
Luiz Benedito Castro Telles,
juntamente com seu colega Eurico Prado, foi
um dos responsáveis pela arquitetura
do Centro Cultural São Paulo. O arquiteto
participa da exposição Outra
objetividade - o CCSP no olhar dos artistas,
que ocorreu no Piso Caio Graco de 12/5 a 5/9.
Na entrevista abaixo, ele conta sobre sua experiência
profissional e sobre os primórdios do
projeto arquitetônico.
entrevista:
Márcia Dutra e Paula Bassi
fotos: Sônia Parma
Inicialmente,
a proposta do Centro Cultural era ser uma extensão
da Biblioteca Mário de Andrade. Qual
era a intenção do projeto em relação
ao planejamento das bibliotecas?
Luiz Telles
- O objetivo era colocar o mundo da leitura
perto do indivíduo, do leitor. Quando
eu chego a uma biblioteca, posso ter acesso
físico pelo menos aos títulos
mais procurados. Eu leio lombada, leio orelha,
folheio o livro. Posso percorrer a cultura inteira
pelos setores e descobrir o que quero. Surge
também a idéia da leitura de lazer
- eu não leio só para fazer trabalho
de escola, eu leio porque gosto, assim como
eu vou ao cinema, ao teatro.
Para as bibliotecárias, essa noção
de livre acesso era muito nova. Elas tinham
sido instruídas a controlar o livro,
a preserva-lo. Vimos que o mais importante não
era guardar e sim fornecer a informação.
Para isso, o edifício tinha que escancarar
as portas.
O contato com a comissão formada para
realizar o projeto foi um aprendizado brutal
porque a gente vivia na repressão da
ditadura. Na época, diante de qualquer
encontro já vinha um policial, disfarçado
ou não, para perguntar o que estava acontecendo.
Se ele desconfiasse, levava-nos para o DOPS.
Com o Centro Cultural, nós estávamos
projetando um espaço de encontro o tempo
inteiro.
O livre acesso se contrapunha, inclusive, à
arquitetura da própria Biblioteca Mário
de Andrade. Não que ela estivesse errada,
mas ela foi inaugurada em 1942 e nós
já estávamos em 1975. A gente
queria que as pessoas começassem a gostar
de cultura, que sempre foi um negócio
chato - aprender dá trabalho, estudar
é uma droga. Em um país no qual
se proibia toda e qualquer liberdade expressão,
o futuro é drástico.
Hoje em dia, o que mais dá uma noção
de que possivelmente acertamos é ver
como as pessoas se apropriam dos espaços.
Eu sei que, aqui, para mudar uma mesa de lugar
tem que se conversar muito. Hoje, parece que
ninguém mais tem vontade, ninguém
se mexe para nada, é um mundo tão
individualista.
Naquela
época, vocês percebiam que o projeto
era subversivo?
Luiz Telles
- Sim. Não que nós fôssemos
subversivos, os outros que eram retrógrados.
O mundo inteiro fazia isso, e não precisava
ser país socialista. A Europa abria as
portas para a cultura. Os Estados Unidos também
começavam a despertar.
A gente estava com um pé na frente, outro
atrás. Ficávamos de prontidão,
para ver com o que eles iam implicar. Mas essa
é uma conclusão a que eu cheguei
depois, no meu trabalho de dissertação.
Realmente, os militares não perceberam
absolutamente o sentido de liberdade que existia
nos espaços propostos. Eles não
perceberam, eles foram atrás de teatro,
de cinema, de fotografia, da imprensa.
É lógico que os arquitetos que
se expuseram mais foram perseguidos, até
o Niemeyer teve que sair daqui. Mas nós
continuamos nosso trabalho em silêncio.
No mesmo período, a arquiteta Lina Bo
Bardi fez o Sesc Pompéia com o mesmo
nível de liberdade. Ela propunha espaços
dinâmicos em que as pessoas se agrupassem,
discutissem. E eles não conseguiram entender
isso. Ainda bem, porque senão provavelmente
existiriam só colunatas, trancafiações
e grades.
Você
pode falar um pouco mais sobre a relação
do CCSP com a biblioteca Mário de Andrade?
Luiz Telles
- Quando fizemos o concurso para conseguir o
projeto, tivemos que fazer uma análise
crítica do espaço da Biblioteca
Mário de Andrade - uma sala de leitura
maravilhosa, circular, que tinha vista para
a praça Dom José Gaspar. Provavelmente
não deixariam as pessoas saírem,
por causa do controle dos livros, mas, por outro
lado, visualmente as pessoas saem, não
é? A gente sai pelo olho.
Por outro lado, constatamos que a biblioteca
dificultava a vida dos usuários. A grande
relação com a Mário de
Andrade foi que realizamos tudo ao contrário,
o que queríamos era redução
dos controles. Lutávamos pela liberdade,
que quase não tinha sobrado nesse país.
Queríamos uma arquitetura que permitisse
que os transeuntes, de repente, se perdessem
e caíssem aqui dentro, sem porta principal,
sem saguões incríveis e nem amedrontamentos.
A gente percebia que o próprio paulista,
comparado ao carioca, era caipira. Somos muito
mais reservados, mais quietos, desconfiados.
Era como se a gente pudesse pegar na mão
dessa pessoa acanhada, e falar "vem e usa
o que é seu". Inclusive porque você
paga, você tem todo o direito, é
público.
Noemi
do Val Penteado foi quem reivindicou à
prefeitura o terreno para a construção
do Centro Cultural. Você pode falar um
pouco mais sobre ela?
Luiz Telles
- Havia o Projeto Vergueiro, que utilizaria
o terreno para construir torres altas de escritório,
um teatro grande, um estacionamento. Isto prejudicaria
a cidade, por causa da própria infra-estrutura,
além do que era uma iniciativa da Prefeitura
em benefício do setor privado. O projeto
foi combatido, inclusive pelo Instituto de Arquitetos,
pelo IAD. Quando o prefeito Olavo Setúbal
assumiu, ninguém sabia o que fazer com
o terreno. Sabendo disso, a Noemi, que era diretora
do Departamento de Bibliotecas Públicas,
foi procurar o prefeito para mostrar para ele
que a Biblioteca Mário de Andrade precisava
ser ampliada, porque ela já estava ficando
deteriorada. Havia cerca de 800 mil volumes
nos corredores, sem ter onde colocar. Então,
ela se colocou tal qual a Lina Bo Bardi fez
com a Prefeitura na época para construir
o Masp. Ela conseguiu o terreno, que foi doado
para o Departamento de Bibliotecas. Foi uma
parceira, entendia rapidamente nossas intenções.
Uma das pessoas mais inteligentes, lúcidas,
carinhosas e humanistas que eu já conheci.
Ela tinha um poder muito grande de conciliação
e de aglutinação, além
de muito carinho pelos funcionários,
sabia da vida deles, tentava facilitar nos momentos
de dificuldade e conseguia de volta um reconhecimento
brutal. Todo mundo trabalhava para valer e sabia
que, na dificuldade, podia contar com ela.
Como
você conheceu o Eurico Prado e começou
a trabalhar com ele?
Luiz Telles
- Ele começou a namorar uma amiga
minha, que estudava na mesma sala que eu. Ele
estava três anos na nossa frente. A gente
tinha um grupo grande de amigos.
Em 1966, eu me formei. Meu pai era fazendeiro
e quis que eu voltasse para minha cidade tomar
conta da propriedade. Eu não sabia direito
o que fazer, ele estava muito doente e não
tinha muito tempo de vida. Então, eu
voltei para Garça, mas logo o Eurico
me chamou para prestarmos um concurso da Petrobrás
aqui em São Paulo. Nós trabalhamos
juntos e, apesar de não ganharmos o concurso,
nossa amizade se fortaleceu. Mais tarde, montamos
um escritório juntos.
Qual
o espaço de que você mais gosta
no Centro Cultural?
Luiz Telles
- O espaço de que eu mais gosto é
a saída do Piso Caio Graco. É
o pedaço mais legal, é o coração
mesmo. Eu também gosto da subida do metrô
porque eu caminho com a cidade, vejo a rua 23
de maio, vejo a Vergueiro, e eu estou em um
outro caminho: se eu quiser ir para a 23 eu
não posso, mas para a Vergueiro eu poderia,
eu poderia fazer caminhos de ida e volta, sem
ninguém me impedir. Aí vem a questão
da liberdade.
O
espaço é utilizado da forma como
você tinha imaginado?
Luiz Telles
- É até melhor do que eu esperava.
A liberdade está permitida, ninguém
faz críticas ou cara feia, isso eu acho
bárbaro. Os usos que surpreendem mesmo
são aqueles que nem tinham passado pela
nossa cabeça. Um dia eu cheguei aqui
na biblioteca e observei que um rapaz lia sentado
no chão, encostado na parede inclinada
perto da saída para a rua 23 de Maio.
Essa parede serve para compor a ventilação
lá de baixo. Para mim, aquela era a leitura
de lazer que tanto queríamos, não
interessa se ele estava fazendo trabalho de
escola, se ele estava no lazer geral. Por que
não? É legal observar as pessoas
que vêm namorar, observar, inclusive,
o pessoal em situação de rua.
A coisa mais importante desse edifício,
honestamente, eu não acho que seja o
projeto, eu acho que é o uso, o uso é
o grande lance desse edifício.
Você
sempre traz seus estudantes para vir visitar
o prédio, não é?
Luiz Telles
- Sim. Pode parecer uma vaidade, dizem que todo
arquiteto é um poço de vaidade,
mas eu tento não ser. É muito
bom quando as pessoas vêm me procurar
e querem vir aqui. Eu estou sempre disposto,
venho mesmo. Lá na Mackenzie eu tenho
vários CDs do projeto, vivo distribuindo
para as pessoas que precisam. É engraçado
que, depois de 25 anos, é um espaço
ainda procurado como pesquisa. E eu tenho visto
que a maioria das pesquisas é no sentido
favorável.
Você
acredita que sonhar aqui dentro do Centro Cultural
ainda é preciso?
Luiz Telles
- Sonhar é preciso sempre, sempre! Eu
não consigo viver sem o sonho, sem a
utopia. Eu gostaria de chegar mais perto dos
funcionários e contar as histórias.
Eu acho que aqui o pessoal é altamente
receptivo. Todos os funcionários que
conheço são pessoas agradabilíssimas,
não têm cara feia, todo mundo abana
a mão. Olha, há pouco tempo eu
estava com dificuldades em encontrar quem montasse
um livro das publicações do Centro
Cultural que eu queria colocar na exposição.
O pessoal da gráfica, com o maior sorriso,
olhou o que eu trouxe e começou a degustar:
"puxa, olha que bárbaro isso!".
Eu trouxe o relatório básico do
programa funcional, entregue no começo
de 1976, e eles também já começaram
a olhar. Hoje em dia, eu acho que a vida está
na base do funcional o tempo inteiro, tudo se
baseia em "o que eu vou ganhar, como eu
vou ganhar, só quero um bom salário,
não interessa em que eu vá trabalhar".
O ser humano, graças a Deus, não
é assim! Tem que querer alguma coisa
a mais, se mesclar, se lançar, se jogar.
Senão, não adianta, aí
vai para a bolsa de valores, ver títulos,
subiu, desceu, e sai dali com a cabeça
cheia.