|
Centro Cultural São Paulo -
CCSP
Rua Vergueiro 1000, Paraiso São Paulo. CEP:01504-000
(11) 3383-3402
e-mail: ccsp@prefeitura.sp.gov.br
Centro Cultural Banco do Brasil
- CCBB
Rua Álvares Penteado 112. Centro. São Paulo. CEP:
01012-000
(11) 3113-3651/3652
e-mail: ccbbsp@bb.com.br
|

Cultura popular fonte da
dramaturgia
Oswald Barroso
A dramaturgia nordestina
tem seu corpo principal referenciado na cultura de uma região,
onde magia e encantamento dão substratos a um imaginário
poético, que se recusa a ceder às imposições
de uma racionalidade moderna hegemônica. Tanto no interior,
quanto na periferia das grandes cidades, redutos de animismo povoam
de narrativas míticas os ritos da vida popular, que se refaz
em novos encantamentos. Encantar-se é transportar-se a outra
dimensão da realidade, no caso, a dimensão artística,
adentrar em uma lógica mágica e estética. Isto
só é possível ao teatro de uma região
onde a realidade é reinventada em metáforas e mimeses,
verdade/imaginação, que se funde na linguagem dos
sonhos, para produzir uma sociedade de visionários, justiceiros,
taumaturgos, reinos encantados e pavões voadores. Que o digam
os romeiros dos santuários mestiços, os brincantes
das festas e folguedos, os poetas do cordel, da cantoria e da embolada
de coco, os cegos rabequeiros, os sanfoneiros alucinados, os mercadores
com seus gestos mágicos e os artesãos inventores,
desse Nordeste euroafricano, mourárabe e ameríndio,
americanalhado e brasileiro em todos os seus devires, contraditório
em sua riqueza, mas nunca pobre de espírito.
O teatro nordestino é barroco e renascentista. Sua dramaturgia
é herdeira do Ciclo de Ouro espanhol, de Lope de Vega, Calderon
de La Barca e Tirso de Molina, em Espanha, e de Gil Vicente e Baltasar
Dias, em Portugal. Teatro esboçado pelos lusitanos nas naus,
quinhentistas, que demandavam orientes e ocidentes, em busca de
ouro e utopias. Teatro ensaiado com os prisioneiros lusos de Alcácer-Quibir,
em terras mouras, com os ritos indígenas de pajés
tupis e tapuias, e com ex-escravos brasileiros, que depois de libertados
o levaram de volta a Lagos, Benin e Daomé. Teatro em deslocamento,
vagabundo, feito de cortejos e autos, na multidão. Teatro
sacro-cerimonial de rituais e celebrações religiosas,
ou sem-cerimônia, de ritos cômicos e paródicos
de entronizações, que fazem virar o mundo ao revés.
Teatro sem lugar determinado para acontecer, desnudo de cenários
e adereços realistas, absolutamente simbólico, em
que um caixote pintado de preto pode fazer às vezes de uma
sepultura, uma fornalha do navio às vezes da boca do inferno
e em que um oratório ou um simples letreiro gravado numa
tabuleta pode substituir uma igreja.
Embora não desconheça o teatro moderno, a fonte primária
deste teatro está nas tradições populares,
enquanto tradução viva, especialmente em seus autos,
danças dramáticas, cortejos, demais folguedos, dramas
circenses, performances de camelôs e mascates, festas e rituais
religiosos populares. O rico sincretismo que originou essas tradições
cênicas, cruzando elementos de quatro continentes, resultou
em uma série de novas formas e expressões espetaculares,
não apenas derivadas ou desdobradas das antigas, mas, em
alguns casos, inegavelmente singulares.
A lista dessas manifestações cênicas inclui
o auto do congo e seus derivados (maracatus, quilombos, congadas,
reisados de congo, taieiras etc.), a folia de reis e os diversos
reisados (reisados de couro, de careta, de bailes, de caboclos etc.),
os ranchos de animais, entre eles os bois com suas variações
(bois de reis, de mamão, bumbas-meu-boi etc.), as marujadas,
sejam de guerra ou aventuras marítimas, com suas várias
denominações (barca, chegança, fandango, nau
catarineta), as lapinhas, presépios e pastoris, os dramas
de quintal e de circo, as contradanças (quadrilhas, caninha
verde, reis de bailes etc.), as danças de roda (samba de
roda, coco, maneiro-pau, torém, dança de São
Gonçalo, caboclinhos), a dança narrativa das bandas
cabaçais, o teatro de mamulengos, a performance dos contadores
de história, dos cantadores, dos camelôs e vendedores
de cordel, os cortejos e rituais das procissões, das irmandades
de penintentes e romarias católicas, os rituais dos catimbós,
candomblés, da umbanda e outras religiões populares,
as expressões do carnaval e outras festas de rua etc.
Oswald Barroso
|