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   Quem fez, quem faz o CCSP - 25 anos - maio de 2007

 

Bibliotecário da Biblioteca Braille do Centro Cultural São Paulo há mais de 30 anos, Ricardo Sigolo transformou em profissão e carreira o prazer de garantir aos cegos o acesso aos conhecimentos, informações e universos presentes em livros e outras obras impressas. Ricardo, que é deficiente visual, supera as próprias dificuldades e presta um serviço que amplia horizontes de muitas pessoas. Ele começou como assistente e, hoje, além de ser bibliotecário, apresenta o programa Brasil Acontece, na Web Rádio . Na entrevista abaixo, Ricardo fala de sua experiência como funcionário do Centro Cultural.




entrevista:
Márcia Dutra
foto: Carlos Rennó

Conte um pouco do início da sua carreira.
Eu entrei em 1973 para a Biblioteca Braille (na época, ainda parte da Biblioteca Monteiro Lobato), fui contratado como atendente. Ali, eu fazia o atendimento ao público, transcrições de livros danificados e as etiquetações nas lombadas das publicações, tudo em Braille para o deficiente poder ter livre acesso.

De que forma o seu trabalho evoluiu desde então?
Em 1975, eu criei o setor de áudio em fitas cassete, ao qual dei o nome de audioteca. Isso facilitou muito o acesso à informação, porque a gravação é mais rápida que a transcrição em Braille. Comecei gravando periódicos da época como o jornal Opinião e o Pasquim, pois o deficiente visual não tinha acesso a atualidades, e isso era necessário principalmente por causa do vestibular. Com o passar do tempo, as pessoas começaram a requisitar obras literárias e estas também foram sendo gravadas. Por volta de 1980, a audioteca já estava a pleno vapor. Em 2002, foi implementada no estúdio da Web Rádio do CCSP a gravação de CDs. Obtivemos o equipamento, o software de voz e começamos a produção.

Na sua trajetória na Biblioteca, houve alguma história emocionante ou marcante que você queira nos contar?

Eu lembro de uma assistente social que cuidava dos pacientes terminais de AIDS em um hospital. O pessoal não tinha mais capacidade nem de ler ou mesmo pegar, manusear um livro. Ela conversou comigo para ver se havia possibilidade de ceder, por empréstimo, algumas obras, principalmente de auto-ajuda, que ela pudesse levar para eles ouvirem, como uma terapia. Depois, ela disse que o trabalho criou uma certa esperança dentro de cada um. Foi gratificante.

O que a mudança da Biblioteca Braille para o CCSP trouxe de novo?


A biblioteca cresceu bastante quando veio para o Centro Cultural. Por ser um local de fácil acesso, de grande visitação, o público foi conhecendo mais a Biblioteca Braille. A divulgação foi maior e o número de usuários aumentou bastante.

E durante esses mais de 20 anos no CCSP, que mudanças você percebe?

Quando eu entrei no CCSP, em 1986, o lugar tinha uma linha de trabalho voltada para um público específico, mais selecionado. A biblioteca, por exemplo, era muito procurada para a realização de pesquisas. Hoje, além de ser um local de estudo, tornou-se um espaço de lazer. O Centro Cultural está se adequando ao interesse de diferentes públicos. Atualmente, existe cultura para todos os gostos, desde rap até música erudita.
Eu acho muito boa essa abertura, essa maior participação da população. Hoje existe uma gama de atividades bem diversificada, e isso é importante.

Além da Biblioteca Braille, você já atuou em outros setores do CCSP?

Eu trabalhei por dois anos no balcão de atendimento, aos fins de semana. Era uma loucura, porque a Internet ainda não havia se popularizado e o movimento era muito grande, as pessoas vinham até aqui para obter informações. Trabalhei também durante algum tempo na Discoteca, fazendo a parte de processamento, gravação, mudança de suporte, a parte técnica dos discos.

Como foi sair da Biblioteca Braille e realizar outras atividades? Teve alguma dificuldade por ser deficiente visual?

O fundamental é entender como funciona cada setor. A partir disso, a deficiência não atrapalha o relacionamento com o usuário, muito pelo contrário. As pessoas acabam se espantando com o fato de serem atendidas por alguém que não enxerga, e isso é uma experiência muito rica. Gostei muito de trabalhar no balcão de informações e também na discoteca, principalmente porque ali eu podia orientar o usuário. Por ser músico e ter conhecimento na área, o trabalho na discoteca foi muito bom.

Então, você também é artista?


Eu toco violão, teclado e canto. Eu e meu grupo já nos apresentamos inclusive no Centro Cultural. Um show que me marcou muito foi o que fizemos em 1991, para arrecadar dinheiro para a Associação dos Amigos da Biblioteca Braille. A apresentação era para ser no CCSP, mas o lugar foi atingido por tempestades e teve que ser fechado. Foi uma correria para arrumar outro local, e acabou acontecendo no Teatro João Caetano. Depois eu fiz mais alguns shows no CCSP, e foram todos bem marcantes.

Qual a emoção de comemorar 25 anos do Centro Cultural São Paulo?

Além de trabalhar no Centro Cultural, eu gosto de curtir o ambiente. A amizade entre as pessoas que já estão aqui há um tempo é muito legal. Apesar do ambiente de trabalho ter muitos funcionários, pode-se considerar alguns da família. Nós participamos de muitas coisas juntos, compartilhamos os problemas de cada um, as dificuldades, as angústias, os prazeres, as alegrias. Tanto no trabalho como nos relacionamentos eu me sinto realizado.
Já concretizei alguns sonhos no Centro Cultural. A digitalização da audioteca, por exemplo, era um projeto que vinha de meados da década de 1990 e aconteceu em 2002. A impressora Braille foi outra conquista importante.

 


 

 

 

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