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Associação dos Dramaturgos do Nordeste

Texto de Racine Santos

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Cultura popular fonte da dramaturgia
Oswald Barroso

A dramaturgia nordestina tem seu corpo principal referenciado na cultura de uma região, onde magia e encantamento dão substratos a um imaginário poético, que se recusa a ceder às imposições de uma racionalidade moderna hegemônica. Tanto no interior, quanto na periferia das grandes cidades, redutos de animismo povoam de narrativas míticas os ritos da vida popular, que se refaz em novos encantamentos. Encantar-se é transportar-se a outra dimensão da realidade, no caso, a dimensão artística, adentrar em uma lógica mágica e estética. Isto só é possível ao teatro de uma região onde a realidade é reinventada em metáforas e mimeses, verdade/imaginação, que se funde na linguagem dos sonhos, para produzir uma sociedade de visionários, justiceiros, taumaturgos, reinos encantados e pavões voadores. Que o digam os romeiros dos santuários mestiços, os brincantes das festas e folguedos, os poetas do cordel, da cantoria e da embolada de coco, os cegos rabequeiros, os sanfoneiros alucinados, os mercadores com seus gestos mágicos e os artesãos inventores, desse Nordeste euroafricano, mourárabe e ameríndio, americanalhado e brasileiro em todos os seus devires, contraditório em sua riqueza, mas nunca pobre de espírito.
O teatro nordestino é barroco e renascentista. Sua dramaturgia é herdeira do Ciclo de Ouro espanhol, de Lope de Vega, Calderon de La Barca e Tirso de Molina, em Espanha, e de Gil Vicente e Baltasar Dias, em Portugal. Teatro esboçado pelos lusitanos nas naus, quinhentistas, que demandavam orientes e ocidentes, em busca de ouro e utopias. Teatro ensaiado com os prisioneiros lusos de Alcácer-Quibir, em terras mouras, com os ritos indígenas de pajés tupis e tapuias, e com ex-escravos brasileiros, que depois de libertados o levaram de volta a Lagos, Benin e Daomé. Teatro em deslocamento, vagabundo, feito de cortejos e autos, na multidão. Teatro sacro-cerimonial de rituais e celebrações religiosas, ou sem-cerimônia, de ritos cômicos e paródicos de entronizações, que fazem virar o mundo ao revés. Teatro sem lugar determinado para acontecer, desnudo de cenários e adereços realistas, absolutamente simbólico, em que um caixote pintado de preto pode fazer às vezes de uma sepultura, uma fornalha do navio às vezes da boca do inferno e em que um oratório ou um simples letreiro gravado numa tabuleta pode substituir uma igreja.
Embora não desconheça o teatro moderno, a fonte primária deste teatro está nas tradições populares, enquanto tradução viva, especialmente em seus autos, danças dramáticas, cortejos, demais folguedos, dramas circenses, performances de camelôs e mascates, festas e rituais religiosos populares. O rico sincretismo que originou essas tradições cênicas, cruzando elementos de quatro continentes, resultou em uma série de novas formas e expressões espetaculares, não apenas derivadas ou desdobradas das antigas, mas, em alguns casos, inegavelmente singulares.
A lista dessas manifestações cênicas inclui o auto do congo e seus derivados (maracatus, quilombos, congadas, reisados de congo, taieiras etc.), a folia de reis e os diversos reisados (reisados de couro, de careta, de bailes, de caboclos etc.), os ranchos de animais, entre eles os bois com suas variações (bois de reis, de mamão, bumbas-meu-boi etc.), as marujadas, sejam de guerra ou aventuras marítimas, com suas várias denominações (barca, chegança, fandango, nau catarineta), as lapinhas, presépios e pastoris, os dramas de quintal e de circo, as contradanças (quadrilhas, caninha verde, reis de bailes etc.), as danças de roda (samba de roda, coco, maneiro-pau, torém, dança de São Gonçalo, caboclinhos), a dança narrativa das bandas cabaçais, o teatro de mamulengos, a performance dos contadores de história, dos cantadores, dos camelôs e vendedores de cordel, os cortejos e rituais das procissões, das irmandades de penintentes e romarias católicas, os rituais dos catimbós, candomblés, da umbanda e outras religiões populares, as expressões do carnaval e outras festas de rua etc.

Oswald Barroso