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   cinema - programação de julho de 2008


Caipiridade


Pois oiça que lhe digo.
Naqueles tempo não era como hoje não.
Naqueles tempo, acuntecia muitas coisa...

(Nhô Quim em A Marvada Carne)


Em 1914, Monteiro Lobato escreveu para a seção de queixas do jornal O Estado de São Paulo uma carta intitulada Velha Praga para reclamar dos agregados rurais do Vale do Paraíba que colocavam fogo no mato, comprometendo a fertilidade da terra. Num tom de grande irritação, o escritor dizia que este sujeito, o caboclo, era como um piolho da terra, destruidor da natureza, e incapaz de adaptar-se ao progresso. Preguiçoso, vivia de cócoras e não tinha nenhuma noção do trabalho racional, extraindo da natureza o que esta podia oferecer segundo a lei do menor esforço: a mandioca, o palmito, as poucas coisas que podia colher no mato e levar à feira para trocar por pólvora e sal. E, tomando partido do progresso, Lobato dizia que esse Jeca Tatu, esse fungo de pau podre, era o responsável pelo atraso do país.

Esse texto teve enorme repercussão e o Jeca Tatu passou a ser o sinônimo do homem pobre rural brasileiro. Mas, já em 1918, Lobato reveria sua posição, se arrependeria desse juízo e reabilitaria o Jeca, dizendo que ele era improdutivo, incapaz de mover-se não por preguiça crônica, mas por causa do impaludismo. Doente, o caboclo seria um homem em "estado latente". Curado, seria um braço forte como aquele qualquer imigrante europeu. Mas aí, para falar matutamente, o estrago já tava feito. A idéia de que o caboclo era um doente não eliminaria a imagem de acocorado, preguiçoso e atrasado.

Quarenta anos mais tarde, o sociólogo Antonio Candido escrevia que o Jeca Tatu era uma caricatura injusta, porém brilhante, do homem pobre rural que tinha conseguido um equilíbrio entre a natureza e a sociabilidade e disso fazia a sua razão de ser: esse homem era o caipira. Esse mesmo equilíbrio explicava o atraso já comentado por um viajante, Saint Hilaire, que estivera no Brasil entre 1816 e 1822 e que tinha motivado o escritor do Sítio do Picapau Amarelo a fazer a carta que daria origem a uma das personagens literárias mais conhecidas de norte a sul do país e que seria encarnado com o mesmo sucesso no cinema por Amácio Mazzaropi.
Mas, visto com reserva pelo citadino e considerado um "bicho do mato", quem é o caipira e por que ele chama a nossa atenção atualmente a ponto de termos mostras, congressos, filmes e peças de teatro que tematizam a vida desse homem rural, herdeiro da miscigenação entre o português, o negro e o índio? E de onde vem esse nosso interesse?

Antes de tudo do fato que o mundo pobre rural nos deixou um legado cultural que, associado ao modo de vida integrado à natureza, parece-nos em vias de desaparecimento. E como todo povo precisa de uma tradição, São Paulo, parte de Minas e Paraná, já sem "medo" do caipirismo e ciente do progresso tanto no que tem de bom como no que tem de ruim, reabilita esse ancestral matuto antes que perca os traços de sua própria origem. E também porque, ao contrário do que dizia Monteiro Lobato, o caipira tem culinária própria, tem seu estilo musical, suas festas, seu dialeto e sua cosmogonia, um jeito de ver e interpretar o mundo que deriva da sua própria e íntima relação com a natureza - natureza que não deve nem pode ser profanada porque dentro dela vivem os mitos e os deuses ancestrais. Herança longínqua do pensamento indígena: do mato vem a vida, a cura dos males, os elementos básicos da sobrevivência como a casa, parte dos instrumentos de trabalho e também as regras do respeito pelo desconhecido transmitido de geração para geração através dos relatos orais chamados de causos. Profanar a natureza e suas regras é forçar o encontro com a "parentaia do satanás", como diria Nhô Quim, de A marvada carne, depois de um encontro com o curupira. Dum causo como esse resulta que não se anda sozinho de noite, o mato é cheio de surpresas e uma companhia, a diferença entre a vida e a morte. E cachorro não late para assombração, explicam os mais velhos. Verdade ou não, a lição fica garantida e salva a vida do caçador em caso de incidentes. Portanto, o causo é a pedagogia caipira, a transmissão de conhecimento que, como explicava o filósofo alemão Walter Benjamim, só sobrevive em culturas não escritas já que é parte da vida artesanal, onde as pessoas têm tempo de ouvir longa e coletivamente o relato de quem se aventura. Os acréscimos têm menos o gosto da mentira que a função de lição de moral para o ouvinte que saiba tirar dele um ensinamento.

Assim, o sociólogo Antonio Candido constataria ainda que o caipira não era mentiroso contumaz e nem preguiçoso, mas um sujeito que vivia dos mínimos vitais, extraindo da natureza o suficiente para dar de comer à família: plantava algum roçado, caçava, pescava, cuidava da sua "criação" doméstica, gerando muito pouco excedente. Aquilo que sobrasse, entretanto, era levado à feira do povoado para trocar pelos mantimentos que não produzia, em geral, pólvora para a espingarda que lhe permitia abater alguma caça, sal e querosene para a lamparina. Mais não precisava nos idos dos anos 10 e 20, quando ainda fiava algodão e tecia a própria roupa. Com o espaço das terras em que vivia cada vez mais ocupadas pelas fazendas de café, o plantio de algodão passou a ser mais raro e a roupa da família, feita à mão e em casa, vinha quase sempre de uma só peça de tecido comprada no fim de cada colheita.

E se o ano fosse bom, a colheita era feita em mutirão, reunindo a vizinhança. Nessas ocasiões de ajuda mútua, a participação coletiva era "paga" com um rega-bofe no fim do dia. E a contraprestação de serviços estava garantida para a próxima necessidade: uma nova colheita, mais uma casa para um filho que formasse família, uma festa grande para pagar alguma promessa e qualquer outra situação que precisasse de mão de obra em maior número. O escambo, a troca de produtos entre vizinhos, fazia com que a maioria dos povoamentos caipiras, mais tarde bairros rurais, fosse auto-suficiente.

Também eram coletivas as simpatias para garantir boa safra ou caça, as assombrações feitas de lobisomens, mulas-sem-cabeça, sacis, mães d´água e tantas entidades mágicas e religiosas originárias do catolicismo popular, da cultura indígena, dos cultos africanos e dessa mistura que remonta ao tempo do Brasil Colônia, tempo antigo, para falar em linguagem caipira. E das mesmas origens indígenas e portuguesas viriam as rezas e os cânticos como o cururu rural, o cateretê, a catira, a Dança de São Gonçalo. E em tempos mais recentes, o arrasta-pé, o baile na tulha ou no terreiro, as festas juninas para São João, Santo Antônio e São Pedro, donde não faltavam pratos típicos da ocasião como batata doce assada na fogueira, milho cozido, pamonha, cural, paçoca, pipoca, bolo de fubá, pé-de-moleque, mandioca e bolinho de mandioca, entre outros que ainda hoje figuram na culinária paulista e em parte de minas como: o virado à paulista, canjiquinha com costela de porco, polenta de milho verde com frango ensopado, farofa de feijão de corda, angu, leitãozinho à pururuca, arroz com costelinha de suã, rabada e outros quitutes deliciosos e feitos da mistura de ingredientes pobres.

Quando Antonio Candido realizou as suas pesquisas com a população rural de Bofete, interior de São Paulo, constatou que na escatologia caipira a mesa farta era sempre uma compensação no paraíso, ou no dia do Juízo, para a fome dos pobres neste mundo. O sociólogo concluiu que entre os caipiras graçava uma espécie de fome psíquica, ou seja, a manifestação de uma espécie de necessidade nova que não figurava no mundo fechado e equilibrado dos antepassados. Um belo exemplo destes desejos pelo novo, pelo mundo que bate à porta prometendo novidade e desorganizando a vida integrada à natureza está mais uma vez em A marvada carne, sendo a razão aparente que leva Nhô Quim a fazer um pacto com o demônio, inteligentemente representado por uma jovem mulher urbana. Se, como reza a lenda, o Cujo pede sempre algo em troca pela realização dos desejos, o caipira sempre paga com a perda do rural equilibrado e circunscrito. Na cidade ou nas fazendas como meeiro, parceiro, foreiro ou, mais recentemente, proletário rural, deslocado das suas bases cognitivas próprias, estigmatizado, o caipira traduz suas dores na palavra saudade dos "tempo bão", numa idealização de um passado mitizado que mais do qualquer romantismo pode ser pensado como uma profunda desconfiança do futuro e do desconhecido - particularmente do mundo urbano-industrial. E qualquer modelo de futuro acaba fundamentando-se também neste tempo mítico, onde a solidariedade e a reciprocidade garantiam um senso de coletivismo e justiça na partilha dos bens que a natureza punha a disposição. Talvez seja por isso que um dos dois filhos de seu Francisco, depois de vencer uma batalha quixotesca para alcançar dinheiro, fama e sucesso, diga diante do velho sítio onde nasceu que nunca fora tão feliz como naquela humilde pobreza rural...

E dessa saudade, quase uma perene insatisfação, se faz a maior parte da poética caipira, que canta em prosa e verso a lua, os animais de estimação e de trabalho, os pássaros, a pesca na lagoa ou no rio, a caçada, as viagens no lombo de animais, o crepúsculo, a chuva ou a falta dela e os causos em forma de poesia. Grande parte da música de influência nitidamente caipira põe em relevo a circularidade, reflexo daquele mundo circunscrito - pelo menos na sua sociabilidade primária -, mantendo somente uma única frase rítmica, sem variação melódica da qual a toada é o mais conhecido exemplo.

Talvez pudéssemos dizer que quando a terra deixou de ser mãe e "virou" madrasta, isto é, deixou de pertencer ao caipira que dela se apossara e dela extraía a vida, suas práticas e rituais, suas representações para se tornar mercadoria e individualizar o trabalhador, o mundo caipira começou a entrar em declínio. Isto porque a caipiridade não vive sem a coletividade que lhe é inerente, sem as relações e práticas de reciprocidade em que o racional e o mágico se imbricam de modo inextricável. Talvez pudéssemos ainda pensar que o desejo de reatar este elo perdido entre homem e natureza seja também um componente não desprezível da luta que levou e leva tantos homens e mulheres a lutarem pela terra, por um pedaço de chão, numa tentativa de resgatar a terra mítica do pai ou do avô. Mas como a história é impelida pelos ventos do novo mesmo que olhe para trás, cabe a estes novos caipiras recriarem os novos tempos, o novo rural coletivo sob a sedução implacável do mercado mundial. Haja coragem, criatividade e força para lutar neste "mundão véio sem porteira".

O resto mesmo é releitura, saudade e belas mostras como esta para a gente fazer um balanço do tempo em que caipiras e cinemas abundavam nas terras de Piratininga.


Célia Tolentino
(Socióloga e professora na Unesp - Marília)




 



 

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