Bibliotecário da Biblioteca Braille do
Centro Cultural São Paulo há mais
de 30 anos, Ricardo Sigolo
transformou em profissão e carreira o
prazer de garantir aos cegos o acesso aos conhecimentos,
informações e universos presentes
em livros e outras obras impressas. Ricardo,
que é deficiente visual, supera
as próprias dificuldades e presta um
serviço que amplia horizontes de muitas
pessoas. Ele começou como assistente
e, hoje, além de ser bibliotecário,
apresenta o programa Brasil Acontece, na Web
Rádio . Na entrevista abaixo,
Ricardo fala de sua experiência como funcionário
do Centro Cultural.
entrevista: Márcia Dutra
foto: Carlos Rennó
Conte um pouco do início da sua carreira.
Eu entrei em 1973 para a Biblioteca Braille
(na época, ainda parte da Biblioteca
Monteiro Lobato), fui contratado como atendente.
Ali, eu fazia o atendimento ao público,
transcrições de livros danificados
e as etiquetações nas lombadas
das publicações, tudo em Braille
para o deficiente poder ter livre acesso.
De que forma o seu trabalho evoluiu desde
então?
Em 1975, eu criei o setor de áudio em
fitas cassete, ao qual dei o nome de audioteca.
Isso facilitou muito o acesso à informação,
porque a gravação é mais
rápida que a transcrição
em Braille. Comecei gravando periódicos
da época como o jornal Opinião
e o Pasquim, pois o deficiente visual não
tinha acesso a atualidades, e isso era necessário
principalmente por causa do vestibular. Com
o passar do tempo, as pessoas começaram
a requisitar obras literárias e estas
também foram sendo gravadas. Por volta
de 1980, a audioteca já estava a pleno
vapor. Em 2002, foi implementada no estúdio
da Web Rádio do CCSP a gravação
de CDs. Obtivemos o equipamento, o software
de voz e começamos a produção.
Na sua trajetória na Biblioteca,
houve alguma história emocionante ou
marcante que você queira nos contar?
Eu lembro de uma assistente social que cuidava
dos pacientes terminais de AIDS em um hospital.
O pessoal não tinha mais capacidade nem
de ler ou mesmo pegar, manusear um livro. Ela
conversou comigo para ver se havia possibilidade
de ceder, por empréstimo, algumas obras,
principalmente de auto-ajuda, que ela pudesse
levar para eles ouvirem, como uma terapia. Depois,
ela disse que o trabalho criou uma certa esperança
dentro de cada um. Foi gratificante.
O que a mudança da Biblioteca Braille
para o CCSP trouxe de novo?
A biblioteca cresceu bastante quando veio para
o Centro Cultural. Por ser um local de fácil
acesso, de grande visitação, o
público foi conhecendo mais a Biblioteca
Braille. A divulgação foi maior
e o número de usuários aumentou
bastante.
E durante esses mais de 20 anos no CCSP,
que mudanças você percebe?
Quando eu entrei no CCSP, em 1986, o lugar tinha
uma linha de trabalho voltada para um público
específico, mais selecionado. A biblioteca,
por exemplo, era muito procurada para a realização
de pesquisas. Hoje, além de ser um local
de estudo, tornou-se um espaço de lazer.
O Centro Cultural está se adequando ao
interesse de diferentes públicos. Atualmente,
existe cultura para todos os gostos, desde rap
até música erudita. Eu
acho muito boa essa abertura, essa maior participação
da população. Hoje existe uma
gama de atividades bem diversificada, e isso
é importante.
Além da Biblioteca Braille, você
já atuou em outros setores do CCSP?
Eu trabalhei por dois anos no balcão
de atendimento, aos fins de semana. Era uma
loucura, porque a Internet ainda não
havia se popularizado e o movimento era muito
grande, as pessoas vinham até aqui para
obter informações. Trabalhei também
durante algum tempo na Discoteca, fazendo a
parte de processamento, gravação,
mudança de suporte, a parte técnica
dos discos.
Como
foi sair da Biblioteca Braille e realizar outras
atividades? Teve alguma dificuldade por ser
deficiente visual?
O fundamental é entender como funciona
cada setor. A partir disso, a deficiência
não atrapalha o relacionamento com o
usuário, muito pelo contrário.
As pessoas acabam se espantando com o fato de
serem atendidas por alguém que não
enxerga, e isso é uma experiência
muito rica. Gostei muito de trabalhar no balcão
de informações e também
na discoteca, principalmente porque ali eu podia
orientar o usuário. Por ser músico
e ter conhecimento na área, o trabalho
na discoteca foi muito bom.
Então, você também é
artista?
Eu toco violão, teclado e canto. Eu e
meu grupo já nos apresentamos inclusive
no Centro Cultural. Um show que me marcou muito
foi o que fizemos em 1991, para arrecadar dinheiro
para a Associação dos Amigos da
Biblioteca Braille. A apresentação
era para ser no CCSP, mas o lugar foi atingido
por tempestades e teve que ser fechado. Foi
uma correria para arrumar outro local, e acabou
acontecendo no Teatro João Caetano. Depois
eu fiz mais alguns shows no CCSP, e foram todos
bem marcantes.
Qual a emoção de comemorar
25 anos do Centro Cultural São Paulo?
Além de trabalhar no Centro Cultural,
eu gosto de curtir o ambiente. A amizade entre
as pessoas que já estão aqui há
um tempo é muito legal. Apesar do ambiente
de trabalho ter muitos funcionários,
pode-se considerar alguns da família.
Nós participamos de muitas coisas juntos,
compartilhamos os problemas de cada um, as dificuldades,
as angústias, os prazeres, as alegrias.
Tanto no trabalho como nos relacionamentos eu
me sinto realizado.
Já concretizei alguns sonhos no Centro
Cultural. A digitalização da audioteca,
por exemplo, era um projeto que vinha de meados
da década de 1990 e aconteceu em 2002.
A impressora Braille foi outra conquista importante.
