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Entrevista com Luiz Telles - maio de 2007 Luiz Benedito Castro Telles, juntamente com seu colega Eurico Prado, foi um dos responsáveis pela arquitetura do Centro Cultural São Paulo. Na entrevista abaixo, ele comenta o contexto históric e os ideais envolvidos na concepção do projeto arquitetônico do CCSP e valoriza o uso deste espaço por seus frequentadores. entrevista: Márcia Dutra
e Paula Bassi Inicialmente, a proposta do Centro Cultural era ser uma extensão da Biblioteca Mário de Andrade. Qual era a intenção do projeto em relação ao planejamento das bibliotecas? Luiz
Telles - O objetivo era colocar o mundo da leitura perto do indivíduo,
do leitor. Quando eu chego a uma biblioteca, posso ter acesso físico pelo
menos aos títulos mais procurados. Eu leio lombada, leio orelha, folheio
o livro. Posso percorrer a cultura inteira pelos setores e descobrir o que quero.
Surge também a idéia da leitura de lazer - eu não leio só
para fazer trabalho de escola, eu leio porque gosto, assim como eu vou ao cinema,
ao teatro. Naquela época, vocês percebiam que o projeto era subversivo? Luiz
Telles - Sim. Não que nós fôssemos subversivos, os outros
que eram retrógrados. O mundo inteiro fazia isso, e não precisava
ser país socialista. A Europa abria as portas para a cultura. Os Estados
Unidos também começavam a despertar. Você pode falar um pouco mais sobre a relação do CCSP com a biblioteca Mário de Andrade? Luiz Telles
- Quando fizemos o concurso para conseguir o projeto, tivemos que fazer uma análise
crítica do espaço da Biblioteca Mário de Andrade - uma sala
de leitura maravilhosa, circular, que tinha vista para a praça Dom José
Gaspar. Provavelmente não deixariam as pessoas saírem, por causa
do controle dos livros, mas, por outro lado, visualmente as pessoas saem, não
é? A gente sai pelo olho. Noemi do Val Penteado foi quem reivindicou à prefeitura o terreno para a construção do Centro Cultural. Você pode falar um pouco mais sobre ela? Luiz Telles - Havia o Projeto Vergueiro, que utilizaria o terreno para construir torres altas de escritório, um teatro grande, um estacionamento. Isto prejudicaria a cidade, por causa da própria infra-estrutura, além do que era uma iniciativa da Prefeitura em benefício do setor privado. O projeto foi combatido, inclusive pelo Instituto de Arquitetos, pelo IAD. Quando o prefeito Olavo Setúbal assumiu, ninguém sabia o que fazer com o terreno. Sabendo disso, a Noemi, que era diretora do Departamento de Bibliotecas Públicas, foi procurar o prefeito para mostrar para ele que a Biblioteca Mário de Andrade precisava ser ampliada, porque ela já estava ficando deteriorada. Havia cerca de 800 mil volumes nos corredores, sem ter onde colocar. Então, ela se colocou tal qual a Lina Bo Bardi fez com a Prefeitura na época para construir o Masp. Ela conseguiu o terreno, que foi doado para o Departamento de Bibliotecas. Foi uma parceira, entendia rapidamente nossas intenções. Uma das pessoas mais inteligentes, lúcidas, carinhosas e humanistas que eu já conheci. Ela tinha um poder muito grande de conciliação e de aglutinação, além de muito carinho pelos funcionários, sabia da vida deles, tentava facilitar nos momentos de dificuldade e conseguia de volta um reconhecimento brutal. Todo mundo trabalhava para valer e sabia que, na dificuldade, podia contar com ela. Como você conheceu o Eurico Prado e começou a trabalhar com ele? Luiz
Telles - Ele começou a namorar uma amiga minha, que estudava na mesma
sala que eu. Ele estava três anos na nossa frente. A gente tinha um grupo
grande de amigos. Qual o espaço de que você mais gosta no Centro Cultural? Luiz Telles - O espaço de que eu mais gosto é a saída do Piso Caio Graco. É o pedaço mais legal, é o coração mesmo. Eu também gosto da subida do metrô porque eu caminho com a cidade, vejo a rua 23 de maio, vejo a Vergueiro, e eu estou em um outro caminho: se eu quiser ir para a 23 eu não posso, mas para a Vergueiro eu poderia, eu poderia fazer caminhos de ida e volta, sem ninguém me impedir. Aí vem a questão da liberdade. O espaço é utilizado da forma como você tinha imaginado? Luiz Telles - É até melhor do que eu esperava. A liberdade está permitida, ninguém faz críticas ou cara feia, isso eu acho bárbaro. Os usos que surpreendem mesmo são aqueles que nem tinham passado pela nossa cabeça. Um dia eu cheguei aqui na biblioteca e observei que um rapaz lia sentado no chão, encostado na parede inclinada perto da saída para a rua 23 de Maio. Essa parede serve para compor a ventilação lá de baixo. Para mim, aquela era a leitura de lazer que tanto queríamos, não interessa se ele estava fazendo trabalho de escola, se ele estava no lazer geral. Por que não? É legal observar as pessoas que vêm namorar, observar, inclusive, o pessoal em situação de rua. A coisa mais importante desse edifício, honestamente, eu não acho que seja o projeto, eu acho que é o uso, o uso é o grande lance desse edifício. Você sempre traz seus estudantes para vir visitar o prédio, não é? Luiz Telles - Sim. Pode parecer uma vaidade, dizem que todo arquiteto é um poço de vaidade, mas eu tento não ser. É muito bom quando as pessoas vêm me procurar e querem vir aqui. Eu estou sempre disposto, venho mesmo. Lá na Mackenzie eu tenho vários CDs do projeto, vivo distribuindo para as pessoas que precisam. É engraçado que, depois de 25 anos, é um espaço ainda procurado como pesquisa. E eu tenho visto que a maioria das pesquisas é no sentido favorável. Você acredita que sonhar aqui dentro do Centro Cultural ainda é preciso? Luiz Telles - Sonhar é preciso sempre, sempre! Eu não consigo viver sem o sonho, sem a utopia. Eu gostaria de chegar mais perto dos funcionários e contar as histórias. Eu acho que aqui o pessoal é altamente receptivo. Todos os funcionários que conheço são pessoas agradabilíssimas, não têm cara feia, todo mundo abana a mão. Olha, há pouco tempo eu estava com dificuldades em encontrar quem montasse um livro das publicações do Centro Cultural que eu queria colocar na exposição. O pessoal da gráfica, com o maior sorriso, olhou o que eu trouxe e começou a degustar: "puxa, olha que bárbaro isso!". Eu trouxe o relatório básico do programa funcional, entregue no começo de 1976, e eles também já começaram a olhar. Hoje em dia, eu acho que a vida está na base do funcional o tempo inteiro, tudo se baseia em "o que eu vou ganhar, como eu vou ganhar, só quero um bom salário, não interessa em que eu vá trabalhar". O ser humano, graças a Deus, não é assim! Tem que querer alguma coisa a mais, se mesclar, se lançar, se jogar. Senão, não adianta, aí vai para a bolsa de valores, ver títulos, subiu, desceu, e sai dali com a cabeça cheia.
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