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Curadoria de Dança

Saiba mais sobre as curadoras de dança do CCSP

Dança Expandida
por Alexandra Itacarambi

Praticar a crítica é uma questão de fazer gestos difíceis se tornarem fáceis - Michel Foucault

Lévy define a cultura como "uma retomada do próprio gesto da criação dos sistemas simbólicos na direção desse espaço em que todas as correspondências são possíveis" (1).

Aponto para ideia de Dança Expandida como esse campo de correspondências possíveis. É a rede de sentidos, que envolve e relaciona a unidade e o todo, o individual e o coletivo, o privado e o público. Uma teia que se articula, que cria e recria ações e situações. Por mais transitório e mutável que pareça, trata-se de uma estruturação de experimentações, uma contínua construção de possibilidades.

Dança Expandida é, sobretudo, um modo de operar, de trabalhar, linkado e ativo. Estabelece-se um espaço de trocas e experiências, e também um lugar para conflitos, divergências, contradições, tensões e concorrências múltiplas. O que favorece e implica uma maior dialogicidade e negociação. Certeau (2) coloca a cultura como um campo de possibilidades estratégicas, dentro de um funcionamento social e com implicações políticas. O eixo curatorial Dança Expandida talvez opere como um produtor de instabilidade, fluxos, espaços relacionais e de acordos.

A ideia de arte expandida não é nova, contudo ela é "exponenciada" no século 21 com o advento das novas mídias e tecnologias, e, sobretudo, com a forma conectiva de agir e pensar principalmente das novas gerações.

Alguns pontos são comuns para as propostas ao longo do eixo curatorial 2010: as ações inter-relacionadas, os formatos diferenciados, as propostas interdisciplinares e os espaços de encontro ou dialógicos.

A inter-relação se dá a partir de ações integradas, pontos de convergência de temas, públicos e práticas, como foi o caso do bate-papo interdisciplinar Criações específicas no CCSP, em dança e artes visuais, e do lançamento dos dois projetos, Novos Coreógrafos, Novas Criações (3): Site Specific e Programa de Exposições, no mesmo dia.

Acontece também a inter-relação quando ações de um projeto são deslocadas no tempo, integrando outro projeto, ou dois projetos simultâneos que se contaminam, borrando as margens onde um acaba e outro começa, criando combinações e intersecções.

Os formatos diferenciados são necessários para projetos que trabalham com certa complexidade de processos, ou seja, projetos que buscam a integração entre difusão, criação, pesquisa, ensino e reflexão em dança. E por isso, são desenvolvidos em seus formatos específicos.

As propostas interdisciplinares, uma das diretrizes do CCSP, estão dentro dessa concepção porosa de contaminação, de interfaces e das fronteiras híbridas. Compartilha da ideia de que o conhecimento não se encontra estancado em gavetas, em blocos, em linguagens independentes. Os projetos colaborativos entre curadorias, como o Verbo Conjugado (4) ou Zona de Risco (5), são exemplos de cruzamentos interdisciplinares acontecidos e em continuidade.

Por fim, acreditamos que os espaços de encontro com o outro são fundamentais para o exercício da percepção, da ação e reação e da interação humana. São espaços para vivenciar, compartilhar e experimentar, como a proposta do EI! Encontro de Improvisação (6) para coletivos de dança, música, teatro, circo e outras artes. Nele se dá o trânsito e fluxo presencial do conhecimento e informação.

Para tanto, cabe aqui apresentar alguns dos programas que funcionam como desencadeadores desta proposta curatorial.

Dos programas

Semanas de Dança - Diálogos

Semanas de Dança é um projeto do CCSP, iniciado nos anos 1990, contínuo, reconhecido pelos profissionais de dança como a possibilidade de temporadas "mais longas" de seus trabalhos artísticos, muitas vezes inéditos. Em 2010, essas temporadas já são normais no cenário da dança, com dois teatros públicos destinados somente à programação de dança: a Galeria Olido (Sala Paissandu) e o Teatro da Dança (TD).

Nesta edição de 2010, o projeto Semanas de Dança - Diálogos articula as temporadas das companhias com ações coletivas durante todo o programa. Os espetáculos consecutivos estimulam a convergência de público e a aproximação entre propostas de experimentação, formação e difusão.

O projeto propõe uma ocupação por oito semanas (7), nas salas Jardel Filho, Paulo Emilio Salles Gomes e no Espaço Cênico Ademar Guerra, contemplando instalações coreográficas, propostas de dança em zona de troca (com literatura, artes plásticas, circo e teatro), além de outras formas de apropriação da dança e do espaço.

O Semanas de Dança - Diálogos desafia os grupos e artistas a criarem espaços de encontros e a dialogarem entre si. Seja através de espetáculos conjugados que suscitem em reflexões e pontos de convergências, seja de uma atividade criativa mútua. Estabelece assim um ambiente propício para que "textos de dança" em intersecções criem outros "textos de dança".

Como diz a pesquisadora de dança Beatriz Cerbino (8): "Na concepção de Harvey, enquanto os modernistas pressupunham uma relação rígida e identificável entre o que era dito (significado) e o modo como estava sendo dito (significante), o pensamento pós-estruturalista os vê separando-se, reunindo-se continuamente em novas combinações" (Harvey, 1989: 53). Operamos hoje num mundo digital, de fragmentos, edições, cortes e reorganizações de conteúdos, compondo e recompondo nosso imaginário.

Dentro dessa perspectiva de combinações, Solos, Duos e Trios apresenta-se este ano "fundido" no Semanas de Dança - Diálogos. O propósito é estimular projetos de menor porte, de artistas independentes e de núcleos artísticos, de forma integrada com a programação de dança do CCSP, e integral, ou seja, um núcleo por temporada. Possibilitando uma melhor infraestrutura, e incentivando que espetáculos menores explorem suas demandas artísticas, "conversem" entre e si e com os demais.

Dessa forma, binômios ou trinômios, como Semanas de Dança/ Zona de Risco/ Solos, Duos e trios, são formas de comunicar que os projetos estão ligados, relacionados, um faz parte e está inserido no outro. Um não acaba quando o outro começa, eles estão juntos naquele momento.

Batkin (9) mostra que, ao percebermos o outro, expandimos e modificamos a percepção da nossa identidade, "alcançar o outro no universo da cultura é expandir nossa vivência para além dos limites estabelecidos por nossa individualidade, acrescentando a ela a visão e a experiência alheias, de um ponto de vista novo, de outro modo inatingível" (10).


Projeto Interdisciplinar Entre todas as coisas

O projeto teve seu piloto (11) em novembro passado, com o espetáculo Como risco em Papel e seus desdobramentos. Ele solidifica uma linha de pensamento na curadoria de interdisciplinaridade, de espaços de encontros e formatos diferenciados. Reforça a ideia de continuidade.

Seguindo a mesma citação do fôlder impresso "o significado da arte pós-moderna é abrir amplamente o portão às artes do significado", complemento com o mesmo autor "a arte pós-moderna traz para o espaço aberto o perene inacabamento dos significados e, assim, a essencial enexauribilidade do reino possível" (12).

O projeto Entre todas as coisas, no Espaço Cênico Ademar Guerra, contempla espetáculos de dança que possuem na sua concepção uma veia interdisciplinar, coreografias realizadas, mas inacabadas. Propõe como desafio para seu criador, seu alargamento, experimento, por meio da interdisciplinaridade. Instiga um questionamento sobre a construção das relações de tempo/espaço do receptor e possibilita explorar o uso da tecnologia e a intersecção de suportes.

Garcia Canclini lembra que "só através da reconquista criativa dos espaços públicos, do interesse pelo público, o consumo poderá ser um lugar de valor cognitivo, útil para pensar e agir significativa e renovadoramente na vida social" (13). Ou seja, um espaço de sedimentação cultural e vínculos entre sujeitos.


Novos Coreógrafos - Novas Criações: Site Specific (NC-NC:SS 2010)

O projeto surge com as novas propostas de eixos curatoriais do Centro Cultural, que valorizam uma relação mais próxima e coerente com a arquitetura e a história da instituição. Por edital, são escolhidas criações coreográficas para serem concebidas exclusivamente para os espaços do CCSP.

O projeto proporciona a sensibilização de público do CCSP (14) em relação à dança, mas mobiliza também, no seu cotidiano de ensaios, um grande número de funcionários que antes não tinham contato com a programação de dança, como arquitetos, técnicos, seguranças, bibliotecários, montadores de exposições, ou seja, atinge e modifica as relações de trabalho dentro do CCSP.

Para a segunda edição (15), haverá uma seleção presencial como forma de melhorar a mediação e aproximação com o jovem artista, assim como discussões mais frequentes sobre criações específicas para o CCSP.

Gosto da definição de Martin-Barbeiro. A mediação, seja no espaço público seja em outros espaços, implica em "dar prioridade ao trabalho de ativação, nas pessoas e nos grupos, de sua capacidade de narrar/construir sua identidade, pois a relação da narração com a identidade não é meramente expressiva, mas constitutiva" (16). O projeto NC-NC:SS, mais do que um fomento de trabalhos coreográficos, é uma proposta de construção, constitutivo, que envolve seus participantes, os funcionários e o público do CCSP.

Do Eixo Curatorial

O Eixo Curatorial é a base e o norteador de propostas, estabelecendo formas de trabalhar. Assim, entrecortam o eixo projetos de menor e maior porte em diferentes fases de desenvolvimento por esta curadoria.

No campo da pesquisa e documentação, propomos a digitalização do acervo de dança, pertencente ao Arquivo Multimeios do CCSP, que é um dos mais significantes acervos de dança do Brasil pela diversidade e variada documentação. A iniciativa visa a colaborar na preservação de seus originais e facilitar as pesquisas e publicações na área de dança.

Até a década de 90, existia a equipe do IDART (Departamento de Informação e Documentação Artística) responsável pelo registro dos espetáculos (17) que aconteciam na cidade para o acervo do CCSP. O acervo de dança conta hoje com mais de 30 mil documentos em vários suportes, a grande maioria sem digitalização, dificultando seu acesso.

Na área educacional, além das parcerias propostas para a
DACE e do EI! Encontro de Improvisação, haverá a integração dos editais de oficinas de dança com o edital da DACE, fortalecendo e colaborando no desenvolvimento de atividades de práticas corporais dentro do CCSP.

Ainda em desenvolvimento, o Núcleo de Mediação em dança é uma proposta para discutir questões sobre mediação em dança e formação de público na contemporaneidade. O grupo de trabalho tem o objetivo de desenvolver trabalhos colaborativos, a partir de uma metodologia vertical nas relações orientador, público e espaços, criando diálogos entre os projetos de dança.

Hoje em dia, os museus investem na mediação como forma de estabelecer um espaço dialógico do seu público e a arte contemporânea. Em dança, a discussão ainda paira em questões acerca da divulgação, espaço na mídia, comunicação e produção. Propomos assim discutir e elaborar dinâmicas práticas de mediação entre público e dança contemporânea.


Das considerações finais

Como disse Antonio Espinhosa Ruiz (18) em sua participação no Seminário Internacional sobre Cultura e Acessibilidade do CCSP, o êxito de um museu, no caso, não se mede pelo número de entradas, e sim pelo número de pessoas que aprendem algo, não é pelo número de objetos, e sim pelos objetos percebidos, não é pelo seu grandioso espaço, e sim pelo espaço percorrido.

Dança Expandida não é um projeto diretamente ligado à ampliação ou à formação de plateia, mas instiga possivelmente um envolvimento maior do artista, do público e dos gestores, no sentido de que "aquilo" (espetáculo, performance, aula ou qualquer outro evento) não termina ali. Sugere que outros caminhos sejam percorridos.

Ao ocupar espaços transitórios e mutantes, cria-se, de uma forma ou de outra, eventos, ações ou situações únicas e efêmeras, mas não necessariamente acabadas. Por se colocar num lugar de colaboração, preocupa-se com a conectividade e a integração dos esforços, individuais e coletivos, para a realização de propostas artísticas.

Dança Expandida é uma proposta que articula difusão, criação, pesquisa, ensino e reflexão em dança. Questiona sua condição, aqui e agora, provocando outros estados de dança e correspondências possíveis.

Mário de Andrade entendia a ideia de cultura e de patrimônio de forma mais abrangente (para a época), que incluía manifestações tanto eruditas quanto populares. Talvez Dança Expandida, deslocada no tempo e espaço, dialogue com as ideias modernistas de Mário de Andrade "cultura larga, de boca larga, capaz de engolir o mundo inteiro".


*Alexandra Itacarambi foi curadora de dança do CCSP de junho de 2009 a dezembro de 2010.

 

(1) LÉVY, Pierre. A internet e a crise do sentido. in PELLANDA, Nize Maria e PELLANDA, Eduardo Campos (org.) Ciberespaço: um hipertexto com Pierre Lévy. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000, p.29

(2) CERTEAU, Michel de. A cultura no plural. p. 214

(3) Novos Coreógrafos - Novas Criações: Site Specific fomenta trabalhos de jovens coreógrafos. Teve sua estreia nos dias 14 e 15 de novembro de 2009, em espaços expositivos do CCSP.

(4) Seminário sobre performance ligado a Verbo em parceria com a Galeria Vermelho.

(5) Projeto concebido para o Espaço Cênico Ademar Guerra como um laboratório experimental de criação e apresentação que pretende promover o intercâmbio entre diferentes artistas e estimular a inovação nas linguagens artísticas.

(6) EI! Encontro de Improvisação - Coletivos é um projeto interdisciplinar do CCSP que estimula artistas a compartilharem suas ferramentas de improvisação.

(7) Semanas de Dança - Diálogos, de 28 de abril a 20 de junho de 2010. A programação completa inclui ações, workshops e debates. Acompanhe no site do CCSP

(8) CERBINO, Beatriz. Uma cela pós-moderna. Lições de dança.

(9) BATKIN APUD COSTA, Maria Cristina Castilho. Ficção, comunicação e mídias. São Paulo: SENAC, 2002

(10) COSTA, Maria Cristina Castilho. Ficção, comunicação e mídias. São Paulo: SENAC, 2002, p. 11

(11) A ideia de Dança Expandida cresceu e virou eixo curatorial de 2010.

(12) BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Jorge Zahar Ed.,1998.

(13) GARCIA CANCLINI, Nestor. Consumidores e cidadãos. Rio.Ed. UFRJ, 1995, p.68

(14) NC-NC:SS 2009 teve um público passante de aproximadamente 1.800 pessoas em um fim de semana.

(15) O edital NC-NC:SS 2010 será publicado no primeiro semestre. As informações e ficha de inscrição são inseridas no site do CCSP/ Edital.

(16) RICOEUR, P. APUD MARTÍN-BARBERO, Jesus. Globalização comunicacional...op.cit. p. 69

(17) Acervo de Dança do CCSP inclui mais de 30 mil documentos acerca de espetáculos representativos da cena independente paulista, assim como projetos e iniciativas de outros equipamentos culturais.

(18) Anotações do Seminário Internacional sobre Cultura e Acessibilidade do CCSP no dia 26/11/2009

 

Referências

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Jorge Zahar Ed.,1998.

CERBINO, Beatriz. Uma cela pós-moderna. Lições de dança.

CERTEAU, Michel de. A cultura no plural. Papirus,1995

COSTA, Maria Cristina Castilho. Ficção, comunicação e mídias.São Paulo: SENAC, 2002.

GARCÌA CANCLINI, Nestor. Consumidores e cidadãos. Rio.Ed. UFRJ, 1995.

__________________________. Prefácio à 5a edição castelhana. In: MARTÍN- BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações. Rio:Ed. UFRJ, 2001

HARVEY, David. Condição Pós-moderna. São Paulo:Loyola, 1993.

IANNI, Octavio. Príncipe Eletrônico. In: BACCEGA, Maria Aparecida (org) Gestão de Processos Comunicacionais. São Paulo: Atlas, 2002

LÉVY, Pierre. A Emergência do Cyberspace e as mutações culturais. in PELLANDA, Nize Maria e PELLANDA, Eduardo Campos (org.) Ciberespaço: um hipertexto com Pierre Lévy. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000

_____________. A internet e a crise do sentido. in PELLANDA, Nize Maria e PELLANDA, Eduardo Campos (org.) Ciberespaço: um hipertexto com Pierre Lévy. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000.

MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos Meios às Mediações. Rio:Ed. UFRJ, 2001, 2a ed. Prefácio: Pistas para entre-ver meios e mediações

________________________. Globalização comunicacional e transformação cultural. In:Denis de MORAES (Org.) Por uma outra comunicação. Rio: Record, 2003.

 

Veja página com todos os eixos curatoriais 2010/2011

 

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