No
dia 10/11/2007, o guitarrista se apresentou no CCSP
e fez parte das comemorações dos 25 anos da
instituição. Confira, abaixo, galeria de fotos
do show e entrevista com o artista.
Nuno Mindelis
Um
dos mais aclamados guitarristas de blues pela crítica
e pelo público. Em 2005, o músico resolveu
se arriscar e lançou o álbum Outros Nunos,
que traz influências de diferentes estilos. Na entrevista
abaixo, ele faz um panorama de sua carreira, fala sobre
a recente guinada em direção a novos rumos
e sobre a sua experiência com o Centro Cultural São
Paulo.
entrevista:Flávia Ragazzo edição:Flávia Ragazzo
e Paula Bassi
Nuno Mindelis - Há
um grande equívoco em considerar que eu sou um bluesman.
Se eu quiser fazer um disco de blues tradicional, farei
isso como se tivesse nascido no Mississipi. Mas seria estranho,
fica um negócio dublado e sem sentido artístico.
Eu faço blues, blues rock, country, soul e jazz,
tudo num bolo só, que é a minha herança,
meu DNA musical. Essa propensão natural para o blues
- pela influência que ele exerce sobre mim e pela
minha habilidade - fez com que eu fosse considerado "o
cara do blues". Mas no meu íntimo eu sempre
fui um blues rocker, porque não concebo rock sem
blues, soul ou jazz. Esses elementos são todos a
mesma coisa.
Em seu último trabalho, essa diversidade está
ainda mais acentuada, não?
Nuno Mindelis - Esse
álbum se chama Outros Nunos exatamente por
isso, foi uma necessidade psicológica mesmo. Porque
é assim: os meus heróis são os negros
americanos do blues, mas eles não viveram no mesmo
contexto em que eu vivi. Eu era uma criança em um
país colonial [Nuno nasceu em Angola na década
de 1950], com uma instrução baseada no liceu
europeu, e ouvia um monte de coisas, incluindo música
clássica. Os meus heróis eram negros, geralmente
pobres, trabalhavam em plantações de algodão,
não tinham o mesmo acesso a uma informação
musical mais vasta, eram embrutecidos naquilo que estavam
fazendo. É uma raiz completamente diferente. Ora,
isso causa problemas de coerência interna. Eu sentia
necessidade de extravasar toda essa carga de informação
diversa que eu tinha. Eu poderia continuar a fazer discos
de blues, mas cheguei à conclusão de que não
me sentia muito bem, sinto-me um pouco dublador. Faz sentido
você fazer um disco de blues em inglês pra vender
no mercado externo, ou para se apresentar em festivais.
Mas não faz sentido no Brasil, o país onde
eu moro.
E por que só agora a mudança de rumos?
Nuno Mindelis - Na verdade
isso já é antigo. Sempre experimentei em outras
direções, algumas coisas registrei, mas nunca
as editei. Só amadureci para essa questão
tardiamente, embora já a exercitasse antes. Estava
tudo certo, todo mundo curtia os discos de blues que eu
fazia, você se deixa levar por isso. Mudar é
um processo difícil, é uma espécie
de um parto. Mas gerei esse Frankenstein que eu gosto e
é um dos discos mais parecidos comigo.
O que é mais gratificante, o reconhecimento do
público ou da crítica?
Nuno Mindelis - A melhor
coisa que há nessa vida de instrumentista é
o calor da platéia. O público de blues tem
essa característica de fidelidade e idolatria, o
que faz com que raramente se sinta falta de alguma receptividade
mais exultante por parte da platéia. Eu coloco o
público acima de qualquer coisa porque só
o fato de a pessoa sair de casa e se deslocar para um local
onde eu vou tocar merece da minha parte toda retribuição,
carinho e amizade. Eu sou realmente muitíssimo grato
a esse pessoal que vai aos meus shows. Mas eu não
posso dizer que sou indiferente em relação
à crítica, o fato de ter sido reconhecido
foi um grande empurrão. Uma crítica boa é
um negócio que te ajuda, mesmo se for desfavorável
é uma coisa muito importante.
De que maneira o Centro Cultural São Paulo faz
parte da sua história?
Nuno Mindelis - Essa
é uma história antiga, uma história
simpática. Nos anos 1990 eu fui convidado com muita
honra e orgulho para me apresentar no Centro Cultural, e
depois disso meus shows são basicamente anuais. Eu
acho o espaço um dos mais indicados para o tipo de
coisa que eu faço, porque tem aquela característica
de teatro informal. Ao longo desses tempos houve platéias
infernais ali, eu me lembro de haver todos os credos, religiões,
sexos e idades num show só. É uma honra fazer
parte das comemorações de 25 anos do CCSP,
um orgulho enorme. Sinceramente, fico felicíssimo.