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Associação dos Dramaturgos do Nordeste

Texto de Racine Santos

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Cultural popular e dramaturgia
Boneco

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Boneco - um espetáculo nordestino
Tácito Borralho

Brinquedos e brincadeiras, jogos dramáticos ou jogos de animação que povoam as ruas, praças e terreiros do Nordeste, são de uma ferveção bonecal que se mistura as danças e cantigas, exibindo cenas de um teatro exuberante e alegre, repleto de objetos que cobrem a cara, o corpo, ou só o braço (com dedos enfiados). É o teatro dessa gente sestrosa, sofrida, briguenta e risonha, que lhe dispensa qualquer adjetivo e o proclama simplesmente FESTA.

Prenhe de exuberantes elementos animados, Bumbas-meus-Bois, Bois-de-Reis, Caretas, Cavalos Marinhos, Reisados, Cordões de Ursos, Marujadas, Naus Catarinetas, Barcas, Baralhos Brincadeiras de Carnaval, Fofões, Palhaços, Bois de Carnaval, Gigantões de Olinda, Cabeções, Baratinhas, Pastores, Pastoris, Reis, Reisados, e muitos outros folguedos repletos de máscaras e bonecos-máscaras,são parte desse teatro do povo que envolve representação de brincantes dançadores, brincantes atores e brincantes-atores-manipuladores.

Um outro teatro, em particular, faz parte dessa grande festa: O Teatro de Bonecos.

Mamulengo, em Pernambuco; João Redondo, no Rio Grande do Norte; Babau, na Paraíba; João Minhoca ou Briguela em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo; Mané Gostoso, na Bahia; Calunga, no Ceará; Cassimiro Coco, no Maranhão, Alagoas, Ceará e Piauí. Em cada região um nome especial para essa criatura especial que é o boneco de luva (o fantoche) que ficou mais conhecido como Mamulengo.

Os primeiros registros sobre o mamulengo datam do século XIX, em Pernambuco, e até hoje não se tem conhecimento da verdadeira raiz etimológica do termo. Segundo Hermilo Borba Filho, presume-se que pode ter sido derivado da expressão "mão molenga", maneira de utilizar a mão quando da manipulação do boneco de luva. O termo serviu para denominar todo o teatro de bonecos popular pernambucano, ultrapassando os limites daquele estado tendo sido generalizado como o boneco de luva popular do Nordeste. Mas não há nisso uma verdade muito ortodoxa. Cada estado denomina o seu brinquedo de boneco de luva, que tem as mesmas características e geralmente personagens com os mesmos nomes, de outra forma,quase sempre pelo nome de um dos personagens.

Assim, a brincadeira pode se chamar Cassimiro Coco, João Redondo, Babau, Mané Gostoso, Calunga; hoje mais praticada na zona rural por mestres, verdadeiros acrobatas do improviso, supremos senhores das palavras e da tolda, suspendendo bonecos de luva ou vareta, construídos em madeira ou papel machê.

Personagens debochados, irreverentes, transgressores como o Professor Tiridá, Alma, Diabo, Benedito, Cabo Setenta, João Redondo, Coronel, Simão, Cangaceiro, Padre, Quitéria, Rosinha, dentre outros imortalizados pelos mestres e proclamados por dramaturgos e escritores do porte de um Ariano Suassuna, de um Altimar Pimentel , de um Hermilo Borba Filho, hoje povoam expressivo número de textos teatrais e são materializados em espetáculos por esse Brasil afora .

Seus "semelhantes" se encontram à mostra na casa que lhes pertence, em Olinda, PE, o Espaço Tiridá, criação do incansável bonequeiro Fernando Augusto Gonçalves, também criador do Grupo Mamulengo Só-Riso que além de produzir espetáculos do gênero é um grande disseminador de idéias e práticas de preservação da arte popular bonequeira.

Que se faça justiça ao Grupo Casemiro Coco de S. Luís, MA; aos Afonso Miguel Aguiar e Chagas Vale de Teresina, PI; a Ângela Escudeiro e Augusto Bonequeiro, de Fortaleza,CE, que também tem se empenhado em estudar e divulgar o boneco popular do Nordeste.

Como merecida homenagem, iniciamos uma lista de memoráveis mestres de mamulengo com o nome do inesquecível Chico Daniel, sapateiro e artista, animador de cerca de 40 personagens dentre os quais, Capitão João Redondo, padre Biapino, Baltazar (filho adotivo do Cap. João Redondo)

Chico Daniel nasceu em Assu, RN com o nome de Francisco Ângelo da Costa, filho de Daniel Ângelo da Costa; morou durante 15 anos no Bairro Felipe Camarão em Natal, RN, onde faleceu.

Mestre Dr. Babau, o Cheiroso (porque fabricava perfume alem de bonecos.)
Mestre Zé de Vina do "Mamulengo Riso do Povo", de Lagoa de Itaenga-PE
Saudoso Mestre Solon (José Severino os Santos)
Mestre Zé Lopes do "Mamulengo Teatro do Riso" de Glória do Goitá -PE
Mestre Gilberto Calungueiro (Gilberto Ferreira de Araújo) de Icapuí -CE
Valdek de Garanhuns-PE (hoje em S.Paulo)
Mestre Ginu (José de Morais Pinho) PE.

E outros mestres do mamulengo que conseguimos lembrar, como Samba, Tonho dos Pombos, Luis da Serra, Pedro Rosa, Antônio Biló, Manuel Marcelino, Seu Baixa e Bate Queixo.

Vejamos também alguns mestres cassimireiros, do Maranhão (onde o brinquedo é chamado "Casemiro" Coco): Domingos Benedito Pereira (Domingos Artista), Fuloscênio, João Domingos Gerônimo (o Quebra-Queixo), Avelino de Sousa (o Gravatinha), Severo Chaves, Zé de Manoel, Raimundo Nonato Santos, Antônio Barbosa, Fernando Lee, Manuel Flaneiro, Neto Suzana, Dona Maria da Paz, Seu Bibi, entre outros.

No Ceará: Joaquim Bonequeiro, Pedro dos Santos Oliveira (o grande mestre Pedro Boca Rica), Chico Mariano, Antônio Abdon, Zé Maia, Seu Cheirinho, Zédimar, Gil Amorim, Seu Zai, Chico Bento, Toni Bonequeiro, dentre muitos.

No Piauí: Chagas Vale, em Terezina, e Zé do Gás (José Maria Delito), na Parnaíba.

Mesmo correndo o risco de cometer a injustiça de esquecer nomes importantes dessa plêiade de mestres bonequeiros, não poderíamos deixar de reverenciar pelo menos aqueles que estiveram ou estão de alguma forma próximos de nós. E mais importante que isso, reverenciar-lhes pelo testemunho de uma arte viva e vibrante que teima em resistir diante de todas as investidas da tecnologia e tem sabido aproveitar-se dos recursos midiáticos para contribuir de forma muito positiva na disseminação desse teatro tão tradicional e tão atual ao mesmo tempo

Tácito Borralho (DEART-UFMA)
Dramaturgo/ADN