Caipiridade
Pois oiça que lhe digo.
Naqueles tempo não era como hoje não.
Naqueles tempo, acuntecia muitas coisa...
(Nhô Quim em A Marvada Carne)
Em 1914, Monteiro Lobato escreveu para a seção
de queixas do jornal O Estado de São Paulo uma carta
intitulada Velha Praga para reclamar dos agregados rurais
do Vale do Paraíba que colocavam fogo no mato, comprometendo
a fertilidade da terra. Num tom de grande irritação,
o escritor dizia que este sujeito, o caboclo, era como um
piolho da terra, destruidor da natureza, e incapaz de adaptar-se
ao progresso. Preguiçoso, vivia de cócoras
e não tinha nenhuma noção do trabalho
racional, extraindo da natureza o que esta podia oferecer
segundo a lei do menor esforço: a mandioca, o palmito,
as poucas coisas que podia colher no mato e levar à
feira para trocar por pólvora e sal. E, tomando partido
do progresso, Lobato dizia que esse Jeca Tatu, esse fungo
de pau podre, era o responsável pelo atraso do país.
Esse
texto teve enorme repercussão e o Jeca Tatu passou
a ser o sinônimo do homem pobre rural brasileiro.
Mas, já em 1918, Lobato reveria sua posição,
se arrependeria desse juízo e reabilitaria o Jeca,
dizendo que ele era improdutivo, incapaz de mover-se não
por preguiça crônica, mas por causa do impaludismo.
Doente, o caboclo seria um homem em "estado latente".
Curado, seria um braço forte como aquele qualquer
imigrante europeu. Mas aí, para falar matutamente,
o estrago já tava feito. A idéia de que o
caboclo era um doente não eliminaria a imagem de
acocorado, preguiçoso e atrasado.
Quarenta
anos mais tarde, o sociólogo Antonio Candido escrevia
que o Jeca Tatu era uma caricatura injusta, porém
brilhante, do homem pobre rural que tinha conseguido um
equilíbrio entre a natureza e a sociabilidade e disso
fazia a sua razão de ser: esse homem era o caipira.
Esse mesmo equilíbrio explicava o atraso já
comentado por um viajante, Saint Hilaire, que estivera no
Brasil entre 1816 e 1822 e que tinha motivado o escritor
do Sítio do Picapau Amarelo a fazer a carta que daria
origem a uma das personagens literárias mais conhecidas
de norte a sul do país e que seria encarnado com
o mesmo sucesso no cinema por Amácio Mazzaropi.
Mas, visto com reserva pelo citadino e considerado um "bicho
do mato", quem é o caipira e por que ele chama
a nossa atenção atualmente a ponto de termos
mostras, congressos, filmes e peças de teatro que
tematizam a vida desse homem rural, herdeiro da miscigenação
entre o português, o negro e o índio? E de
onde vem esse nosso interesse?
Antes
de tudo do fato que o mundo pobre rural nos deixou um legado
cultural que, associado ao modo de vida integrado à
natureza, parece-nos em vias de desaparecimento. E como
todo povo precisa de uma tradição, São
Paulo, parte de Minas e Paraná, já sem "medo"
do caipirismo e ciente do progresso tanto no que tem de
bom como no que tem de ruim, reabilita esse ancestral matuto
antes que perca os traços de sua própria origem.
E também porque, ao contrário do que dizia
Monteiro Lobato, o caipira tem culinária própria,
tem seu estilo musical, suas festas, seu dialeto e sua cosmogonia,
um jeito de ver e interpretar o mundo que deriva da sua
própria e íntima relação com
a natureza - natureza que não deve nem pode ser profanada
porque dentro dela vivem os mitos e os deuses ancestrais.
Herança longínqua do pensamento indígena:
do mato vem a vida, a cura dos males, os elementos básicos
da sobrevivência como a casa, parte dos instrumentos
de trabalho e também as regras do respeito pelo desconhecido
transmitido de geração para geração
através dos relatos orais chamados de causos. Profanar
a natureza e suas regras é forçar o encontro
com a "parentaia do satanás", como diria
Nhô Quim, de A marvada carne, depois de um encontro
com o curupira. Dum causo como esse resulta que não
se anda sozinho de noite, o mato é cheio de surpresas
e uma companhia, a diferença entre a vida e a morte.
E cachorro não late para assombração,
explicam os mais velhos. Verdade ou não, a lição
fica garantida e salva a vida do caçador em caso
de incidentes. Portanto, o causo é a pedagogia caipira,
a transmissão de conhecimento que, como explicava
o filósofo alemão Walter Benjamim, só
sobrevive em culturas não escritas já que
é parte da vida artesanal, onde as pessoas têm
tempo de ouvir longa e coletivamente o relato de quem se
aventura. Os acréscimos têm menos o gosto da
mentira que a função de lição
de moral para o ouvinte que saiba tirar dele um ensinamento.
Assim,
o sociólogo Antonio Candido constataria ainda que
o caipira não era mentiroso contumaz e nem preguiçoso,
mas um sujeito que vivia dos mínimos vitais, extraindo
da natureza o suficiente para dar de comer à família:
plantava algum roçado, caçava, pescava, cuidava
da sua "criação" doméstica,
gerando muito pouco excedente. Aquilo que sobrasse, entretanto,
era levado à feira do povoado para trocar pelos mantimentos
que não produzia, em geral, pólvora para a
espingarda que lhe permitia abater alguma caça, sal
e querosene para a lamparina. Mais não precisava
nos idos dos anos 10 e 20, quando ainda fiava algodão
e tecia a própria roupa. Com o espaço das
terras em que vivia cada vez mais ocupadas pelas fazendas
de café, o plantio de algodão passou a ser
mais raro e a roupa da família, feita à mão
e em casa, vinha quase sempre de uma só peça
de tecido comprada no fim de cada colheita.
E
se o ano fosse bom, a colheita era feita em mutirão,
reunindo a vizinhança. Nessas ocasiões de
ajuda mútua, a participação coletiva
era "paga" com um rega-bofe no fim do dia. E a
contraprestação de serviços estava
garantida para a próxima necessidade: uma nova colheita,
mais uma casa para um filho que formasse família,
uma festa grande para pagar alguma promessa e qualquer outra
situação que precisasse de mão de obra
em maior número. O escambo, a troca de produtos entre
vizinhos, fazia com que a maioria dos povoamentos caipiras,
mais tarde bairros rurais, fosse auto-suficiente.
Também
eram coletivas as simpatias para garantir boa safra ou caça,
as assombrações feitas de lobisomens, mulas-sem-cabeça,
sacis, mães d´água e tantas entidades
mágicas e religiosas originárias do catolicismo
popular, da cultura indígena, dos cultos africanos
e dessa mistura que remonta ao tempo do Brasil Colônia,
tempo antigo, para falar em linguagem caipira. E das mesmas
origens indígenas e portuguesas viriam as rezas e
os cânticos como o cururu rural, o cateretê,
a catira, a Dança de São Gonçalo. E
em tempos mais recentes, o arrasta-pé, o baile na
tulha ou no terreiro, as festas juninas para São
João, Santo Antônio e São Pedro, donde
não faltavam pratos típicos da ocasião
como batata doce assada na fogueira, milho cozido, pamonha,
cural, paçoca, pipoca, bolo de fubá, pé-de-moleque,
mandioca e bolinho de mandioca, entre outros que ainda hoje
figuram na culinária paulista e em parte de minas
como: o virado à paulista, canjiquinha com costela
de porco, polenta de milho verde com frango ensopado, farofa
de feijão de corda, angu, leitãozinho à
pururuca, arroz com costelinha de suã, rabada e outros
quitutes deliciosos e feitos da mistura de ingredientes
pobres.
Quando
Antonio Candido realizou as suas pesquisas com a população
rural de Bofete, interior de São Paulo, constatou
que na escatologia caipira a mesa farta era sempre uma compensação
no paraíso, ou no dia do Juízo, para a fome
dos pobres neste mundo. O sociólogo concluiu que
entre os caipiras graçava uma espécie de fome
psíquica, ou seja, a manifestação de
uma espécie de necessidade nova que não figurava
no mundo fechado e equilibrado dos antepassados. Um belo
exemplo destes desejos pelo novo, pelo mundo que bate à
porta prometendo novidade e desorganizando a vida integrada
à natureza está mais uma vez em A marvada
carne, sendo a razão aparente que leva Nhô
Quim a fazer um pacto com o demônio, inteligentemente
representado por uma jovem mulher urbana. Se, como reza
a lenda, o Cujo pede sempre algo em troca pela realização
dos desejos, o caipira sempre paga com a perda do rural
equilibrado e circunscrito. Na cidade ou nas fazendas como
meeiro, parceiro, foreiro ou, mais recentemente, proletário
rural, deslocado das suas bases cognitivas próprias,
estigmatizado, o caipira traduz suas dores na palavra saudade
dos "tempo bão", numa idealização
de um passado mitizado que mais do qualquer romantismo pode
ser pensado como uma profunda desconfiança do futuro
e do desconhecido - particularmente do mundo urbano-industrial.
E qualquer modelo de futuro acaba fundamentando-se também
neste tempo mítico, onde a solidariedade e a reciprocidade
garantiam um senso de coletivismo e justiça na partilha
dos bens que a natureza punha a disposição.
Talvez seja por isso que um dos dois filhos de seu Francisco,
depois de vencer uma batalha quixotesca para alcançar
dinheiro, fama e sucesso, diga diante do velho sítio
onde nasceu que nunca fora tão feliz como naquela
humilde pobreza rural...
E
dessa saudade, quase uma perene insatisfação,
se faz a maior parte da poética caipira, que canta
em prosa e verso a lua, os animais de estimação
e de trabalho, os pássaros, a pesca na lagoa ou no
rio, a caçada, as viagens no lombo de animais, o
crepúsculo, a chuva ou a falta dela e os causos em
forma de poesia. Grande parte da música de influência
nitidamente caipira põe em relevo a circularidade,
reflexo daquele mundo circunscrito - pelo menos na sua sociabilidade
primária -, mantendo somente uma única frase
rítmica, sem variação melódica
da qual a toada é o mais conhecido exemplo.
Talvez
pudéssemos dizer que quando a terra deixou de ser
mãe e "virou" madrasta, isto é,
deixou de pertencer ao caipira que dela se apossara e dela
extraía a vida, suas práticas e rituais, suas
representações para se tornar mercadoria e
individualizar o trabalhador, o mundo caipira começou
a entrar em declínio. Isto porque a caipiridade não
vive sem a coletividade que lhe é inerente, sem as
relações e práticas de reciprocidade
em que o racional e o mágico se imbricam de modo
inextricável. Talvez pudéssemos ainda pensar
que o desejo de reatar este elo perdido entre homem e natureza
seja também um componente não desprezível
da luta que levou e leva tantos homens e mulheres a lutarem
pela terra, por um pedaço de chão, numa tentativa
de resgatar a terra mítica do pai ou do avô.
Mas como a história é impelida pelos ventos
do novo mesmo que olhe para trás, cabe a estes novos
caipiras recriarem os novos tempos, o novo rural coletivo
sob a sedução implacável do mercado
mundial. Haja coragem, criatividade e força para
lutar neste "mundão véio sem porteira".
O
resto mesmo é releitura, saudade e belas mostras
como esta para a gente fazer um balanço do tempo
em que caipiras e cinemas abundavam nas terras de Piratininga.
Célia Tolentino
(Socióloga e professora na Unesp - Marília)