A
bibliotecária Alice
Tomie Sano está há
quase 25 anos no Centro Cultural São
Paulo. Atualmente, ela exerce o cargo de diretora
de Coleções Especiais, mas já
trabalhou em todos os setores da Divisão
de Bibliotecas - do atendimento ao público
ao restauro e catalogação do acervo.
entrevista: Márcia Dutra
foto: Carlos Rennó
Como foi o começo de sua carreira no
Centro Cultural São Paulo?
Alice
- Sou bibliotecária concursada,
entrei na prefeitura em 1976. Trabalhei em bibliotecas
infanto-juvenis por seis anos e depois optei
pelo Centro Cultural. Tomei posse em 17 de março
de 1983, quando a biblioteca abriu. Organizei
o espaço, coloquei os livros nas estantes,
participei ativamente desse começo.
Teve algum motivo especial para escolher trabalhar
aqui?
Alice
- Eu moro perto do Centro Cultural desde
1980, então acompanhei todo o projeto
pelos jornais. Este lugar já estava no
meu coração durante a sua construção:
quando as estantes estavam sendo organizadas
e a biblioteca ainda não tinha sido inaugurada,
eu pedi a Deus que me trouxesse para cá,
permitisse que eu pudesse estar aqui. O lugar
me encantou com seu projeto inovador e arrojado,
mas ainda assim favorável a todos. Realmente,
é um privilégio estar aqui.
E quanto à sua evolução
profissional aqui dentro?
Alice
- Nossa biblioteca é diferenciada.
Aqui, o acesso ao acervo é horizontal,
direto, o que deixa tanto funcionários
quanto público em um mesmo nível.
Primeiro, eu trabalhei no atendimento ao usuário.
Depois, passei pelos vários setores da
Divisão de Bibliotecas. Trabalhei na
Braille, na Discoteca, na Gibiteca. A experiência
na Braille foi muito rica, trabalhei por dois
anos com deficientes visuais, foi um mundo novo
pra mim. Hoje, sou diretora da subdivisão
de Coleções Especiais, composta
pela Braille e pela Gibiteca.
Em
que medida seu trabalho no CCSP a modificou
como pessoa?
Alice
- Houve um enriquecimento espiritual
muito grande. Eu sou bibliotecária, sou
veículo das informações
de que as pessoas precisam. Para exercer meu
papel, eu quero saber de tudo. Atualmente, estou
entrando no mundo do mangá, as histórias
em quadrinhos japonesas, que para mim são
algo novo. Eu tenho me renovado, creio que este
espaço é favorável a isso.
Quando observo os jovens que vêm aqui,
fico contente que eles aproveitam o lugar e
me enxergo um pouco neles - é a mesma
motivação, mesma alegria de estar
aqui, de continuar aprendendo.
Fale um pouco sobre o trabalho na Gibiteca
Henfil.
Alice
- Antigamente, a Gibiteca ocupava um
espaço à parte e hoje ela está
dentro da divisão de bibliotecas, mais
integrada aos outros acervos. Queremos apresentar
o mundo das histórias em quadrinhos para
pessoas que não o conhecem, pois existe
a falsa impressão de que se trata de
literatura infantil. A Gibiteca tem um papel
importante, nós recebemos pesquisadores,
ela é fundamental no estudo e divulgação
dessa forma de expressão.
Existe alguma história que você
possa nos contar?
Alice
- Houve o ano em que a biblioteca foi
inundada. Teve uma tempestade bastante forte
e voou um galho que quebrou o teto, de acrílico.
A água chegou até o joelho das
pessoas. Foi um dia muito assustador. Tiveram
que desligar todas as luzes. Eu estava na biblioteca
Braille trabalhando com os deficientes visuais
e eles ficaram muito apavorados porque começaram
a ouvir o barulho. Eu tive que acudir, enchi
meus dois braços com um monte de cegos
para sair de lá, porque a gente não
sabia se ia dar curto-circuito. Nós tivemos
que ficar cerca de dois anos secando os livros.
Montamos uma equipe, mexemos livro por livro,
arejamos, fizemos um grande mutirão.
E os bons momentos?
Alice
- Teve uma vez em que eu era chefe do
restauro e recebi 50 crianças de um projeto
do governo estadual. Eram crianças não
alfabetizadas de cerca de cinco anos de idade,
e eu deveria mostrar o que é um livro
e como era o nosso trabalho. Pensei que seria
uma tarefa complicada, mas reuni a equipe de
funcionários, todos colaboraram e fizemos
a oficina, em que cada criança montou
o seu próprio livrinho. Eu sempre tento
apresentar a realidade do livro, o cuidado que
a gente tem que ter. Usei comparações,
adaptei para a realidade daquelas crianças,
que não eram escolarizadas e viviam uma
realidade difícil.
Houve algum evento marcante para você?
Alice
- O mais recente foi a comemoração
pelos 60 anos da biblioteca Braille. Eu vim
assistir ao show do Jair Rodrigues. Comprei
os CDs dele, fui pedir autógrafo, apreciei
bastante porque eu via quanto o pessoal da Braille
cantava junto com ele. O Jair foi eleito pelo
público para participar do aniversário
e eu fiquei maravilhada porque todos foram atendidos.
