Praticar
a crítica é uma questão de fazer gestos difíceis se
tornarem fáceis - Michel Foucault
Lévy
define a cultura como "uma retomada do próprio gesto da criação
dos sistemas simbólicos na direção desse espaço em
que todas as correspondências são possíveis" (1).
Aponto
para ideia de Dança Expandida como esse campo de correspondências
possíveis. É a rede de sentidos, que envolve e relaciona a unidade
e o todo, o individual e o coletivo, o privado e o público. Uma teia que
se articula, que cria e recria ações e situações.
Por mais transitório e mutável que pareça, trata-se de uma
estruturação de experimentações, uma contínua
construção de possibilidades.
Dança Expandida
é, sobretudo, um modo de operar, de trabalhar, linkado e ativo. Estabelece-se
um espaço de trocas e experiências, e também um lugar para
conflitos, divergências, contradições, tensões e concorrências
múltiplas. O que favorece e implica uma maior dialogicidade e negociação.
Certeau (2) coloca a cultura como um campo de possibilidades estratégicas,
dentro de um funcionamento social e com implicações políticas.
O eixo curatorial Dança Expandida talvez opere como um produtor de instabilidade,
fluxos, espaços relacionais e de acordos.
A ideia de arte expandida
não é nova, contudo ela é "exponenciada" no século
21 com o advento das novas mídias e tecnologias, e, sobretudo, com a forma
conectiva de agir e pensar principalmente das novas gerações.
Alguns
pontos são comuns para as propostas ao longo do eixo curatorial 2010: as
ações inter-relacionadas, os formatos diferenciados,
as propostas interdisciplinares e os espaços de encontro
ou dialógicos.
A inter-relação se dá a partir
de ações integradas, pontos de convergência de temas, públicos
e práticas, como foi o caso do bate-papo interdisciplinar Criações
específicas no CCSP, em dança e artes visuais, e do lançamento
dos dois projetos, Novos Coreógrafos, Novas Criações (3):
Site Specific e Programa de Exposições, no mesmo dia.
Acontece
também a inter-relação quando ações de um projeto
são deslocadas no tempo, integrando outro projeto, ou dois projetos simultâneos
que se contaminam, borrando as margens onde um acaba e outro começa, criando
combinações e intersecções.
Os formatos
diferenciados são necessários para projetos que trabalham com certa
complexidade de processos, ou seja, projetos que buscam a integração
entre difusão, criação, pesquisa, ensino e reflexão
em dança. E por isso, são desenvolvidos em seus formatos específicos.
As
propostas interdisciplinares, uma das diretrizes do CCSP, estão dentro
dessa concepção porosa de contaminação, de interfaces
e das fronteiras híbridas. Compartilha da ideia de que o conhecimento não
se encontra estancado em gavetas, em blocos, em linguagens independentes. Os projetos
colaborativos entre curadorias, como o Verbo Conjugado (4) ou Zona de
Risco (5), são exemplos de cruzamentos interdisciplinares acontecidos
e em continuidade.
Por fim, acreditamos que os espaços de encontro
com o outro são fundamentais para o exercício da percepção,
da ação e reação e da interação humana.
São espaços para vivenciar, compartilhar e experimentar, como a
proposta do EI! Encontro de Improvisação (6) para coletivos
de dança, música, teatro, circo e outras artes. Nele se dá
o trânsito e fluxo presencial do conhecimento e informação.
Para tanto, cabe aqui apresentar alguns dos programas que funcionam como
desencadeadores desta proposta curatorial.
Dos programas
Semanas
de Dança - Diálogos
Semanas de Dança é
um projeto do CCSP, iniciado nos anos 1990, contínuo, reconhecido pelos
profissionais de dança como a possibilidade de temporadas "mais longas"
de seus trabalhos artísticos, muitas vezes inéditos. Em 2010, essas
temporadas já são normais no cenário da dança, com
dois teatros públicos destinados somente à programação
de dança: a Galeria Olido (Sala Paissandu) e o Teatro da Dança (TD).
Nesta
edição de 2010, o projeto Semanas de Dança - Diálogos
articula as temporadas das companhias com ações coletivas durante
todo o programa. Os espetáculos consecutivos estimulam a convergência
de público e a aproximação entre propostas de experimentação,
formação e difusão.
O projeto propõe uma ocupação
por oito semanas (7), nas salas Jardel Filho, Paulo Emilio Salles Gomes e no Espaço
Cênico Ademar Guerra, contemplando instalações coreográficas,
propostas de dança em zona de troca (com literatura, artes plásticas,
circo e teatro), além de outras formas de apropriação da
dança e do espaço.
O Semanas de Dança - Diálogos
desafia os grupos e artistas a criarem espaços de encontros e a dialogarem
entre si. Seja através de espetáculos conjugados que suscitem em
reflexões e pontos de convergências, seja de uma atividade
criativa mútua. Estabelece assim um ambiente propício para que "textos
de dança" em intersecções criem outros "textos
de dança".
Como diz a pesquisadora de dança Beatriz
Cerbino (8): "Na concepção de Harvey, enquanto os modernistas
pressupunham uma relação rígida e identificável entre
o que era dito (significado) e o modo como estava sendo dito (significante), o
pensamento pós-estruturalista os vê separando-se, reunindo-se continuamente
em novas combinações" (Harvey, 1989: 53). Operamos hoje num
mundo digital, de fragmentos, edições, cortes e reorganizações
de conteúdos, compondo e recompondo nosso imaginário.
Dentro
dessa perspectiva de combinações, Solos, Duos e Trios apresenta-se
este ano "fundido" no Semanas de Dança - Diálogos.
O propósito é estimular projetos de menor porte, de artistas independentes
e de núcleos artísticos, de forma integrada com a programação
de dança do CCSP, e integral, ou seja, um núcleo por temporada.
Possibilitando uma melhor infraestrutura, e incentivando que espetáculos
menores explorem suas demandas artísticas, "conversem" entre
e si e com os demais.
Dessa forma, binômios ou trinômios, como
Semanas de Dança/ Zona de Risco/ Solos, Duos e trios, são
formas de comunicar que os projetos estão ligados, relacionados, um faz
parte e está inserido no outro. Um não acaba quando o outro começa,
eles estão juntos naquele momento.
Batkin (9) mostra que, ao percebermos
o outro, expandimos e modificamos a percepção da nossa identidade,
"alcançar o outro no universo da cultura é expandir nossa vivência
para além dos limites estabelecidos por nossa individualidade, acrescentando
a ela a visão e a experiência alheias, de um ponto de vista novo,
de outro modo inatingível" (10).
Projeto Interdisciplinar
Entre todas as coisas
O projeto teve seu piloto (11) em novembro
passado, com o espetáculo Como risco em Papel e seus desdobramentos.
Ele solidifica uma linha de pensamento na curadoria de interdisciplinaridade,
de espaços de encontros e formatos diferenciados. Reforça a ideia
de continuidade.
Seguindo a mesma citação do fôlder
impresso "o significado da arte pós-moderna é abrir amplamente
o portão às artes do significado", complemento com o mesmo
autor "a arte pós-moderna traz para o espaço aberto o perene
inacabamento dos significados e, assim, a essencial enexauribilidade do reino
possível" (12).
O projeto Entre todas as coisas, no
Espaço Cênico Ademar Guerra, contempla espetáculos de dança
que possuem na sua concepção uma veia interdisciplinar, coreografias
realizadas, mas inacabadas. Propõe como desafio para seu criador, seu alargamento,
experimento, por meio da interdisciplinaridade. Instiga um questionamento sobre
a construção das relações de tempo/espaço do
receptor e possibilita explorar o uso da tecnologia e a intersecção
de suportes.
Garcia Canclini lembra que "só através
da reconquista criativa dos espaços públicos, do interesse pelo
público, o consumo poderá ser um lugar de valor cognitivo, útil
para pensar e agir significativa e renovadoramente na vida social" (13).
Ou seja, um espaço de sedimentação cultural e vínculos
entre sujeitos.
Novos Coreógrafos - Novas Criações:
Site Specific (NC-NC:SS 2010)
O projeto surge com as novas propostas
de eixos curatoriais do Centro Cultural, que valorizam uma relação
mais próxima e coerente com a arquitetura e a história da instituição.
Por edital, são escolhidas criações coreográficas
para serem concebidas exclusivamente para os espaços do CCSP.
O
projeto proporciona a sensibilização de público do CCSP (14)
em relação à dança, mas mobiliza também, no
seu cotidiano de ensaios, um grande número de funcionários que antes
não tinham contato com a programação de dança, como
arquitetos, técnicos, seguranças, bibliotecários, montadores
de exposições, ou seja, atinge e modifica as relações
de trabalho dentro do CCSP.
Para a segunda edição (15),
haverá uma seleção presencial como forma de melhorar a mediação
e aproximação com o jovem artista, assim como discussões
mais frequentes sobre criações específicas para o CCSP.
Gosto
da definição de Martin-Barbeiro. A mediação, seja
no espaço público seja em outros espaços, implica em "dar
prioridade ao trabalho de ativação, nas pessoas e nos grupos, de
sua capacidade de narrar/construir sua identidade, pois a relação
da narração com a identidade não é meramente expressiva,
mas constitutiva" (16). O projeto NC-NC:SS, mais do que um fomento
de trabalhos coreográficos, é uma proposta de construção,
constitutivo, que envolve seus participantes, os funcionários e o público
do CCSP.
Do Eixo Curatorial
O
Eixo Curatorial é a base e o norteador de propostas, estabelecendo
formas de trabalhar. Assim, entrecortam o eixo projetos de menor e maior porte
em diferentes fases de desenvolvimento por esta curadoria.
No campo da
pesquisa e documentação, propomos a digitalização
do acervo de dança, pertencente ao Arquivo Multimeios do CCSP, que
é um dos mais significantes acervos de dança do Brasil pela diversidade
e variada documentação. A iniciativa visa a colaborar na preservação
de seus originais e facilitar as pesquisas e publicações na área
de dança.
Até a década de 90, existia a equipe do
IDART (Departamento de Informação e Documentação
Artística) responsável pelo registro dos espetáculos (17)
que aconteciam na cidade para o acervo do CCSP. O acervo de dança conta
hoje com mais de 30 mil documentos em vários suportes, a grande maioria
sem digitalização, dificultando seu acesso.
Na área
educacional, além das parcerias propostas para a DACE
e do EI! Encontro de Improvisação, haverá a integração
dos editais de oficinas de dança com o edital da DACE, fortalecendo
e colaborando no desenvolvimento de atividades de práticas corporais dentro
do CCSP.
Ainda em desenvolvimento, o Núcleo de Mediação
em dança é uma proposta para discutir questões sobre mediação
em dança e formação de público na contemporaneidade.
O grupo de trabalho tem o objetivo de desenvolver trabalhos colaborativos, a partir
de uma metodologia vertical nas relações orientador, público
e espaços, criando diálogos entre os projetos de dança.
Hoje
em dia, os museus investem na mediação como forma de estabelecer
um espaço dialógico do seu público e a arte contemporânea.
Em dança, a discussão ainda paira em questões acerca da divulgação,
espaço na mídia, comunicação e produção.
Propomos assim discutir e elaborar dinâmicas práticas de mediação
entre público e dança contemporânea.
Das
considerações finais
Como
disse Antonio Espinhosa Ruiz (18) em sua participação no Seminário
Internacional sobre Cultura e Acessibilidade do CCSP, o êxito de um
museu, no caso, não se mede pelo número de entradas, e sim pelo
número de pessoas que aprendem algo, não é pelo número
de objetos, e sim pelos objetos percebidos, não é pelo seu grandioso
espaço, e sim pelo espaço percorrido.
Dança Expandida
não é um projeto diretamente ligado à ampliação
ou à formação de plateia, mas instiga possivelmente um envolvimento
maior do artista, do público e dos gestores, no sentido de que "aquilo"
(espetáculo, performance, aula ou qualquer outro evento) não termina
ali. Sugere que outros caminhos sejam percorridos.
Ao ocupar espaços
transitórios e mutantes, cria-se, de uma forma ou de outra, eventos, ações
ou situações únicas e efêmeras, mas não necessariamente
acabadas. Por se colocar num lugar de colaboração, preocupa-se com
a conectividade e a integração dos esforços, individuais
e coletivos, para a realização de propostas artísticas.
Dança
Expandida é uma proposta que articula difusão, criação,
pesquisa, ensino e reflexão em dança. Questiona sua condição,
aqui e agora, provocando outros estados de dança e correspondências
possíveis.
Mário de Andrade entendia a ideia de cultura e
de patrimônio de forma mais abrangente (para a época), que incluía
manifestações tanto eruditas quanto populares. Talvez Dança
Expandida, deslocada no tempo e espaço, dialogue com as ideias modernistas
de Mário de Andrade "cultura larga, de boca larga, capaz de engolir
o mundo inteiro".
*Alexandra
Itacarambi foi curadora de dança do CCSP de junho de 2009 a dezembro de
2010.
(1) LÉVY,
Pierre. A internet e a crise do sentido. in PELLANDA, Nize Maria e PELLANDA, Eduardo
Campos (org.) Ciberespaço: um hipertexto com Pierre Lévy. Porto
Alegre: Artes e Ofícios, 2000, p.29
(2)
CERTEAU, Michel de. A cultura no plural. p. 214
(3)
Novos Coreógrafos - Novas Criações: Site Specific
fomenta trabalhos de jovens coreógrafos. Teve sua estreia nos dias 14 e
15 de novembro de 2009, em espaços expositivos do CCSP.
(4)
Seminário sobre performance ligado a Verbo em parceria com a Galeria Vermelho.
(5)
Projeto concebido para o Espaço Cênico Ademar Guerra como um laboratório
experimental de criação e apresentação que pretende
promover o intercâmbio entre diferentes artistas e estimular a inovação
nas linguagens artísticas.
(6) EI! Encontro
de Improvisação - Coletivos é um projeto interdisciplinar
do CCSP que estimula artistas a compartilharem suas ferramentas de improvisação.
(7)
Semanas de Dança - Diálogos, de 28 de abril a 20 de junho de 2010.
A programação completa inclui ações, workshops e debates.
Acompanhe no site do CCSP
(8) CERBINO, Beatriz. Uma
cela pós-moderna. Lições de dança.
(9)
BATKIN APUD COSTA, Maria Cristina Castilho. Ficção, comunicação
e mídias. São Paulo: SENAC, 2002
(10)
COSTA, Maria Cristina Castilho. Ficção, comunicação
e mídias. São Paulo: SENAC, 2002, p. 11
(11)
A ideia de Dança Expandida cresceu e virou eixo curatorial de 2010.
(12)
BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Jorge Zahar Ed.,1998.
(14)
NC-NC:SS 2009 teve um público passante de aproximadamente 1.800 pessoas
em um fim de semana.
(15) O edital NC-NC:SS 2010 será
publicado no primeiro semestre. As informações e ficha de inscrição
são inseridas no site do CCSP/ Edital.
(16)
RICOEUR, P. APUD MARTÍN-BARBERO, Jesus. Globalização comunicacional...op.cit.
p. 69
(17) Acervo de Dança do CCSP inclui mais
de 30 mil documentos acerca de espetáculos representativos da cena independente
paulista, assim como projetos e iniciativas de outros equipamentos culturais.
(18) Anotações do Seminário
Internacional sobre Cultura e Acessibilidade do CCSP no dia 26/11/2009
Referências
BAUMAN,
Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Jorge Zahar Ed.,1998.
CERBINO,
Beatriz. Uma cela pós-moderna. Lições de dança.
CERTEAU,
Michel de. A cultura no plural. Papirus,1995
COSTA,
Maria Cristina Castilho. Ficção, comunicação e
mídias.São Paulo: SENAC, 2002.
GARCÌA
CANCLINI, Nestor. Consumidores e cidadãos. Rio.Ed. UFRJ, 1995.
__________________________.
Prefácio à 5a edição castelhana. In: MARTÍN-
BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações. Rio:Ed. UFRJ,
2001
HARVEY, David. Condição Pós-moderna.
São Paulo:Loyola, 1993.
IANNI, Octavio. Príncipe
Eletrônico. In: BACCEGA, Maria Aparecida (org) Gestão de Processos
Comunicacionais. São Paulo: Atlas, 2002
LÉVY,
Pierre. A Emergência do Cyberspace e as mutações culturais.
in PELLANDA, Nize Maria e PELLANDA, Eduardo Campos (org.) Ciberespaço:
um hipertexto com Pierre Lévy. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000
_____________. A internet e a crise do sentido.
in PELLANDA, Nize Maria e PELLANDA, Eduardo Campos (org.) Ciberespaço:
um hipertexto com Pierre Lévy. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000.
MARTÍN-BARBERO,
Jesús. Dos Meios às Mediações. Rio:Ed. UFRJ,
2001, 2a ed. Prefácio: Pistas para entre-ver meios e mediações
________________________.
Globalização comunicacional e transformação cultural.
In:Denis de MORAES (Org.) Por uma outra comunicação. Rio: Record,
2003.