| CAMARGO ALLEGRO
Camargo Guarnieri quando se transferiu com a família
de sua cidade natal, Tietê, para São Paulo, em 1923,
precisou ganhar a vida tocando piano em toda parte: na loja de
partituras Casa Di Franco - para que os clientes tivessem uma
noção da música que comprariam -, no Cine
Bijou e em casas noturnas - eufemismo para inferninhos
ou bordéis, um deles próximo à Ladeira da
Memória. Nessas atividades tinha de improvisar ao piano,
o que lhe valeria grande tarimba de compositor. Na Casa Di Franco,
chegava a ser repreendido porque improvisava sobre as partituras
à venda. No cinema, como Shostakovitch e Ernesto Nazareth,
tinha de criar a atmosfera musical de acordo com a cena do filme.
E nas boates podia gozar de ampla liberdade de criação.
Assim se formou o compositor Camargo Guarnieri, um "homem
sem diplomas", como costumava dizer. Rebelde à disciplina
e à instituição, sua música por isso
mesmo deixa-se ouvir e conquista o público nas ocasiões
em que lhe é oferecida. Recentemente vem estimulando um
número cada vez maior de estudos acadêmicos, o que
só confirma sua estatura em nosso repertório erudito.
Eis que ora apresentam-se gravações
dos três concertos para violino de Guarnieri na reconstituição
consciente do maestro Lutero Rodrigues e na leitura vibrante
do jovem Luiz Filipe, à frente da Orquestra Sinfônica
Municipal, que Guarnieri ajudou a criar em 1949.
Duas obras corais e o ciclo Treze canções de
amor, em remasterizações, nos devolvem os primeiros
registros da música contemporânea brasileira, iniciativa
pioneira de Oneyda Alvarenga nos idos de 1937 e 1943.
E completando o recuo no tempo, esta caixa apresenta ainda o multimídia
que tem por eixo de navegação as melodias populares
coletadas pelo maestro Martin Braunwieser, em 1938, por ocasião
da expedição conhecida como "Missão
de Pesquisas Folclóricas", e transcritas ao pentagrama
por Guarnieri entre 1944 e 1954. Trabalho de funcionário
que lhe inspiraria a composição de concertos, sinfonias
e ponteios. E assim se fecha o ciclo virtuoso de contaminação
artística da criação erudita pela inspiração
popular.
A presente iniciativa é uma contribuição
para a ampliação dos estudos sobre a produção
musical brasileira, pelo oferecimento da primeira gravação
audiovisual, acompanhada da inédita edição
das partituras dos três concertos para violino e orquestra
de Camargo Guarnieri. Em um sentido mais amplo é uma "cartada"
que aposta na inserção dessas obras no repertório
violinístico nacional e internacional. Eis revelada a discreta
expectativa da política de valorização do
acervo da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo,
que encontrou amparo no Programa Cultural PETROBRAS, que mais
uma vez patrocinou o nosso esforço para trazer à
luz um personagem da maior importância não só
para a música brasileira, como também para a política
cultural idealizada pelo diretor do Departamento de Cultura.
A tudo preside a efígie de Mário
de Andrade, primeiro homem público de cultura, professor
de música do Conservatório Dramático e Musical,
produtor da "Missão de Pesquisas Folclóricas",
criador da Discoteca Pública Municipal, patrono do nacionalismo
musical brasileiro, tutor espiritual de Camargo Guarnieri, que
em vão tentou resistir à sua influência avassaladora.
O mesmo Mário, que escrevera o prefácio da tradução
brasileira da obra Shostakovitch de Victor Seroff, não
conseguiu cooptar Guarnieri para a estética musical do
compositor russo. O discípulo mostrou sua independência
e personalidade ao aproximar-se do projeto dissonante de Stravinsky
e optar por uma efusão tropical. Passados tantos anos,
ao ouvirmos estes concertos para violino, ressalta a alegria calorosa
e exuberante da maneira de Guarnieri, ressonância distante
do criador de Pássaro de fogo.
Um resignado Mário de Andrade proclamará o elogio
da obra do compositor paulista, quando afirma que com Guarnieri
o Brasil resolveu o seu problema com o allegro.
Carlos Augusto Calil
(Secretário Municipal de Cultura, São Paulo)

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