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Cobertura do Seminário Internacional sobre
Cultura e Acessibilidade
por Guilherme
Varella
Universal, for all!
28/11 - 18h31
A quinta-feira, 26, do seminário
Acesso em Reverso teve muito de pragmática. Na prática,
como a acessibilidade se dá? A comunicação
interpessoal, a arquitetura dos prédios, os dispositivos
de utilidade pública, a sinalização urbana.
Ali, no duro, como isso se dá?
O professor espanhol Francesc Aragall
trouxe exemplos práticos disso na mesa da manhã,
"Paisagem, circulação e acesso". Presidente
da Fundação Design For All, explicou atuação
da organização, presente no mundo, no sentido de
criar um Desenho Universal, que possibilite o acesso de todos
e todas a todos os espaços.
Segundo ele, um desenho com critérios
para que todos possam participar igualmente dos ambientes, espaços,
aparelhos e ferramentas. Critérios equilibrados de construção
dos elementos da sociedade para que todos participem, sem marginalização,
da questão do espaço. De um espaço que seja
seguro, que seja saudável, que promova o uso saudável
dos meios ambientes.
Frances deu alguns exemplos de locais
variados na Europa:
" passarelas de madeira para
acesso ao mar, inicialmente para pessoas com cadeiras de roda
ou carrinhos de bebê. Contudo, como a areia é muito
quente, acaba sendo usada por todos os pedestres;
" parques infantis com brinquedo não apenas de subir
e descer, de locomoção física, mas com outros
elementos sensoriais (cheiros, sensações, sons);
" semáforos sonoros, para os pedestres que não
enxergam, acionados com controles remotos, de maneira que também
não atrapalhem os pedestres ouvintes com excesso de ruídos;
" fontes participativas, com alturas diferentes, para que
possam beber da mesma água pessoas sem deficiência,
cadeirantes, anões, e até animais no chão;
" mosteiros e igrejas com rampas para cadeirantes, inclusive
intervenções mais respeitosas, através de
construções com madeiras.
"Geralmente elementos de acessibilidade são acréscimos
feios, quando se pensa que os espaços querem chamar a atenção
pela beleza", diz Francesc. Se o dispositivo de acessibilidade
é "fotografável", ele não é
bom. Tais dispositivos de acessibilidade são melhores quanto
mais imperceptíveis ou "incorporados" ao ambiente
estão, explica.
Segundo Francesc, a utilidade se une
à estética, mas é mais importante. De com
os trabalhos desenvolvidos pela Design For All, os dispositivos
instalados são importantes não apenas para as pessoas
com deficiência, mas para cerca de 40% da população,
ao menos.
Francesc lembrou ainda a criação da bandeira de
Povos e Cidades para Todos. Lançada na Europa pela Design
For All, ela é entregue a cada município que invista
pelo menos 2% de seu orçamento em melhorias em seu espaço
para a acessibilidade. Um incentivo ao gestor público preocupado
com o Desenho Universal.
Um linguado, Duchamp,
mediação e acessibilidade
27/11 - 16h12

O Linguado
Se muitas vezes fica complicado
para pessoas sem qualquer deficiência entender exposições,
acervos de museus, instalações, quadros e esculturas,
imagine para quem tenha alguma necessidade especial.
Em situações comuns de visitações
a equipamentos culturais, de educação para a história
da arte ou para a museologia, ou mesmo de formação
de público, o processo de interpretação (ou
mediação, como alguns chamam) torna-se essencial.
No caso de pessoas com deficiência,
esse processo tem que ser apurado, alcançar outras dimensões
de aprendizagem e ter metodologias diferentes. Condições
ainda pouco assimiladas pelo "alto" mundo das artes
e das curadorias mundo afora.
No Brasil, então, uma
discussão germinal. Talvez por isso, para a mesa "Interpretação,
mediação e educação: questão
da experiência", dessa sexta-feira, 27, no Acesso e
Reverso, foram recrutados de fora dois especialistas. Um em acessibilidade
física e intelectual ao patrimônio cultural, o espanhol
Antonio Espinosa Ruiz, e a outra em educação e inclusão
cultural, uma das curadoras do renomado museu inglês Tate
Modern, diretamente de Londres, via skype, Caro Howell.

Antonio Espinosa Ruiz - foto Henrique
Alves Barbosa
Ruiz, talvez pela inclinação
ibérica aos frutos do mar, colocou um peixe, um linguado,
no telão. E explicou que o linguado seria o patrimônio.
Cru, sem limpar, parado na estante do supermercado, não
atrai, nem dá vontade de comer. O mediador (cozinheiro?)
pega esse peixe, limpa, tempera, cozinha, enfeita. Deixa saboroso
e convidativo para ser apreciado ou, no mínimo, para despertar
o interesse. A mediação serve para isso: deixar
o patrimônio interessante e saboroso para a apreciação.
Lucia Reily, professora da Unicamp,
abrindo os trabalhos da mesa, mesmo antes do linguado, já
alertava: "quando as informações se tornam
acessíveis para pessoas com deficiência, tornam-se
ainda mais acessíveis para as pessoas que não tem
deficiência". Ou seja, se o prato é convidativo
e acessível até a quem tem mais dificuldade de comê-lo,
ou apenas apreciá-lo, será ainda mais saboroso para
quem está de garfo e faca na mão.

Caro Howell, no telão, façando
de Londres - foto Henrique Alves Barbosa
Na esfera da acessibilidade
para as artes, o desafio, então, é por garfo e faca
nas mãos das pessoas com deficiência. Segundo Caro
Howell, elas "podem ter percepção equivocada
da história da arte se as possibilidades, instrumentos
e informações não forem dadas, para que façam
as conexões possíveis."
E já existem programas
que possibilitam esse tipo de aprendizagem. Na Unicamp, Lucia
Reily desenvolve um programa com crianças surdas, colocando-as
em contato com as linguagens artísticas através
da ampliação do seu repertório simbólico,
da interação entre si e através do aguçamento
dos seus sentidos para as artes.
Caro Howell desenvolveu um programa
paradigmático na Inglaterra. Uma ferramenta virtual de
acesso a acervos e estudo das obras para pessoas com deficiência
visual. É o i-Map, sediado na plataforma do Tate Modern.
Uma proposta de ir além do toque na apreciação
e ensino das obras de arte. A técnica do toque, segundo
ela, se usada isoladamente, reduz as possibilidades de inserção
do cego nesse meio.

A Fonte, de Marcel Duchamp, 1917 -
réplica de 1964
Explica, citando o exemplo da
obra de Marcel Duchamp, "A Fonte", de 1917. A obra é
um urinol, que contesta o valor, o sentido institucional das obras
de arte. Uma obra que, segundo ela, não necessariamente
vai ser apreendida através do toque. Nem faz sentido. Uma
pessoa cega não vai entender mais essa obra tocando-a.
Ela exige, explica a curadora, uma compreensão conceitual,
mesmo para quem não pode vê-la.
Segundo Howell, "A Fonte" explica bem a falsa ligação
existente entre tocar algo e apreender uma informação,
como se fosse algo milagroso. Nem sempre com o toque se tem uma
informação, mesmo para os cegos. Para ela, uma relação
didática não necessariamente verdadeira no campo
da acessibilidade.
Na opinião da curadora,
é preciso que se criem outras formas de interação
com as obras de arte e especialmente de educar para as artes.
Pessoas sem necessidades especiais, com visão e audição
perfeitas, tem mais facilidade em desenvolver técnicas
lúdicas, criar conexões com as obras de artes.
A complexidade aumenta para as pessoas com deficiência,
que devem, conforme Howell, criar suas próprias metodologias
e formas de aprendizado. "Se um intérprete de sinais
não sabe a terminologia da arte, como vai levar essa expressão
aos surdos? O meu trabalho, como mediadora, é começar
a treinar artistas surdos para que eles passem isso através
da educação, traduzir essa linguagem. Criar um processo
para que os surdos tenham um estudo especializado da arte. Criarem
seu próprio processo de transmissão desse conhecimento".
Antonio Espinosa Ruiz, que na
mesma tarde de sexta ministra uma oficina prática sobre
mediação no patrimônio cultural, concorda
e acrescenta: "a mediação tem alguns aspectos
afetivos, não é apenas informação".
Segundo ele, "é necessário tornar o patrimônio
mais vivo quanto possível". Tão vivo e atraente
quanto um linguado pronto, a ponto de ser comido - metáfora
com a devida vênia aos vegetarianos.
Para o espanhol, é preciso
que se amplie o escopo de atuação do mediador, da
interpretação, para que o alcance da arte seja maior.
A simples "necessidade estética", para ele, não
justifica a falta de interpretação. "O visitante
não pode ser espectador, mas cúmplice do patrimônio",
explica, citando o exemplo do museu mais visitado da Espanha,
o museu do time de futebol Barcelona. Talvez por ser o que mais
faça parte da vida de quem o adentrou.
***
Paisagens acessíveis
27/11

Na mesa Paisagem, circulação
e acesso, o arquiteto e urbanista Euller Sandeville Jr.
é enfático ao dizer que paisagem não
é uma realidade visual nem uma simples apreciação
estética.
Abrindo as discussões da manhã da
quinta-feira, 26, o especialista em estruturas ambientais urbanas
destaca o projeto Espirais, que desenvolve na Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, como exemplo de oposição
à padronização das paisagens. Uma proposta
de construção de ambientes a partir de processos
colaborativos, envolvendo inclusive pessoas com deficiência.

Euller Sandeville Jr., arquiteto
e urbanista. foto: Lincoln Yoshihashi
Euller explicou que as pesquisas são realizadas
especialmente com cegos e cadeirantes, nos bairros de Brasilândia
e Heliópolis (São Paulo), comunidades quilombolas
do Vale do Ribeira e até na Zona da Mata (PE, AL, norte
de MG). E se pautam na sensibilização dos indivíduos
em áreas naturais e intervenções em espaços
públicos.
Essa também é a proposta do Grupo
Terra, surgido em 2002. Possibilitar aos deficientes visuais perceber
as paisagens, senti-las, captar suas nuances, criar com elas uma
interação real. A metodologia, entretanto, é
outra. Baseia-se em técnicas de descrição,com
um questionamento sempre presente: como a natureza se torna
acessível para quem não enxerga?
Presente na mesa de projetos e práticas
da quarta-feira, 25, a fundadora Isabela Abreu explica que todo
o trabalho do grupo se baseia na relação 1 para
1: uma pessoa com deficiência visual para uma pessoa que
enxerga. E baseia-se em três pontos: o sentir, a importância
dos outros sentidos, e a descrição como canal.

Isabela Abreu, fundadora
do Grupo Terra. foto: Lincoln Yoshihashi
A descrição é a arte
de transformar imagens e palavras, emoções e percepções
e isso é importante para o deficiente visual. Nesse processo,
é essencial ir além da narração, trazer
emoção à pessoa, explica Isabella.
Segundo ela, atualmente há técnicas
de descrição que possibilitam à pessoa cega
aprofundar sua percepção das coisas. A linguagem
da descrição passa a ser a tradução
do que se vê. Linguagem que ela demonstra em um exercício
prático. de Na plateia, uma pessoa vendada com outra do
lado, enxergando, descrevendo com detalhes a foto que vê
no telão. Os resultados comprovaram a efetividade da metodologia.
Tanto para Euller quanto para Isabella, a deficiência
não é um óbice para apreensão das
paisagens, das cidades, dos espaços. Para Euller, a ideia
é pensar a cidade como espaço de participação
partilhada e experimental. Aprender em ação
com os outros é a chave, diz. A paisagem como experiência
concreta de cada um.
O foco do estudo das paisagens é cultural,
de construí-las e ressignificá-las, principalmente
em áreas de baixo desenvolvimento e onde o preconceito
se desenvolve fortemente, em especial com relação
às pessoas com deficiência.
A beleza não é um fato
em si. É um modo de ver que se aprende. O arquiteto
refere-se à paisagem como uma dimensão clara mas
não exclusivamente estética. Descobrir paisagens,
para ele, é descobrir pessoas que se integram a elas e
vivem suas vidas, emoções, sentimentos.
A paisagem é o ambiente onde vivemos,
construímos valores, identidades e escolhas. É o
lugar onde existimos, relata. Para ele, as representações
da realidade geralmente se satisfazem mais com o retrato do que
com o retratado. É importante atentar para como as pessoas
querem ser vistas na paisagem.
Nesse ponto entra a percepção que
tem a pessoa com deficiência de si mesma na paisagem em
que cria e habita. E a própria percepção
que vai desenvolver da paisagem existente. Um fenômeno sensível
quando se analisa a interação dos cegos na paisagem.
Para muita gente, explica Euller, a paisagem é estritamente
visual. Logo, inacessível para quem não vê.
Ou seja, inexistente para os cegos.
Na prática, o que ocorre é o contrário,
conta Isabella. Basta dar oportunidade aos deficientes visuais.
Se você acha algo bonito, uma pessoa cega também
pode achar. Se você é apaixonado pelo pôr-do-sol,
uma pessoa cega também pode se apaixonar. Mas ela também
pode não gostar. O que temos que fazer é dar a oportunidade.
E cabe à pessoa com deficiência decidir se vai gostar
ou não.
***
As andanças
de Pazé
26/11 - 16h16

O "transeunte" Pazé, na entrada da estação
Sé do metrô.
Pazé já andou
bastante por aí. Caminhou. Subiu e desceu os prédios
do centro de São Paulo. Parou em camelôs, passou
por batidas policiais. Pegou ônibus e metrô. Tudo
isso sem poder andar. Tudo isso numa cadeira de rodas já
há 25 anos.
Pazé é um artista
plástico paraplégico que soube retratar a realidade
de quem vive sozinho, com necessidades especiais, trabalhando
com cultura em plena da cidade de São Paulo. A grande e
árida São Paulo, mesmo para quem se locomove livremente.
Como ele, de alguma forma, se locomoveu.
Na mesa "Paisagem, circulação
e acesso", do seminário Acesso e Reverso, na manhã
dessa quinta, 26, Pazé apresentou sua intervenção
urbana "Transeunte", de 2002. Uma forma de chamar a
atenção para vários problemas da metrópole.
O local escolhido foi o centro,
região extremamente movimentada , por onde os trabalhadores
mais passam e fazem baldeação do que propriamente
vivem. Um local de locomoção por excelência,
para onde vão, para continuarem se locomovendo.
O "transeunte" Pazé
era um boneco, em tamanho natural, instalado nas ruas e prédios
através de uma estrutura de metal. De cadeira de rodas?
Não. Em pé. Numa postura de quem caminha. De quem
está sempre caminhando.

Pazé, em meio a uma blitz
policial (ele está bem atrás do segundo motociclista).
Instalado em vários pontos
estratégicos do centro, como ruas de grande circulação,
terminais de ônibus, prédios públicos, estações
de metrô, o boneco "acompanhava" a trajetória
diária de milhares de transeuntes. Acabava, de alguma forma,
por caminhar com eles, de um ponto para outro. Algo esplêndido
para o cadeirante Pazé, que não anda, mas que mantém
um cérebro andarilho, que sonha todas as noites com as
pernas do Pazé, transitando por aí.
O boneco causava estranhamento.
Chamava a atenção para si. Tinha literalmente a
cara do dono. Interagia com as pessoas. Questionava, ali no meio
da multidão, a relação do indivíduo
com a cidade, os caminhos diários que cada um fazia, e
o próprio transporte público. Segundo Pazé,
São Paulo conta hoje com 3 mil ônibus adaptados para
pessoas com deficiência, contra apenas 800 há alguns
anos atrás.
Para ele, a intervenção
lhe possibilitou "caminhar" com o fluxo de homens e
mulheres, por cerca de 12 a 14 horas diárias, durante 30
dias no centro da capital. E, mais que isso, possibilitou que
fosse visto por essas pessoas, a grande dificuldade para quem
possui alguma deficiência.
"Hoje, lutamos para que
sejamos "visíveis". São 1,5 milhão
de pessoas com deficiência em São Paulo. E a maioria
não consegue sair de casa. Parece que somos invisíveis
na cidade", relatou. E o problema não está
só na esfera publica, no acesso às ruas e equipamentos
culturais, mas igualmente na esfera privada.
Ele nutre a utopia de que qualquer
casa ou apartamento seja acessível às pessoas com
deficiência. "Moro sozinho. Queria alugar um para mim.
Fui a 48 apartamentos de um quarto. Em nenhum dele eu consegui
entrar". Um fato sintomático sobre como são
afetadas a independência e a autonomia de um cadeirante.

O boneco na sacada de um prédio
do centro de São Paulo.
Atualmente, quando pedem uma
foto do Pazé, para as muitas exposições nacionais
e internacionais que o artista realiza, ele recorta a cabeça
do boneco. Uma foto de corpo inteiro, vai o boneco todo. Para
Pazé, uma forma de lidar com a representação
que o "transeunte" traz, em todas as dimensões:
de identidade, de acessibilidade, de indivíduo, de relação
com o espaço, de pertencimento à cidade.
Militante da causa das pessoas
com deficiência, faz questão de lembrar a gama de
profissionais essenciais ao desenvolvimento dessas pessoas: médicos,
enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, designers.
O artista Pazé foi parar no alto de um dos maiores prédios
de São Paulo. No alto, para ser visto. E para que sejam
vistos todos os cadeirantes e pessoas com qualquer deficiência.

No alto de um prédio
do centro da cidade.
***
Por uma cultura de acessibilidade
sem massificação
25/11 - 13h13
Para o acesso à mesa de discussão,
uma rampa para cadeirantes. Nas paredes ao lado da plenária,
excertos literários de obras dos convidados, montagens
fotográficas de pessoas com deficiência visual e
aparelhos de escuta especial. Ao lado da mesa - de onde se lê
Acesso em Reverso um telão captando
imagens de Cambridge, na Inglaterra, de onde disparava a imagem
de um professor:

Martin Grossmann, à esquerda,
e Nicolau Sevcenko, à direita, no telão.
A cultura de acessibilidade é viável
em termos racionais.
A fala é de Nicolau Sevcenko, professor
de História da Cultura da USP, iniciando a discussão
sobre a diferenciação entre os conceitos de acesso
à cultura e cultura de acessibilidade.
Para uma platéia com poucas pessoas com
deficiência, na manhã de quarta-feira, 25, o professor
explicava que a discussão sobre acessibilidade no Brasil
chegou tarde. A primeira ação governamental nesse
sentido se deu com a implantação de calçadas
horizontais mais lisas, pelo então prefeito de São
Paulo Jânio Quadros, na década de 80. A ação
causou polêmica, já que muitos moradores viam a calçada
como patrimônio privado.
O tema foi debatido pelo professor de História
da Filosofia da USP Peter Pál Pelbart, com mediação
do diretor do Centro Cultural São Paulo (CCSP) Martin Grossmann.
Pelbart fez a relação da cultura
de acessibilidade com a noção do comum
na sociedade, do seu domínio e suas formas de representação.
Segundo ele, o comum é um reservatório de
singularidades numa variação contínua.
Uma idéia que envolve pensar a constituição
de um corpo múltiplo, composto de relações
específicas e diferenciadas de velocidade e lentidão.
Pensar a consistência desse conjunto.

Peter Pál Pelbart.
Para ele, é essencial pôr em
comum o que é comum, colocar para circular o que
é patrimônio de todos. Ou seja, pensar como esse
conjunto se estrutura com a multiplicidade e o pertencimento coletivo.
Ideia convergente com o pensamento de Sevcenko,
para quem é preciso a transformação
de uma cultura homogeneizadora para uma cultura de singularidades
e diferenças. Uma nova mentalidade a partir desses novos
elementos heteróficos.
Parece ser esse o desafio na criação
da cultura de acessibilidade no país, para além
do simples acesso à cultura, como realização
dos direitos culturais. O acesso à cultura, segundo Sevcenko,
depende de condições sociais, econômicas,
educacionais, geográficas.
A cultura de acessibilidade incorpora, ainda, a
estética do acesso, de descentralização
cultural, disseminação, dispersão, autonomia
o chamado do-it-yorself, o faça-você-mesmo,
advindo da Inglaterra, da década de 70.
Além disso, Sevcenko lembra que é
imprescindível, nesse processo, pensar a educação
de forma não massificante, mas pensar em categorias especiais.
A questão do treinamento dos educadores é
um elemento decisivo na construção de uma sociedade
mais orgânica, integrada, justa e humanizada, destaca.
Para as ações governamentais e para
a elaboração de políticas públicas,
não-massificação e heterogeneidade
são palavras-chave. Pelbart reforça esse entendimento,
usando as ideias de Antonio Negri e Giuseppe Cocco. Multidão
é o contrário de massa. Massa é um compacto
homogêneo, submetida a um líder. A multidão
é uma multiplicidade subjetiva.
A multidão, para ele, seria uma dinâmica
entre o comum e o singular. Entre o padrão e a variação.
Assim deveria ser pensada a sociedade, à luz do debate
sobre acessibilidade, não através do modelo da fusão,
e sim à luz da heterogeneidade.

Martin Grossmann.
Martin Grossmann amarra as idéias dos convidados:
a cultura tem reagido a outras formas de conhecimento, de
apreensão do mundo. Há uma evolução
disso para uma relação mais instigante de compreensão
do mundo, de configuração geopolítica. E
nessa modelação de cultura global conectada, há
uma inquietação fundante com a questão da
acessibilidade.
***
Seminário
do CCSP lança olhar sobre cultura de acessibilidade
25/11 - 16h16

foto: Lincoln Yoshihashi
Teve início na manhã
dessa quarta-feira, 25, no Centro Cultural São Paulo (CCSP),
o Seminário Internacional de Cultura e Acessibilidade -
Acesso em Reverso. O encontro debaterá, até sexta-feira,
27, questões relacionadas ao acesso à cultura por
pessoas com deficiência e com mobilidade reduzida.
A mesa de abertura do seminário
foi composta pelo diretor do Centro Cultural São Paulo,
Martin Grossmann, pela diretora do Centro Cultural da Espanha
em São Paulo (AECID), Ana Tomé, e pelo secretário
municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida,
Marcos Belizário.
Os integrantes chamaram a atenção
para a necessidade de políticas públicas efetivas
de acessibilidade. O secretário Marcos Belizário
destacou o programa desenvolvido pelo Metrô, inclusive pela
estação Vergueiro, ligada ao CSSP, que garante condições
de acesso a cadeirantes, pessoas com deficiência visual,
auditiva e portadores de necessidades especiais.
Belizário afirmou a importância
do seminário para pensar políticas para São
Paulo. Colocou como exemplo o fato de a cidade possuir 30 mil
km de calçadas e a quase totalidade delas ser inviável
para o trânsito de pessoas com alguma deficiência.
Para a solução desse problema, a prefeitura estuda
uma espécie de contribuição de melhoria a
ser cobrada para a manutenção das calçadas.

Andrey Lemes da Cruz
(tradutor de Libras), Ana Tomé, Marcos Belizário
e Martin Grossmann. foto: Lincoln Yoshihashi
O seminário, organizado pelo
CCSP em parceria com o Centro Cultural da Espanha em São
Paulo, trouxe a necessidade de articulação dos diversos
órgãos, secretarias e organizações
para a promoção de ações integradas
de acessibilidade e para a criação de uma nova cultura
de tratamento da pessoa com deficiência.
"Estamos de mãos dadas nessa aventura de ampliação
de horizontes no mundo da cultura que construímos",
disse Martin Grossmann, que ressaltou que "para a acessibilidade,
a transformação deve ser cultural e não apenas
física, arquitetônica. Isso faz parte da política
cultural do CCSP."
Ana Tomé afirmou que o Centro
Cultural da Espanha empenha-se na construção de
uma rede de cooperação internacional para a realização
dos direitos culturais das pessoas com deficiência. Tomé
afirmou que o seminário é "uma boa oportunidade
de reunir técnicos artistas e intelectuais, bem como pessoas
com deficiência para que se trate de conceitos, políticas
e filosofias, mas para que tudo que seja discutido se volte às
necessidades reais dessas pessoas".
Em seus três dias, o seminário
Acesso em Reverso discutirá temas como cultura e acessibilidade
e acesso à cultura; paisagem, circulação
e acesso; e dimensões de acesso aos bens culturais. Haverá,
ainda, oficinas nos períodos da tarde, e um concerto didático,
no sábado, 28, com apresentação de um sistema
de notação musical para deficientes visuais concebido
com o sistema de escrita desenvolvida por Louis Braille.
A educação também é tema do evento.
Logo na mesa de abertura, o secretário Marcos Belizário
destacou a importância do crescimento de bibliotecas adaptadas
para necessidades especiais como fator determinante de uma política
educacional para a área.
"Nossa ideia é um ter
acervo em braille em cada biblioteca municipal", afirma o
secretário. A meta é a construção
de 9 bibliotecas em braile, com todas as possibilidades arquitetônicas,
até o final de 2009. Ao todo, segundo ele, serão
16 bibliotecas com possibilidade de receber o acervo em braile
na cidade.
Além disso, Belizário relatou que na cidade de São
Paulo existem 4 mil prédios públicos. Destes, apenas
1/3 com condições acessibilidade. O objetivo da
prefeitura é criar acessibilidade em todos os prédios
públicos da cidade".
O seminário Acesso em
Reverso conta em sua estrutura com equipamentos especiais para
a participação dos convidados, como aparelhos de
escuta e de leitura em braile de todas as mesas de discussão.
A interatividade também é viabilizada através
do site Livre
Acesso, que possui mecanismos de participação
em várias linguagens especiais. Além disso, o evento
terá transmissão online pelo Fórum
Permanente.
***
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