| conteúdo menu principal menu lateral | ||||||||||||||||||
|
Arquivo
Saiba Mais
| Olhares de São Paulo/ Crônicas Sob a orientação de Alan Viola, a oficina Olhares de São Paulo/crônicas aconteceu de 13/5 a 1º/7/2009. O evento teve como proposta o estudo do gênero e criação de crônicas, tendo a cidade de São Paulo como tema. O objetivo é estimular a escrita e demonstrar ao cidadão comum que ele pode escrever/descrever a cidade. Nesta página, apresentamos uma seleção de textos produzidos pelos participantes da oficina.
Leia também os textos produzidos pelos alunos do Estúdio de Texto ministrado por Márcia Denser.
Poucas pessoas
se recordam do velho centro de São Paulo... Dos cinemas... E de tudo mais
que tivera outrora por ali. Acredito que poucas pessoas olham aquela região
como ela deveria ser realmente contemplada. Sexta-feira, de Paula Caldeiram Sexta-feira à noite não há nada igual: nós não vamos beber ou dançar. Pelo celular localizo minha amiga, está lá dentro, me aguardando. Já na sala de debates, o tema, Cultura e Resistência. Logo me pergunto: mas, e se for entediante? E se for uma sequência de repetições? Vejo o público lento tomando o espaço e entro no ritmo. Tarde demais para saber, pois o mediador já chamara os participantes. Não gostei do local escolhido por ela: - O que você acha de sentarmos aqui no meio? Disse eu. - Ah não, é melhor a gente sentar aqui na pontinha porque se ficar chato ou ruim a gente vai embora. Murmurei
algumas poucas palavras, mas o senhor de chapéu e paletó que estava
na fileira da frente deu risinhos direcionados a minha amiga. Depois de acomodados
(na ponta), chamam ao palco o ilustríssimo sociólogo, com várias
publicações sobre o tema. Era ele, que furo. As perguntas da plateia acabaram e o mediador pergunta se o sociólogo deseja acrescentar alguma coisa. Nosso ilustríssimo senhor de chapéu e paletó nesse instante retorna ao microfone: - Quero dizer que ao esperar o início do debate, sentado na cadeira da plateia, vi dois jovens que indecisos de onde sentar dialogavam. Um deles disse: - O que você acha de sentarmos aqui no meio? E a sua companheira respondeu: - Não, nada disso, é melhor a gente sentar aqui na pontinha porque se for chato ou ruim a gente vai embora. As gargalhadas eram incontroláveis. E em seguida ele completou: - Acho que não deve ter sido ruim, porque eles estão aqui até agora. Dessa vez os risos eram também altos e duradouros. - E ainda anotaram! Gritou um abelhudo. Em São Paulo, as minhas
sextas agora eu passo em casa lendo Kafka, ou seria melhor Machado?
De dia em dia, de Renata Cirilo Olho pela janela do escritório, sexto andar, vejo o fim da torre da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Ao fundo, os prédios se impõem mais altos. Dentro
da sala as paredes são brancas, os computadores estão ligados, as
pessoas trabalham no ritmo frenético e lânguido de uma segunda-feira. - Graças a Deus que quinta é feriado! O dia só começava, mas a frase ecoava desde a semana passada. E se a folhinha de calendário era despetalada a cada dia com tenaz desejo, o momento de engolir as horas do relógio aproximava-se cada vez mais. Alguns colegas faziam planos, e o burburinho desejoso fez dueto com vozes de trabalho. Não era hábito do escritório promover a emenda do feriado, sexta tem expediente. Entre os pensamentos e vozes: o não viajar, planejamentos curtos, dormir e arrumar a baguncinha que nunca se arruma. Nas falas, o feriado se tornava um fim de semana a mais. De dia em dia, conta-se a chegada do sábado, mas com receio recebe-se o domingo que trará a segunda. Os feriados não saem muito da rotina, mas, por serem esporádicos, sua contagem é mais eufórica e, também, realizada em comunhão. - Mas ainda é segunda. Graças a Deus que quinta é feriado! Repito a sentença enquanto observo a torre da igreja sob o Sol; que, espero, repita-se no esperado dia.
It's NOT elementary, my dear Watson, de Bruno Honoratto Por estranho que possa parecer, com o advento da Internet, e por meio dela, acabei me afeiçoando a um tipo de mídia considerado obsoleto por alguns e cuja morte fora decretada por tantos outros há alguns anos: os programas de rádio. Dos muitos que passei a acompanhar, o programa Fim de Expediente, da rádio CBN, é um dos meus preferidos. A atração é apresentada por um ator, um economista e um escritor. Os três discutem toda sorte de assuntos, cada qual sob a sua perspectiva, discordando em quase tudo, no entanto, concordando em uma coisa, amam São Paulo. É recorrente no programa uma investigação platônico-dialética que visa delimitar a identidade da capital. Nunca desvendaram coisa alguma. Depois de algumas sextas-feiras, porém, comecei eu a me interessar pelo assunto e, sem perceber, passei a dedicar parte de minhas divagações à terra da garoa e a tentar entender qual o meu papel dentro desse cosmos. Então, em meio a questionamentos espaciais e existenciais, à deriva na Internet, deparei com uma oferta bastante interessante, uma oficina chamada Escrita criativa - Um novo olhar sobre a cidade de São Paulo, ou algo que o valha. E foi assim que entrei para uma oficina de produção de crônicas em busca de respostas. Com o passar das aulas, conheci um pouco de alguns participantes, tinham personalidades diversas, e posso dizer que todos eram movidos por uma curiosidade parecida com a minha. De modo geral, meus colegas de oficina escreveram crônicas a respeito do movimento e da velocidade de São Paulo. Estavam sempre andando, sempre ocupados. Coisas para fazer, gente para ver. A velocidade nos discursos deles era um cacoete, o que diziam sobre suas trajetórias diárias não era uma queixa, narravam a correria como parte do todo, a qual não era boa nem ruim, simplesmente era. Nenhum desses dados, contudo, me ajudou a captar a alma da cidade. Clarice Lispector escreveu certa vez que o mundo lhe parecia vasto demais e sem síntese possível. Era assim que eu pensava a cidade lá pelo dia 18 de junho, ou seja, mais da metade das aulas já tinha se passado, e eu ainda não tinha escrito nada sobre a tal essência da cidade. No dia 25 de junho, já desacreditado, estava relendo Watchmen. Nesse gibi, Dr. Manhattan relata que, quando andou pela superfície do Sol, presenciou eventos tão rápidos e tão pequenos que mal podia dizer que eles realmente tinham acontecido. Naquele momento, pensei que poderia ser esse o caso de São Paulo, bilhões de eventos subatômicos reagindo entre si tão rapidamente para formar a capital que não conseguimos processar. Impossível fazer todas as associações, identificar todas as partes. No momento em que escrevo estas linhas, continuo sem uma resposta definitiva. No entanto, talvez ela não exista mesmo, talvez eu esteja vendo gigantes onde há moinhos de vento. Ou, talvez, somente alguém como o Dr. Manhattan, que tem clarividência e total domínio sobre matéria, entre outras coisas, pudesse captar a alma desta cidade. A Cidade que arrancava sorrisos, de Guilherme Conde Uma cidade dentro de outra. O
missionário com o mártir. Aquele que muitos chamam de "extremo".
São Paulo, Zona Leste. 21 de abril. Lá, o feriado tem mais sabor.
Estou falando da Cidade Tiradentes. Junto com os meus irmãos, eu e o bairro estávamos crescendo rapidamente. Graças a uma bolsa, estudei na primeira escola particular da região, atualmente são várias abrigando jovens estudantes de uma classe média emergente". Meus irmãos, na época, músicos em atividade, ajudaram a fundar o primeiro bar exclusivamente voltado ao rock'n'roll. Não tenho registro de um outro Rock Bar por lá funcionando hoje. De um lado, me concentrava no "pega-pega", do outro, minha mãe se estressava na Avenida Ragueb Chohfi congestionada. Antes, de tão perigosa, tinha o vulgar apelido de "cidade tira-vidas", hoje, está bem perto de ser emancipada de São Paulo. Pelas suas principais vias, Avenida dos Metalúrgicos e Rua dos Marceneiros, avistava-se um populoso bairro de trabalhadores esperançosos e esforçados em desenvolvimento. Áureos tempos passei lá. Quando lembro das minhas primeiras defesas e meus primeiros gols na terra vermelha, do "esconde-esconde", do "taco" (versão brasileira-paulistana-periférica do esporte britânico Cricket), das bolinhas de gude, das pipas entre nuvens no céu azul, das escaladas nos morros que separavam os prédios (minha mãe tinha pavor disso), tudo isso e mais um pouco, me vem à cabeça, Cidade Tiradentes. Quando o Plano Real foi criado e quando o Brasil venceu pela quarta vez a Copa do Mundo de Futebol, adivinha onde estava? 11 anos lembrados com muita alegria. Não saí da Zona Leste. Mas, uma certeza eu tenho: se antes esse bairro pudesse tirar vidas, nos nossos dias de hoje, o bairro de Cidade Tiradentes me arranca sorrisos.
Terra de ninguém, de Márcio Campos Numa noite caminhando pelas
ruas do centro de São Paulo, sem destino, acabei chegando no bairro Santa
Ifigênia, lugar bastante famoso para quem frequenta o mundo da informática.
Já havia passado por lá várias vezes durante o horário
comercial, mas era a primeira vez depois do comércio fechado.
Brás, observação e respiração, de Patrícia Macedo "Ufa! Sentei. Não quero mais saber de nada." Isso é o que eu penso toda vez que pego a última condução do dia. Sentar é um prêmio, uma compensação, mas ficar com a cabeça vazia é uma árdua tarefa. Após cinco minutos, uma enxurrada de pensamentos invade minha mente. Obrigações, frustrações, desentendimentos e o metrô lotado. Ah o metrô! Essa talvez seja a lembrança mais pavorosa da semana. Corpos que se chocam, rostos que não disfarçam noites mal dormidas e a sensação de que, mesmo com o trânsito colossal da cidade de São Paulo, todos gostariam de estar em um carro naquele momento. Eu que pego a linha dos extremos, Corinthians - Itaquera - Palmeiras - Barra-Funda, sei que a parte mais temida dessa rota é a estação do Brás. Ela serve como passagem para o meu destino em São Bernardo do Campo, o famoso b do ABC paulista, onde estudo. Além de mim, cerca de 450 mil pessoas encaram o Brás diariamente, tarefa que não é fácil... Lá ninguém precisa se locomover ao sair do vagão: é simplesmente ejetado. Não há perigo de cair, porque um corpo na horizontal ocuparia muito espaço e se você respirar, tome cuidado, alguém pode alegar que está roubando o oxigênio alheio. Não
parece uma cena agradável, mas para fora daquele tumulto asfixiante há
uma paisagem tranquilizadora que alcança o norte, sul, leste e oeste de
São Paulo. Muitas vezes aquela imensidão de prédios cobertos
pelo contraste entre luz e sombra é o que me dá fôlego para
continuar. Se a paisagem é vista à noite um aglomerado de pontos
luminosos supre a ausência dos raios de sol. A cidade acesa nos atrai para
fora da estação.
Chegada em São Paulo, de Adhemar Honda Três
de março de 1958, uma data inesquecível, dia em que eu e minha família
deixamos a pequeninha cidade de Bastos, no interior de São Paulo, rumo
à tão sonhada cidade de São Paulo. A viagem de vinda a São
Paulo foi feita no trem pertencente à ferrovia Paulista, e era o único
meio de transporte de passageiros dessa época. |
Hoje no CCSP
Rede sem fio Mailing
Parceiros Plugins
Melhor visualização |
||||||||||||||||
![]() |
||||||||||||||||||
|
|
||||||||||||||||||