Radioatividade

Poucos meses depois da inauguração em 13 de maio de 1982, a jornalista Magaly Prado chegou ao Centro Cultural São Paulo com o desejo de trabalhar na área de audiovisual. Junto ao fotógrafo João Mussolin, então coordenador da Equipe Técnica de Recursos Audiovisuais, propôs a criação de uma rádio que sonorizasse todo o ambiente do edifício por que se encantara ainda na Assessoria de Imprensa da Secretaria Municipal de Cultura.

A ideia de implementar um sistema de som interno surgiu a partir das particularidades do espaço do CCSP. Um local cuja arquitetura aberta, transparente e vazada permite a fluidez de movimento, luz e som merecia uma rádio. Com a ajuda do técnico Matsuda, Magaly elaborou o projeto de distribuição das caixas de som pelo Centro Cultural e assumiu a coordenação da rádio, cuja equipe era formada, a princípio, por colaboradores de outras áreas, pois não constava do organograma. Entre os muitos que fizeram parte dela, estão a atriz Tuna Dwek, o poeta Philadelpho Menezes e o músico Jai Mahal.

A preferência pelo independente e o desconhecido se manifestaria como reflexo da própria vocação do CCSP como espaço de valorização da produção artística e cultural não convencional. A programação da Radioatividade, nome pelo qual ficou conhecida a equipe sob coordenação de Magaly, tinha como principal eixo o diálogo com as atividades realizadas no CCSP. Outro núcleo de igual importância se dedicava à extroversão de novas bandas e artistas da cena musical independente da década de 80. Grupos como Inocentes, Violeta de Outono, Ira!, 365 e Fellini tiveram suas músicas "espalhadas" pelos espaços do CCSP e se apresentaram a convite da Radioatividade no início de suas trajetórias. "O primeiro show do Legião Urbana para o grande público em São Paulo foi no CCSP, em 1984, via Radioatividade", lembra Magaly.

Além de promover apresentações musicais, debates e programas de auditório na Sala Adoniran Barbosa, a equipe recebia diariamente fitas demo para audição. Parte do material bem avaliado integrava a programação da rádio e dos shows na Adoniran. "Ouvindo uma das fitas, caiu na minha mão uma gravação da banda Cidade Negra, praticamente desconhecida naquela época. Mas não pudemos trazê-la do Rio ao Centro Cultural pela falta de dinheiro", conta Rita Daher, integrante da equipe de rádio do CCSP desde 1987, após participar de um curso radiofônico oferecido pelo CCSP.

Trazer à tona - além da nova produção musical - obras e artistas desconhecidos era outro propósito da Radioatividade. Por isso, a pesquisa no amplo acervo da Discoteca Oneyda Alvarenga foi desde o início fundamental - e o aprofundamento nesse acervo é uma das prioridades da atual Web Rádio do CCSP. O garimpo na Discoteca favoreceu, inclusive, a parceria da Radioatividade com a Rádio USP FM, iniciada em 1984.

Semanalmente, ao longo de 10 anos, a equipe da Radioatividade ia até a USP para gravar o programa transmitido pela emissora aos sábados. O projeto inicial dedicado à música dos anos 90 não foi aceito em 1984 pela coordenação da USP FM, que propôs um panorama das décadas de 60 e 70 e, em seguida, programas de temática livre, cujos principais materiais de apoio provinham do acervo da Discoteca e das gravações de artistas e bandas emergentes que chegavam à Radioatividade. Primeiras produções da parceria, as séries Os anos 60 - A década explosiva e Radiografia 70 iam além de uma síntese do cenário musical de cada período. Voltavam-se a temas e discussões artísticas e políticas daqueles 20 anos de história brasileira, desde uma reflexão sobre o teatro brasileiro na década de 60 até a análise do governo Médici. Segundo Magaly, o programa levado ao ar semanalmente na USP FM só perdia em audiência para O samba pede passagem, de Moisés da Rocha. "Éramos o 2º lugar na USP FM. Fazíamos tudo com muito afinco. Por isso, dava tão certo".

Saiba mais sobre a Radioatividade e a Web Rádio do CCSP no audiodocumentário - a ser lançado em breve - produzido especialmente para este espaço.