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Olhares de São Paulo/ Crônicas

Sob a orientação de Alan Viola, a oficina Olhares de São Paulo/crônicas aconteceu de 13/5 a 1º/7/2009. O evento teve como proposta o estudo do gênero e criação de crônicas, tendo a cidade de São Paulo como tema. O objetivo é estimular a escrita e demonstrar ao cidadão comum que ele pode escrever/descrever a cidade. Nesta página, apresentamos uma seleção de textos produzidos pelos participantes da oficina.

seta Alguma coisa acontece, de Adriano Villa

seta Sexta-feira, de Paula Caldeiram

seta De dia em dia, de Renata Cirilo

seta It's NOT elementary, my dear Watson, de Bruno Honoratto

seta A Cidade que arrancava sorrisos, de Guilherme Conde

seta Terra de ninguém, de Márcio Campos

seta Brás, observação e respiração, de Patrícia Macedo

seta Chegada em São Paulo, por Adhemar Honda

Leia também os textos produzidos pelos alunos do Estúdio de Texto ministrado por Márcia Denser.


Alguma coisa acontece, de Adriano Villa

Poucas pessoas se recordam do velho centro de São Paulo... Dos cinemas... E de tudo mais que tivera outrora por ali. Acredito que poucas pessoas olham aquela região como ela deveria ser realmente contemplada.
Houve um tempo em minha vida que parava na esquina da Avenida Ipiranga com a Avenida São João e lembrava de Caetano. Era emocionante pensar naquela poesia concreta de prédios que viram São Paulo crescendo. Das ruas e das calçadas ladrilhadas que sustentaram tantas mentes que, talvez, nem parassem para refletir quantos pés passaram por ali.
Será que eles pensavam no Caetano? Será que lembravam de sua voz suave, enquanto declarava para todos: Alguma coisa acontece em meu coração...
Não sei o que se passa no seu coração, mas sei o que passa no meu.
Quando caminho por aquelas ruas mal iluminadas por postes que lançam nas calçadas sombras apressadas e dançantes, parece incrível aos meus olhos, tanta magia e história em apenas um lugar.
Um lugar que é tragado pelo buraco negro do progresso, por cinemas em Shoppings com ar condicionado e com pipocas combo.
Pois é, gosto de relembrar.
Quantos roteiros não fiz para aproveitar o que cada um deles tinha para oferecer? Era um prazer sentar naquelas poltronas vermelhas, duras e sem apoio para copos de refrigerante.
A quem goste dos cinemas dos Shoppings, mas eu - nostálgico e mão-fechada - preferia os baixos preços. Agora, os velhos cinemas do centro da cidade foram amassados pelo rolo compressor e logo em seguida compactados em blocos de memória e deixados para trás, onde costuma ficar tudo que já passou.
E é essa realidade que nubla minha memória, o ser humano se esquece muito fácil de algumas coisas e fica na memória recente apenas o que vemos e o que vivemos. A realidade atual turva os olhos, pois o que vemos nesses lugares são filmes de teor impróprio e de igrejas que comercializam a fé.
Sua beleza ainda está lá e sua magia continua sendo levada pelos largos calçadões como pólen em um jardim de pedra, iluminadas por sóis amarelados e difusos que brotam de postes de ferro ao anoitecer.
Tudo continua no mesmo lugar, com exceção de nossa memória, que acabou se perdendo em algum lugar de um passado não tão distante assim
.

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Sexta-feira, de Paula Caldeiram

Sexta-feira à noite não há nada igual: nós não vamos beber ou dançar. Pelo celular localizo minha amiga, está lá dentro, me aguardando. Já na sala de debates, o tema, Cultura e Resistência. Logo me pergunto: mas, e se for entediante? E se for uma sequência de repetições?

Vejo o público lento tomando o espaço e entro no ritmo. Tarde demais para saber, pois o mediador já chamara os participantes. Não gostei do local escolhido por ela:

- O que você acha de sentarmos aqui no meio? Disse eu.

- Ah não, é melhor a gente sentar aqui na pontinha porque se ficar chato ou ruim a gente vai embora.

Murmurei algumas poucas palavras, mas o senhor de chapéu e paletó que estava na fileira da frente deu risinhos direcionados a minha amiga. Depois de acomodados (na ponta), chamam ao palco o ilustríssimo sociólogo, com várias publicações sobre o tema. Era ele, que furo.
Conforme a ordem natural das coisas, o debate aconteceu assim, rapidamente, longamente, sem que eu percebesse que o tempo tinha voado. Ele analisou muito bem a nova movimentação da sociedade, onde a informação quer superar o conteúdo. Analisou o tempo, e sua dinâmica e os atos regionais - que contrastam e reforçam ao mesmo tempo a globalização. E caiu num fluxo louco, que eu voei.

As perguntas da plateia acabaram e o mediador pergunta se o sociólogo deseja acrescentar alguma coisa. Nosso ilustríssimo senhor de chapéu e paletó nesse instante retorna ao microfone:

- Quero dizer que ao esperar o início do debate, sentado na cadeira da plateia, vi dois jovens que indecisos de onde sentar dialogavam. Um deles disse:

- O que você acha de sentarmos aqui no meio?

E a sua companheira respondeu:

- Não, nada disso, é melhor a gente sentar aqui na pontinha porque se for chato ou ruim a gente vai embora.

As gargalhadas eram incontroláveis. E em seguida ele completou:

- Acho que não deve ter sido ruim, porque eles estão aqui até agora.

Dessa vez os risos eram também altos e duradouros.

- E ainda anotaram! Gritou um abelhudo.

Em São Paulo, as minhas sextas agora eu passo em casa lendo Kafka, ou seria melhor Machado?

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De dia em dia, de Renata Cirilo

Olho pela janela do escritório, sexto andar, vejo o fim da torre da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Ao fundo, os prédios se impõem mais altos.

Dentro da sala as paredes são brancas, os computadores estão ligados, as pessoas trabalham no ritmo frenético e lânguido de uma segunda-feira.
Uma parada para olhar o relógio, redondo de ponteiros.

- Graças a Deus que quinta é feriado!

O dia só começava, mas a frase ecoava desde a semana passada. E se a folhinha de calendário era despetalada a cada dia com tenaz desejo, o momento de engolir as horas do relógio aproximava-se cada vez mais.

Alguns colegas faziam planos, e o burburinho desejoso fez dueto com vozes de trabalho. Não era hábito do escritório promover a emenda do feriado, sexta tem expediente. Entre os pensamentos e vozes: o não viajar, planejamentos curtos, dormir e arrumar a baguncinha que nunca se arruma.

Nas falas, o feriado se tornava um fim de semana a mais. De dia em dia, conta-se a chegada do sábado, mas com receio recebe-se o domingo que trará a segunda. Os feriados não saem muito da rotina, mas, por serem esporádicos, sua contagem é mais eufórica e, também, realizada em comunhão.

- Mas ainda é segunda. Graças a Deus que quinta é feriado!

Repito a sentença enquanto observo a torre da igreja sob o Sol; que, espero, repita-se no esperado dia.

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It's NOT elementary, my dear Watson, de Bruno Honoratto

Por estranho que possa parecer, com o advento da Internet, e por meio dela, acabei me afeiçoando a um tipo de mídia considerado obsoleto por alguns e cuja morte fora decretada por tantos outros há alguns anos: os programas de rádio. Dos muitos que passei a acompanhar, o programa Fim de Expediente, da rádio CBN, é um dos meus preferidos.

A atração é apresentada por um ator, um economista e um escritor. Os três discutem toda sorte de assuntos, cada qual sob a sua perspectiva, discordando em quase tudo, no entanto, concordando em uma coisa, amam São Paulo. É recorrente no programa uma investigação platônico-dialética que visa delimitar a identidade da capital. Nunca desvendaram coisa alguma.

Depois de algumas sextas-feiras, porém, comecei eu a me interessar pelo assunto e, sem perceber, passei a dedicar parte de minhas divagações à terra da garoa e a tentar entender qual o meu papel dentro desse cosmos. Então, em meio a questionamentos espaciais e existenciais, à deriva na Internet, deparei com uma oferta bastante interessante, uma oficina chamada Escrita criativa - Um novo olhar sobre a cidade de São Paulo, ou algo que o valha. E foi assim que entrei para uma oficina de produção de crônicas em busca de respostas.

Com o passar das aulas, conheci um pouco de alguns participantes, tinham personalidades diversas, e posso dizer que todos eram movidos por uma curiosidade parecida com a minha. De modo geral, meus colegas de oficina escreveram crônicas a respeito do movimento e da velocidade de São Paulo. Estavam sempre andando, sempre ocupados. Coisas para fazer, gente para ver. A velocidade nos discursos deles era um cacoete, o que diziam sobre suas trajetórias diárias não era uma queixa, narravam a correria como parte do todo, a qual não era boa nem ruim, simplesmente era. Nenhum desses dados, contudo, me ajudou a captar a alma da cidade.

Clarice Lispector escreveu certa vez que o mundo lhe parecia vasto demais e sem síntese possível. Era assim que eu pensava a cidade lá pelo dia 18 de junho, ou seja, mais da metade das aulas já tinha se passado, e eu ainda não tinha escrito nada sobre a tal essência da cidade.

No dia 25 de junho, já desacreditado, estava relendo Watchmen. Nesse gibi, Dr. Manhattan relata que, quando andou pela superfície do Sol, presenciou eventos tão rápidos e tão pequenos que mal podia dizer que eles realmente tinham acontecido. Naquele momento, pensei que poderia ser esse o caso de São Paulo, bilhões de eventos subatômicos reagindo entre si tão rapidamente para formar a capital que não conseguimos processar. Impossível fazer todas as associações, identificar todas as partes.

No momento em que escrevo estas linhas, continuo sem uma resposta definitiva. No entanto, talvez ela não exista mesmo, talvez eu esteja vendo gigantes onde há moinhos de vento. Ou, talvez, somente alguém como o Dr. Manhattan, que tem clarividência e total domínio sobre matéria, entre outras coisas, pudesse captar a alma desta cidade.

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A Cidade que arrancava sorrisos, de Guilherme Conde

Uma cidade dentro de outra. O missionário com o mártir. Aquele que muitos chamam de "extremo". São Paulo, Zona Leste. 21 de abril. Lá, o feriado tem mais sabor. Estou falando da Cidade Tiradentes.
Desembarquei neste bairro no dia 29 de dezembro de 1991 (aniversário da minha irmã Maíra Cláudia), após rápida passagem pela Zona Sul (região do Campo Limpo, Jardim Campo de Fora). Tinha somente seis meses e dez dias de vida. O bairro não tinha mais que 10 anos. Inicialmente surgiu para ser uma espécie de "bairro-dormitório".

Junto com os meus irmãos, eu e o bairro estávamos crescendo rapidamente. Graças a uma bolsa, estudei na primeira escola particular da região, atualmente são várias abrigando jovens estudantes de uma classe média emergente". Meus irmãos, na época, músicos em atividade, ajudaram a fundar o primeiro bar exclusivamente voltado ao rock'n'roll. Não tenho registro de um outro Rock Bar por lá funcionando hoje. De um lado, me concentrava no "pega-pega", do outro, minha mãe se estressava na Avenida Ragueb Chohfi congestionada.

Antes, de tão perigosa, tinha o vulgar apelido de "cidade tira-vidas", hoje, está bem perto de ser emancipada de São Paulo. Pelas suas principais vias, Avenida dos Metalúrgicos e Rua dos Marceneiros, avistava-se um populoso bairro de trabalhadores esperançosos e esforçados em desenvolvimento.

Áureos tempos passei lá. Quando lembro das minhas primeiras defesas e meus primeiros gols na terra vermelha, do "esconde-esconde", do "taco" (versão brasileira-paulistana-periférica do esporte britânico Cricket), das bolinhas de gude, das pipas entre nuvens no céu azul, das escaladas nos morros que separavam os prédios (minha mãe tinha pavor disso), tudo isso e mais um pouco, me vem à cabeça, Cidade Tiradentes. Quando o Plano Real foi criado e quando o Brasil venceu pela quarta vez a Copa do Mundo de Futebol, adivinha onde estava? 11 anos lembrados com muita alegria.

Não saí da Zona Leste. Mas, uma certeza eu tenho: se antes esse bairro pudesse tirar vidas, nos nossos dias de hoje, o bairro de Cidade Tiradentes me arranca sorrisos.

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Terra de ninguém, de Márcio Campos

Numa noite caminhando pelas ruas do centro de São Paulo, sem destino, acabei chegando no bairro Santa Ifigênia, lugar bastante famoso para quem frequenta o mundo da informática. Já havia passado por lá várias vezes durante o horário comercial, mas era a primeira vez depois do comércio fechado.

As trevas tomavam conta do lugar, eu não vou mentir, não fiquei nenhum um pouco chocado, embora fosse a primeira vez que eu presenciava a cena: quando cheguei na Rua Aurora vi crianças misturadas a homens e mulheres castigados por aquilo que lhes dão prazer.
Realmente a rua estava entupida de pessoas que se autodestruíam, e o pior, muitos riam enquanto se acabavam com um cachimbo nada convencional nas mãos.

Demorou, mas caiu a ficha: eu estava na cracolândia, lugar dominado pelo tráfico e a prostituição, onde as pessoas parecem conformadas com aquilo que são, assim como os homens da polícia militar, inertes a menos de quinhentos metros da "sin city" paulistana.

Uma cena dantesca. Crianças e jovens desesperados implorando pelo cachimbo ou pedindo desesperadamente entre eles mesmo um, dois, três... reais para completar e pegar mais uma pedra. Pensei em registrar esse momento com a câmera do meu celular, mas preferi não abusar da sorte. Eu já caminhava por aquele lugar lentamente e não fui "intimado" por ninguém, era hora de me retirar.

Agora caminhava com destino certo, meu lar doce lar, mas antes, a poucas quadras daquele submundo, eu me deparo com o famoso bar Brahma.

Chego à conclusão, enquanto tomo um chopp, que em São Paulo a distância entre o paraíso e o inferno é menor do que muita gente imagina.

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Brás, observação e respiração, de Patrícia Macedo

"Ufa! Sentei. Não quero mais saber de nada." Isso é o que eu penso toda vez que pego a última condução do dia. Sentar é um prêmio, uma compensação, mas ficar com a cabeça vazia é uma árdua tarefa. Após cinco minutos, uma enxurrada de pensamentos invade minha mente. Obrigações, frustrações, desentendimentos e o metrô lotado.

Ah o metrô! Essa talvez seja a lembrança mais pavorosa da semana. Corpos que se chocam, rostos que não disfarçam noites mal dormidas e a sensação de que, mesmo com o trânsito colossal da cidade de São Paulo, todos gostariam de estar em um carro naquele momento.

Eu que pego a linha dos extremos, Corinthians - Itaquera - Palmeiras - Barra-Funda, sei que a parte mais temida dessa rota é a estação do Brás. Ela serve como passagem para o meu destino em São Bernardo do Campo, o famoso b do ABC paulista, onde estudo. Além de mim, cerca de 450 mil pessoas encaram o Brás diariamente, tarefa que não é fácil... Lá ninguém precisa se locomover ao sair do vagão: é simplesmente ejetado. Não há perigo de cair, porque um corpo na horizontal ocuparia muito espaço e se você respirar, tome cuidado, alguém pode alegar que está roubando o oxigênio alheio.

Não parece uma cena agradável, mas para fora daquele tumulto asfixiante há uma paisagem tranquilizadora que alcança o norte, sul, leste e oeste de São Paulo. Muitas vezes aquela imensidão de prédios cobertos pelo contraste entre luz e sombra é o que me dá fôlego para continuar. Se a paisagem é vista à noite um aglomerado de pontos luminosos supre a ausência dos raios de sol. A cidade acesa nos atrai para fora da estação.

Descobri esse ângulo do Brás em um daqueles dias em que fechar os olhos é um alívio e esquecer parece ser a melhor solução. Resolvi comer uma casquinha e fazer justamente o oposto: simplesmente observar. Observei durante um bom tempo e o que era um grande problema se perdeu entre aquele emaranhado de ruas. Percebi que aquela gigantesca cidade tinha trilhões de janelas que guardavam milhões de vidas com milhares de dificuldades iguais, menores e maiores que as minhas.
Mas ainda assim, todos pareciam ter certo cuidado para respirar..."

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Chegada em São Paulo, de Adhemar Honda

Três de março de 1958, uma data inesquecível, dia em que eu e minha família deixamos a pequeninha cidade de Bastos, no interior de São Paulo, rumo à tão sonhada cidade de São Paulo. A viagem de vinda a São Paulo foi feita no trem pertencente à ferrovia Paulista, e era o único meio de transporte de passageiros dessa época.
Acordamos bem cedo, porque tínhamos de caminhar cerca de dois quilômetros da casa onde morávamos, no pequeno sítio, até a cidade de Bastos, depois um micro-ônibus com destino à estação Iacri, distante cerca de 10 quilômetros da nossa cidade.
Quando chegamos à estação de Iacri fui esperar, ansioso, o trem que nos levaria a São Paulo. Eu nunca tinha viajado antes de trem.
Não me lembro de quanto tempo esperei, até que finalmente vi aparecer no horizonte uma fumaça negra, era a "Maria-fumaça" que vinha de Dracena, última cidade da ferrovia Paulista. Assim que o trem parou na plataforma entrei rapidamente e fui sentar no banco, de madeira, na janela, para poder apreciar as paisagens que se sucediam lentamente, pois os Maria-fumaças eram muito lentos.
Chegando-se à cidade de Marília, fizemos a baldeação do Maria-fumaça para um trem um pouco mais moderno, movido a motor a diesel. Ele nos levou até cidade de Bauru, um entroncamento de trens muito importante dessa época. De lá até São Paulo fomos num trem moderno, movido pela força motriz elétrica, com poltronas confortáveis e inclusive com cabines privativas conhecidas como "Pullman", denominação vinda dos USA.
Sei que eles não deviam ter o mesmo luxo dos americanos, mas para mim era uma sucessão de surpresas. Como nós éramos sete pessoas, seis filhos e minha mãe, compensou viajar nesse vagão Pullman, em vez de comprar passagens individuais, o que nos proporcionou uma viagem íntima em família, agradável e inesquecível.
À medida que o trem avançava, sem percalços, e sentindo que estava cada vez mais próximo do nosso destino, comecei a pensar como seria esta cidade tão falada que nos atraía como um ímã.
Meus pais resolveram vir para São Paulo porque os cinco filhos mais velhos já estavam morando em São Paulo para poderem prosseguir nos estudos, trabalhando de dia e estudando à noite. A pequenina cidade de Bastos só tinha o curso ginasial.
O estudo era tudo para meus pais, tornar-se um profissional instruído e capacitado era única forma de se integrar plenamente na sociedade. Esse sentimento eles trouxeram do Japão, país de origem que tiveram que deixar pela falta de oportunidade e recursos financeiros.
São Paulo significava para todos nós, por isso, esperança de dias melhores. Um lugar onde poderíamos realizar os nossos sonhos.
Após cerca de quatorze horas de viagem, já se aproximando das dez horas da noite, vi pela janela as luzes cada vez mais abundantes e intensas, anunciando que nós estávamos finalmente chegando ao nosso destino. Decorridos mais alguns minutos, o alto falante do trem anunciou que estávamos parando na Luz, o ponto final da nossa viagem, o início de uma nova vida.

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