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Cobertura do Seminário Internacional sobre Cultura e Acessibilidade

por Guilherme Varella

O teatro dos sinais

(ou Um papo pra se ouvir com os olhos)

Experiência boa pra se ter, pra aumentar o repertório, para saber falar e aprender ouvir. De outro jeito. Eu não teria a resposta da pergunta que fiz à Sabrina, que não a entenderia não fosse o Andrey, que olhava pra mim, falava pra ela, olhava pra ela, voltava pra mim.

Eu era o repórter. Sabrina Ribeiro, arte-educadora com deficiência auditiva da Pinacoteca, entrevistada. Andrey Lemes da Cruz, intérprete e professor de Libras, nosso mediador. Minha primeira entrevista mediada por sinais, pela Língua Brasileira de Sinais, que o Andrey insistiu para mim que é "língua" e não linguagem. "Estabelecida pela Lei 10.436, de 2002, regulamentada pelo Decreto 5.626, de 2005", explicou. Entendi.

Sabrina Ribeiro guia grupo de surdos na Pinacoteca - foto divulgação Pinacoteca
Sabrina Ribeiro guia grupo de surdos na Pinacoteca - foto divulgação Pinacoteca

Na verdade, já tinha curiosidade de saber quem ensina, quem aprende, como se "fala", o que seria a tal língua de sinais. Já era o segundo ou terceiro seminário que cobria ou participava com tradução gestual. E nesse ponto o Acesso em Reverso deu boa contribuição: colocar leigos, como eu, em primeiro contato com a cultura da acessibilidade.

E aquele gestual. Cênico, performático, expressivo, circense. Silencioso e barulhento, tamanha a carga de informações que os olhos de quem não escuta ia ouvir. Desde o começo queria fazer a entrevista com o Andrey e sua turma de mímicos, que interpretaram todas as mesas do seminário. Saber da escola de sinais, do ponto de vista de quem ensina.

Foi quando surgiu a Sabrina, monitora de pessoas com deficiência do PEPE (Programa Educativo para Públicos Especiais). Artista plástica, alfabetizada em Libras. Guia grupos de visitantes surdos interagindo, lendo e até mesmo vestindo (!) as obras. Tudo isso dentro do acervo e das técnicas especiais que tem o museu.

Sabrina Ribeiro - foto: Henrique Alves Barbosa
Sabrina Ribeiro - foto: Henrique Alves Barbosa

Da Sabrina queria saber da escola de sinais, sob o ponto de vista de quem aprende. Juntei Andrey e Sabrina, final da tarde de sexta-feira, 27. Fechamos o triângulo interpretativo. E fiz minha primeira entrevista mediada. Atento e maravilhado com o jogo cênico dos dois.

Fiz minhas perguntas pro Andrey, ele me respondia em alto e bom som, enquanto aguardávamos Sabrina. Disse que aprendeu libras convivendo com amigos surdos pelos seus 15, 16 anos. Acompanhava-os, servia de intérprete informal. Estimulado por eles, foi se aperfeiçoando, estudou e se profissionalizou.

Hoje mantém uma escola de sinais, a Educalibras, na Vila Guilherme (zona norte de São Paulo) e ensina Libras a mais de 100 alunos. Todos surdos?, perguntei. "Não, todos ouvintes", explicando que a maioria dos alunos é composta de familiares e amigos de surdos e de profissionais da saúde, envolvidos com esse público.

Andrey Lemes da Cruz - foto: Henrique Alves Barbosa
Andrey Lemes da Cruz - foto: Henrique Alves Barbosa

Andrey destacou que os surdos são alfabetizados desde crianças nas escolas da prefeitura e em outras especiais, como a Santa Teresinha e o Instituto Rio Branco. Na Educalibras, os surdos tem cursos especializados, como o curso de Português, e cursos de idiomas (inglês, espanhola, francês) prestes a começar.

"Ensinamos e interpretamos os sinais para que cada vez mais pessoas conheçam e consigam se comunicar através deles", explicou o militante Andrey, que acredita que a inclusão começa com a capacidade de a família se comunicar bem com os surdos. Por isso, dão bolsas integrais a familiares que querem receber aulas dos sete professores surdos e dez intérpretes que compõem o quadro da escola.
Sabrina acompanhava a discussão pelos sinais do Andrey. Depois, começava a responder às minhas leigas perguntas. Explicou que trabalha com atividades lúdicas e jogos de palavras com os surdos que visitam a Pinacoteca. Que estudou no Instituto Dona Conceição desde os três anos de idade e que se formou em artes plásticas. "Trabalho muito com desenhos, animação, filmes, stop motion", me traduziu Andrey, das mãos dela.

Simpática, engraçada e comunicativa, relatou que teve sua maior dificuldade na faculdade, na compreensão das teorias, das palavras mais técnicas e difíceis, já que as explicações não eram interpretadas. Restava a ela a leitura e o esforço. Hoje, Sabrina prepara um guia de visitação à Pinacoteca para surdos.

Sabrina, Andrey e o repórter, que espera a tradução - Foto: Henrique Alves Barbosa
Sabrina, Andrey e o repórter, que espera a tradução - Foto: Henrique Alves Barbosa

O papo dos dois era envolvente. Andrey me explicou que a língua mescla gestos que tem um significado próprio - e diferente de país para país - e nomes, geralmente próprios, soletrados. Contei à Sabrina que, como ela, era artista também, músico. E Andrey tocou um violão imaginário. Disse que gostava de futebol, e ele fez pulular os dedões das mãos, em jóia. Ela riu.

Eu ali, parado, anotava pouco. Tentava não dar ouvidos às palavras para ler as mãos e as feições dos dois atores. Mas falavam muito rápido. E era papo à beça. Decidi que tinha mesmo que aprender Libras. Pra ter mais o que falar.

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Centro Cultural for all!
30/11 - 12h35

Na tarde de quinta-feira, 26, o professor Frances Aragall ministrou ainda uma oficina cujo principal objetivo era analisar os dispositivos de acessibilidade do Centro Cultural São Paulo (CCSP), "anfitrião" do seminário.

Na oficina, os participantes se dividiram em grupos e percorreram os espaços do CCSP analisando quatro pontos: o espaço geral a ser ocupado e seu mobiliário; o uso dos sentidos na ocupação dos espaços, a formação e orientação que eles proporcionam; a acessibilidade, com foco na locomoção e manipulação dos objetos; e os valores, linguagens e demais elementos subjetivos que permeiam o espaço.

O CCSP, um dos primeiros equipamentos culturais de São Paulo a se adaptar às necessidades especiais, foi então avaliado pelos "fiscais". E o diagnóstico apontou alguns incrementos a serem feitos, como a sinalização em outras línguas e em braille - inclusive no cardápio do restaurante; o piso tátil nas calçadas e a instalação de corrimãos mais adequados; a adaptação na altura da pia dos banheiros e dos bancos etc.

Aceitas as recomendações, o CCSP mostrou que já incorporou bastante do que o Desenho Universal recomenda, especialmente com as instalações providenciadas para o Acesso em Reverso.

Seguem, então, alguns dos dispositivos de acessibilidade do CCSP:

 

Piso tátil, com 500 m de extensão, presente em todos os pisos.
Piso tátil, com 500 m de extensão, presente em todos os pisos. foto: Lincoln Yoshihashi

Biblioteca braile, incorporada à biblioteca comum.
Biblioteca braille, incorporada à biblioteca comum. foto: Lincoln Yoshihashi

Equipamento digital de leitura tátil em braile.
Equipamento digital de leitura tátil em braille. foto: Lincoln Yoshihashi

Complexo de rampas com pisos lisos.
Complexo de rampas com pisos lisos. foto: Henrique Alves Barbosa

Francesc Aragall passa as orientações aos oficineiros.
Francesc Aragall passa as orientações aos oficineiros. foto: Henrique Alves Barbosa

Para ver mais fotos, clique aqui.

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Universal, for all!
28/11 - 18h31

A quinta-feira, 26, do seminário Acesso em Reverso teve muito de pragmática. Na prática, como a acessibilidade se dá? A comunicação interpessoal, a arquitetura dos prédios, os dispositivos de utilidade pública, a sinalização urbana. Ali, no duro, como isso se dá?

O professor espanhol Francesc Aragall trouxe exemplos práticos disso na mesa da manhã, "Paisagem, circulação e acesso". Presidente da Fundação Design For All, explicou atuação da organização, presente no mundo, no sentido de criar um Desenho Universal, que possibilite o acesso de todos e todas a todos os espaços.

Francesc Aragall - foto: Henrique Alves Barbosa
Francesc Aragall - foto: Henrique Alves Barbosa

Segundo ele, um desenho com critérios para que todos possam participar igualmente dos ambientes, espaços, aparelhos e ferramentas. Critérios equilibrados de construção dos elementos da sociedade para que todos participem, sem marginalização, da questão do espaço. De um espaço que seja seguro, que seja saudável, que promova o uso saudável dos meios ambientes.

Frances deu alguns exemplos de locais variados na Europa:

  • passarelas de madeira para acesso ao mar, inicialmente para pessoas com cadeiras de roda ou carrinhos de bebê. Contudo, como a areia é muito quente, acaba sendo usada por todos os pedestres;
  • parques infantis com brinquedo não apenas de subir e descer, de locomoção física, mas com outros elementos sensoriais (cheiros, sensações, sons);
  • semáforos sonoros, para os pedestres que não enxergam, acionados com controles remotos, de maneira que também não atrapalhem os pedestres ouvintes com excesso de ruídos;
  • fontes participativas, com alturas diferentes, para que possam beber da mesma água pessoas sem deficiência, cadeirantes, anões, e até animais no chão;
  • mosteiros e igrejas com rampas para cadeirantes, inclusive intervenções mais respeitosas, através de construções com madeiras.

"Geralmente elementos de acessibilidade são acréscimos feios, quando se pensa que os espaços querem chamar a atenção pela beleza", diz Francesc. Se o dispositivo de acessibilidade é "fotografável", ele não é bom. Tais dispositivos de acessibilidade são melhores quanto mais imperceptíveis ou "incorporados" ao ambiente estão, explica.

Segundo Francesc, a utilidade se une à estética, mas é mais importante. De acordo com os trabalhos desenvolvidos pela Design For All, os dispositivos instalados são importantes não apenas para as pessoas com deficiência, mas para cerca de 40% da população, ao menos.

Francesc lembrou ainda a criação da bandeira de Povos e Cidades para Todos. Lançada na Europa pela Design For All, ela é entregue a cada município que invista pelo menos 2% de seu orçamento em melhorias em seu espaço para a acessibilidade. Um incentivo ao gestor público preocupado com o Desenho Universal.

Bandeira de Povos e Cidades para Todos
Bandeira de Povos e Cidades para Todos

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Um linguado, Duchamp, mediação e acessibilidade
27/11 - 16h12

O Linguado
O Linguado

Se muitas vezes fica complicado para pessoas sem qualquer deficiência entender exposições, acervos de museus, instalações, quadros e esculturas, imagine para quem tenha alguma necessidade especial.
Em situações comuns de visitações a equipamentos culturais, de educação para a história da arte ou para a museologia, ou mesmo de formação de público, o processo de interpretação (ou mediação, como alguns chamam) torna-se essencial.

No caso de pessoas com deficiência, esse processo tem que ser apurado, alcançar outras dimensões de aprendizagem e ter metodologias diferentes. Condições ainda pouco assimiladas pelo "alto" mundo das artes e das curadorias mundo afora.

No Brasil, então, uma discussão germinal. Talvez por isso, para a mesa "Interpretação, mediação e educação: questão da experiência", dessa sexta-feira, 27, no Acesso e Reverso, foram recrutados de fora dois especialistas. Um em acessibilidade física e intelectual ao patrimônio cultural, o espanhol Antonio Espinosa Ruiz, e a outra em educação e inclusão cultural, uma das curadoras do renomado museu inglês Tate Modern, diretamente de Londres, via skype, Caro Howell.

Antonio Espinosa Ruiz - foto Henrique Alves Barbosa
Antonio Espinosa Ruiz - foto Henrique Alves Barbosa

Ruiz, talvez pela inclinação ibérica aos frutos do mar, colocou um peixe, um linguado, no telão. E explicou que o linguado seria o patrimônio. Cru, sem limpar, parado na estante do supermercado, não atrai, nem dá vontade de comer. O mediador (cozinheiro?) pega esse peixe, limpa, tempera, cozinha, enfeita. Deixa saboroso e convidativo para ser apreciado ou, no mínimo, para despertar o interesse. A mediação serve para isso: deixar o patrimônio interessante e saboroso para a apreciação.

Lucia Reily, professora da Unicamp, abrindo os trabalhos da mesa, mesmo antes do linguado, já alertava: "quando as informações se tornam acessíveis para pessoas com deficiência, tornam-se ainda mais acessíveis para as pessoas que não tem deficiência". Ou seja, se o prato é convidativo e acessível até a quem tem mais dificuldade de comê-lo, ou apenas apreciá-lo, será ainda mais saboroso para quem está de garfo e faca na mão.

Caro Howell, no telão, façando de Londres - foto Henrique Alves Barbosa
Caro Howell, no telão, façando de Londres - foto Henrique Alves Barbosa

Na esfera da acessibilidade para as artes, o desafio, então, é por garfo e faca nas mãos das pessoas com deficiência. Segundo Caro Howell, elas "podem ter percepção equivocada da história da arte se as possibilidades, instrumentos e informações não forem dadas, para que façam as conexões possíveis."

E já existem programas que possibilitam esse tipo de aprendizagem. Na Unicamp, Lucia Reily desenvolve um programa com crianças surdas, colocando-as em contato com as linguagens artísticas através da ampliação do seu repertório simbólico, da interação entre si e através do aguçamento dos seus sentidos para as artes.

Caro Howell desenvolveu um programa paradigmático na Inglaterra. Uma ferramenta virtual de acesso a acervos e estudo das obras para pessoas com deficiência visual. É o i-Map, sediado na plataforma do Tate Modern. Uma proposta de ir além do toque na apreciação e ensino das obras de arte. A técnica do toque, segundo ela, se usada isoladamente, reduz as possibilidades de inserção do cego nesse meio.

A Fonte, de Marcel Duchamp, 1917 - réplica de 1964
A Fonte, de Marcel Duchamp, 1917 - réplica de 1964

Explica, citando o exemplo da obra de Marcel Duchamp, "A Fonte", de 1917. A obra é um urinol, que contesta o valor, o sentido institucional das obras de arte. Uma obra que, segundo ela, não necessariamente vai ser apreendida através do toque. Nem faz sentido. Uma pessoa cega não vai entender mais essa obra tocando-a. Ela exige, explica a curadora, uma compreensão conceitual, mesmo para quem não pode vê-la.

Segundo Howell, "A Fonte" explica bem a falsa ligação existente entre tocar algo e apreender uma informação, como se fosse algo milagroso. Nem sempre com o toque se tem uma informação, mesmo para os cegos. Para ela, uma relação didática não necessariamente verdadeira no campo da acessibilidade.

Na opinião da curadora, é preciso que se criem outras formas de interação com as obras de arte e especialmente de educar para as artes. Pessoas sem necessidades especiais, com visão e audição perfeitas, tem mais facilidade em desenvolver técnicas lúdicas, criar conexões com as obras de artes.

A complexidade aumenta para as pessoas com deficiência, que devem, conforme Howell, criar suas próprias metodologias e formas de aprendizado. "Se um intérprete de sinais não sabe a terminologia da arte, como vai levar essa expressão aos surdos? O meu trabalho, como mediadora, é começar a treinar artistas surdos para que eles passem isso através da educação, traduzir essa linguagem. Criar um processo para que os surdos tenham um estudo especializado da arte. Criarem seu próprio processo de transmissão desse conhecimento".

Antonio Espinosa Ruiz, que na mesma tarde de sexta ministra uma oficina prática sobre mediação no patrimônio cultural, concorda e acrescenta: "a mediação tem alguns aspectos afetivos, não é apenas informação". Segundo ele, "é necessário tornar o patrimônio mais vivo quanto possível". Tão vivo e atraente quanto um linguado pronto, a ponto de ser comido - metáfora com a devida vênia aos vegetarianos.

Para o espanhol, é preciso que se amplie o escopo de atuação do mediador, da interpretação, para que o alcance da arte seja maior. A simples "necessidade estética", para ele, não justifica a falta de interpretação. "O visitante não pode ser espectador, mas cúmplice do patrimônio", explica, citando o exemplo do museu mais visitado da Espanha, o museu do time de futebol Barcelona. Talvez por ser o que mais faça parte da vida de quem o adentrou.

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Paisagens acessíveis
27/11

Na mesa “Paisagem, circulação e acesso”, o arquiteto e urbanista Euller Sandeville Jr. é enfático ao dizer que “paisagem não é uma realidade visual nem uma simples apreciação estética”.

Abrindo as discussões da manhã da quinta-feira, 26, o especialista em estruturas ambientais urbanas destaca o projeto “Espirais”, que desenvolve na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, como exemplo de oposição à padronização das paisagens. Uma proposta de construção de ambientes a partir de processos colaborativos, envolvendo inclusive pessoas com deficiência.

Euller Sandeville Jr., arquiteto e urbanista. foto: Lincoln Yoshihashi
Euller Sandeville Jr., arquiteto e urbanista. foto: Lincoln Yoshihashi

Euller explicou que as pesquisas são realizadas especialmente com cegos e cadeirantes, nos bairros de Brasilândia e Heliópolis (São Paulo), comunidades quilombolas do Vale do Ribeira e até na Zona da Mata (PE, AL, norte de MG). E se pautam na sensibilização dos indivíduos em áreas naturais e intervenções em espaços públicos.

Essa também é a proposta do Grupo Terra, surgido em 2002. Possibilitar aos deficientes visuais perceber as paisagens, senti-las, captar suas nuances, criar com elas uma interação real. A metodologia, entretanto, é outra. Baseia-se em técnicas de descrição,com um questionamento sempre presente: “como a natureza se torna acessível para quem não enxerga?”

Presente na mesa de projetos e práticas da quarta-feira, 25, a fundadora Isabela Abreu explica que todo o trabalho do grupo se baseia na relação 1 para 1: uma pessoa com deficiência visual para uma pessoa que enxerga. E baseia-se em três pontos: o sentir, a importância dos outros sentidos, e a descrição como canal.

Isabela Abreu, fundadora do Grupo Terra. foto: Lincoln Yoshihashi
Isabela Abreu, fundadora do Grupo Terra. foto: Lincoln Yoshihashi

“A descrição é a arte de transformar imagens e palavras, emoções e percepções e isso é importante para o deficiente visual. Nesse processo, é essencial ir além da narração, trazer emoção à pessoa”, explica Isabella.

Segundo ela, atualmente há técnicas de descrição que possibilitam à pessoa cega aprofundar sua percepção das coisas. A linguagem da descrição passa a ser a tradução do que se vê. Linguagem que ela demonstra em um exercício prático. de Na plateia, uma pessoa vendada com outra do lado, enxergando, descrevendo com detalhes a foto que vê no telão. Os resultados comprovaram a efetividade da metodologia.

Tanto para Euller quanto para Isabella, a deficiência não é um óbice para apreensão das paisagens, das cidades, dos espaços. Para Euller, a ideia é pensar a cidade como espaço de participação partilhada e experimental. “Aprender em ação com os outros é a chave”, diz. A paisagem como experiência concreta de cada um.

O foco do estudo das paisagens é cultural, de construí-las e ressignificá-las, principalmente em áreas de baixo desenvolvimento e onde o preconceito se desenvolve fortemente, em especial com relação às pessoas com deficiência.

“A beleza não é um fato em si. É um modo de ver que se aprende”. O arquiteto refere-se à paisagem como uma dimensão clara mas não exclusivamente estética. Descobrir paisagens, para ele, é descobrir pessoas que se integram a elas e vivem suas vidas, emoções, sentimentos.

“A paisagem é o ambiente onde vivemos, construímos valores, identidades e escolhas. É o lugar onde existimos”, relata. Para ele, as representações da realidade geralmente se satisfazem mais com o retrato do que com o retratado. É importante atentar para como as pessoas querem ser vistas na paisagem.

Nesse ponto entra a percepção que tem a pessoa com deficiência de si mesma na paisagem em que cria e habita. E a própria percepção que vai desenvolver da paisagem existente. Um fenômeno sensível quando se analisa a interação dos cegos na paisagem. Para muita gente, explica Euller, a paisagem é estritamente visual. Logo, inacessível para quem não vê. Ou seja, inexistente para os cegos.

Na prática, o que ocorre é o contrário, conta Isabella. Basta dar oportunidade aos deficientes visuais. “Se você acha algo bonito, uma pessoa cega também pode achar. Se você é apaixonado pelo pôr-do-sol, uma pessoa cega também pode se apaixonar. Mas ela também pode não gostar. O que temos que fazer é dar a oportunidade. E cabe à pessoa com deficiência decidir se vai gostar ou não”.

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As andanças de Pazé
26/11 - 16h16

O "transeunte" Pazé, na entrada da estação Sé do metrô.
O "transeunte" Pazé, na entrada da estação Sé do metrô.

Pazé já andou bastante por aí. Caminhou. Subiu e desceu os prédios do centro de São Paulo. Parou em camelôs, passou por batidas policiais. Pegou ônibus e metrô. Tudo isso sem poder andar. Tudo isso numa cadeira de rodas já há 25 anos.

Pazé é um artista plástico paraplégico que soube retratar a realidade de quem vive sozinho, com necessidades especiais, trabalhando com cultura em plena da cidade de São Paulo. A grande e árida São Paulo, mesmo para quem se locomove livremente. Como ele, de alguma forma, se locomoveu.

Na mesa "Paisagem, circulação e acesso", do seminário Acesso e Reverso, na manhã dessa quinta, 26, Pazé apresentou sua intervenção urbana "Transeunte", de 2002. Uma forma de chamar a atenção para vários problemas da metrópole.

O local escolhido foi o centro, região extremamente movimentada , por onde os trabalhadores mais passam e fazem baldeação do que propriamente vivem. Um local de locomoção por excelência, para onde vão, para continuarem se locomovendo.

O "transeunte" Pazé era um boneco, em tamanho natural, instalado nas ruas e prédios através de uma estrutura de metal. De cadeira de rodas? Não. Em pé. Numa postura de quem caminha. De quem está sempre caminhando.

Pazé, em meio a uma blitz policial (ele está bem atrás do segundo motociclista).
Pazé, em meio a uma blitz policial (ele está bem atrás do segundo motociclista).

Instalado em vários pontos estratégicos do centro, como ruas de grande circulação, terminais de ônibus, prédios públicos, estações de metrô, o boneco "acompanhava" a trajetória diária de milhares de transeuntes. Acabava, de alguma forma, por caminhar com eles, de um ponto para outro. Algo esplêndido para o cadeirante Pazé, que não anda, mas que mantém um cérebro andarilho, que sonha todas as noites com as pernas do Pazé, transitando por aí.

O boneco causava estranhamento. Chamava a atenção para si. Tinha literalmente a cara do dono. Interagia com as pessoas. Questionava, ali no meio da multidão, a relação do indivíduo com a cidade, os caminhos diários que cada um fazia, e o próprio transporte público. Segundo Pazé, São Paulo conta hoje com 3 mil ônibus adaptados para pessoas com deficiência, contra apenas 800 há alguns anos atrás.

Para ele, a intervenção lhe possibilitou "caminhar" com o fluxo de homens e mulheres, por cerca de 12 a 14 horas diárias, durante 30 dias no centro da capital. E, mais que isso, possibilitou que fosse visto por essas pessoas, a grande dificuldade para quem possui alguma deficiência.

"Hoje, lutamos para que sejamos "visíveis". São 1,5 milhão de pessoas com deficiência em São Paulo. E a maioria não consegue sair de casa. Parece que somos invisíveis na cidade", relatou. E o problema não está só na esfera publica, no acesso às ruas e equipamentos culturais, mas igualmente na esfera privada.

Ele nutre a utopia de que qualquer casa ou apartamento seja acessível às pessoas com deficiência. "Moro sozinho. Queria alugar um para mim. Fui a 48 apartamentos de um quarto. Em nenhum dele eu consegui entrar". Um fato sintomático sobre como são afetadas a independência e a autonomia de um cadeirante.

O boneco na sacada de um prédio do centro de São Paulo.
O boneco na sacada de um prédio do centro de São Paulo.

Atualmente, quando pedem uma foto do Pazé, para as muitas exposições nacionais e internacionais que o artista realiza, ele recorta a cabeça do boneco. Uma foto de corpo inteiro, vai o boneco todo. Para Pazé, uma forma de lidar com a representação que o "transeunte" traz, em todas as dimensões: de identidade, de acessibilidade, de indivíduo, de relação com o espaço, de pertencimento à cidade.

Militante da causa das pessoas com deficiência, faz questão de lembrar a gama de profissionais essenciais ao desenvolvimento dessas pessoas: médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, designers.
O artista Pazé foi parar no alto de um dos maiores prédios de São Paulo. No alto, para ser visto. E para que sejam vistos todos os cadeirantes e pessoas com qualquer deficiência.

No alto de um prédio do centro da cidade.
No alto de um prédio do centro da cidade.

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Por uma cultura de acessibilidade sem massificação
25/11 - 13h13

Para o acesso à mesa de discussão, uma rampa para cadeirantes. Nas paredes ao lado da plenária, excertos literários de obras dos convidados, montagens fotográficas de pessoas com deficiência visual e aparelhos de escuta especial. Ao lado da mesa - de onde se lê “Acesso em Reverso” – um telão captando imagens de Cambridge, na Inglaterra, de onde disparava a imagem de um professor:

Martin Grossmann e Nicolau Sevcenko
Martin Grossmann, à esquerda, e Nicolau Sevcenko, à direita, no telão.

“A cultura de acessibilidade é viável em termos racionais.”

A fala é de Nicolau Sevcenko, professor de História da Cultura da USP, iniciando a discussão sobre a diferenciação entre os conceitos de “acesso à cultura” e “cultura de acessibilidade”.

Para uma platéia com poucas pessoas com deficiência, na manhã de quarta-feira, 25, o professor explicava que a discussão sobre acessibilidade no Brasil chegou tarde. A primeira ação governamental nesse sentido se deu com a implantação de calçadas horizontais mais lisas, pelo então prefeito de São Paulo Jânio Quadros, na década de 80. A ação causou polêmica, já que muitos moradores viam a calçada como patrimônio privado.

O tema foi debatido pelo professor de História da Filosofia da USP Peter Pál Pelbart, com mediação do diretor do Centro Cultural São Paulo (CCSP) Martin Grossmann.

Pelbart fez a relação da cultura de acessibilidade com a noção do “comum” na sociedade, do seu domínio e suas formas de representação. Segundo ele, “o comum é um reservatório de singularidades numa variação contínua”. Uma idéia que envolve pensar a constituição de um corpo múltiplo, composto de relações específicas e diferenciadas de velocidade e lentidão. Pensar a consistência desse conjunto.

Peter Pál Pelbart
Peter Pál Pelbart.

Para ele, é essencial “pôr em comum o que é comum”, colocar para circular o que é patrimônio de todos. Ou seja, pensar como esse conjunto se estrutura com a multiplicidade e o pertencimento coletivo.

Ideia convergente com o pensamento de Sevcenko, para quem “é preciso a transformação de uma cultura homogeneizadora para uma cultura de singularidades e diferenças. Uma nova mentalidade a partir desses novos elementos heteróficos”.

Parece ser esse o desafio na criação da cultura de acessibilidade no país, para além do simples acesso à cultura, como realização dos direitos culturais. O acesso à cultura, segundo Sevcenko, depende de condições sociais, econômicas, educacionais, geográficas.

A cultura de acessibilidade incorpora, ainda, a “estética do acesso”, de descentralização cultural, disseminação, dispersão, autonomia – o chamado do-it-yorself, o faça-você-mesmo, advindo da Inglaterra, da década de 70.

Além disso, Sevcenko lembra que é imprescindível, nesse processo, pensar a educação de forma não massificante, mas pensar em categorias especiais. “A questão do treinamento dos educadores é um elemento decisivo na construção de uma sociedade mais orgânica, integrada, justa e humanizada”, destaca.

Para as ações governamentais e para a elaboração de políticas públicas, “não-massificação” e heterogeneidade” são palavras-chave. Pelbart reforça esse entendimento, usando as ideias de Antonio Negri e Giuseppe Cocco. “Multidão é o contrário de massa. Massa é um compacto homogêneo, submetida a um líder. A multidão é uma multiplicidade subjetiva. “

A multidão, para ele, seria uma dinâmica entre o comum e o singular. Entre o padrão e a variação. Assim deveria ser pensada a sociedade, à luz do debate sobre acessibilidade, não através do modelo da fusão, e sim à luz da heterogeneidade.

Martin Grossmann
Martin Grossmann.

Martin Grossmann amarra as idéias dos convidados: “a cultura tem reagido a outras formas de conhecimento, de apreensão do mundo. Há uma evolução disso para uma relação mais instigante de compreensão do mundo, de configuração geopolítica. E nessa modelação de cultura global conectada, há uma inquietação fundante com a questão da acessibilidade”.

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Seminário do CCSP lança olhar sobre cultura de acessibilidade
25/11 - 16h16


foto: Lincoln Yoshihashi

Teve início na manhã dessa quarta-feira, 25, no Centro Cultural São Paulo (CCSP), o Seminário Internacional de Cultura e Acessibilidade - Acesso em Reverso. O encontro debaterá, até sexta-feira, 27, questões relacionadas ao acesso à cultura por pessoas com deficiência e com mobilidade reduzida.

A mesa de abertura do seminário foi composta pelo diretor do Centro Cultural São Paulo, Martin Grossmann, pela diretora do Centro Cultural da Espanha em São Paulo (AECID), Ana Tomé, e pelo secretário municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida, Marcos Belizário.

Os integrantes chamaram a atenção para a necessidade de políticas públicas efetivas de acessibilidade. O secretário Marcos Belizário destacou o programa desenvolvido pelo Metrô, inclusive pela estação Vergueiro, ligada ao CSSP, que garante condições de acesso a cadeirantes, pessoas com deficiência visual, auditiva e portadores de necessidades especiais.

Belizário afirmou a importância do seminário para pensar políticas para São Paulo. Colocou como exemplo o fato de a cidade possuir 30 mil km de calçadas e a quase totalidade delas ser inviável para o trânsito de pessoas com alguma deficiência. Para a solução desse problema, a prefeitura estuda uma espécie de contribuição de melhoria a ser cobrada para a manutenção das calçadas.


Andrey Lemes da Cruz (tradutor de Libras), Ana Tomé, Marcos Belizário e Martin Grossmann. foto: Lincoln Yoshihashi

O seminário, organizado pelo CCSP em parceria com o Centro Cultural da Espanha em São Paulo, trouxe a necessidade de articulação dos diversos órgãos, secretarias e organizações para a promoção de ações integradas de acessibilidade e para a criação de uma nova cultura de tratamento da pessoa com deficiência.
"Estamos de mãos dadas nessa aventura de ampliação de horizontes no mundo da cultura que construímos", disse Martin Grossmann, que ressaltou que "para a acessibilidade, a transformação deve ser cultural e não apenas física, arquitetônica. Isso faz parte da política cultural do CCSP."

Ana Tomé afirmou que o Centro Cultural da Espanha empenha-se na construção de uma rede de cooperação internacional para a realização dos direitos culturais das pessoas com deficiência. Tomé afirmou que o seminário é "uma boa oportunidade de reunir técnicos artistas e intelectuais, bem como pessoas com deficiência para que se trate de conceitos, políticas e filosofias, mas para que tudo que seja discutido se volte às necessidades reais dessas pessoas".

Em seus três dias, o seminário Acesso em Reverso discutirá temas como cultura e acessibilidade e acesso à cultura; paisagem, circulação e acesso; e dimensões de acesso aos bens culturais. Haverá, ainda, oficinas nos períodos da tarde, e um concerto didático, no sábado, 28, com apresentação de um sistema de notação musical para deficientes visuais concebido com o sistema de escrita desenvolvida por Louis Braille.

A educação também é tema do evento. Logo na mesa de abertura, o secretário Marcos Belizário destacou a importância do crescimento de bibliotecas adaptadas para necessidades especiais como fator determinante de uma política educacional para a área.

"Nossa ideia é um ter acervo em braille em cada biblioteca municipal", afirma o secretário. A meta é a construção de 9 bibliotecas em braile, com todas as possibilidades arquitetônicas, até o final de 2009. Ao todo, segundo ele, serão 16 bibliotecas com possibilidade de receber o acervo em braile na cidade.

Além disso, Belizário relatou que na cidade de São Paulo existem 4 mil prédios públicos. Destes, apenas 1/3 com condições acessibilidade. O objetivo da prefeitura é criar acessibilidade em todos os prédios públicos da cidade".

O seminário Acesso em Reverso conta em sua estrutura com equipamentos especiais para a participação dos convidados, como aparelhos de escuta e de leitura em braile de todas as mesas de discussão. A interatividade também é viabilizada através do site Livre Acesso, que possui mecanismos de participação em várias linguagens especiais. Além disso, o evento terá transmissão online pelo Fórum Permanente.

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