
uma verdade absoluta, na voz do Mateus, representa muito. É
uma verdadeira escola para os grupos de teatro de rua. Sempre será
necessário aprender com os mestres populares esse ofício.
Lindolfo Amaral
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