Ikebana no CCSP

Coincidentemente, quando completava 30 anos, em 1990, a Associação Kado Iemoto Ikenobo iniciou no Centro Cultural São Paulo uma exposição de Ikebana que, desde então, passou a se repetir constantemente no CCSP e tornou-se tradição no calendário da instituição. Em 2012, aniversário de 30 anos do CCSP, a exposição de Ikebana não poderia faltar e teve lugar no Espaço Missão, nos dias 30 e 31 de agosto e 1º e 2 de setembro. Confira a entrevista com a atual presidente da Associação, Kazue Takada, que compartilha um pouco da história da arte do Ikebana e fala da participação nas comemorações de 30 anos do CCSP.

O que significa Ikebana?
IKE significa “vivo” e BANA significa “flor”. Começamos escolhendo o vaso, depois as flores e as folhas. E não é recomendado escolher mais de uma flor considerada importante, como rosas e orquídeas. Se escolher rosa, então as flores que acompanham devem ser menos chamativas. É como um vestido - se exagerar nos acessórios, a parte principal morre. A escolha das flores reflete na personalidade das pessoas. Uma pessoa que é singela não vai conseguir escolher uma flor forte, não combina.

Existem estilos ou tendências diferentes de arranjo?
Existem três formas de Ikebana. O estilo clássico é o mais antigo e precisa utilizar no mínimo nove variedades de flores. É um trabalho mais detalhado e difícil, ele tem mais regras para seguir, como uma cartilha. Quando se refere ao clássico a ideia é sempre que se pense em paisagem. Já o intermediário é pós-guerra, é mais simplificado, o arranjo é menor e utiliza, no máximo, três elementos. O estilo moderno é variado e mais simplificado. Ele pode ser o arranjo natural, que utiliza o material em sua forma original, ou o livre, que permite alterar a forma natural dos elementos.

O que é a Associação Kado Iemoto Ikenobo?
A Associação Kado Iemoto Ikenobo existe há 550 anos e foi fundada no Brasil em 1960, quando um professor e aprendiz de monge veio da escola matriz, em Kyoto (Japão), para visitar um templo. Ele conheceu uma senhora e a ensinou a arte de Ikebana, surgindo, então, a ideia de abrir uma escola, por volta de 1957, em São Paulo. A Associação tem essa finalidade, de ser uma escola. A sede fica na Avenida Liberdade onde até hoje são realizadas as atividades. Na época da fundação, foram formados grupos de professores de vários lugares e as escolas começaram a se expandir. Mas são outras escolas, não são consideradas filiais, pois a Associação é uma só, somos pioneiros. Lá no Japão também foram criadas outras escolas, que nasceram do Ikenobo, por divergências de opinião. No Brasil, a nossa é mais antiga, faz 52 anos em 2012. E todo ano vem um professor do Japão fazer reciclagem com os professores.

Qualquer pessoa pode aprender Ikebana?
Toda pessoa pode aprender Ikebana, eu ensino Ikebana em um colégio particular para crianças a partir dos 5 anos de idade. Na nossa escola têm professores com mais de 80 anos, tem uma senhora de 92 anos que parou há 2 anos porque a cabeça já não acompanha. Mas o Ikebana não tem fim. É uma arte. O grão-mestre está sempre elaborando novos estilos, inovando com outros materiais...

Como começou a parceria com o Centro Cultural São Paulo?
Em 1990, quando a associação estava completando 30 anos, a então presidente, que sempre comemorava em clubes japoneses, não conseguiu espaço. Foi quando o deputado estadual Getúlio Hanashiro sugeriu o CCSP. E aqui tem sido um lugar muito interessante, de pessoas que circulam, que gostam de cultura, gostam de estudar... O grão-mestre adorou a construção do prédio e a Praça das Bibliotecas, onde acontecia a exposição, porque além de bonito dá para ver por todos os lados, por não existir paredes, e pela iluminação natural. O Espaço da Missão, lugar atual, também é muito bom. Tem o vidro, a vitrine, que convidam as pessoas a entrar. 

O arranjo de Ikebana é feito somente para exposições?
O arranjo de Ikebana não é necessariamente destinado a uma mostra, o arranjo pode ser feito para sua família, para sua casa, e não só para expor. É voltado para a formação do homem, então, tem que fazer de coração, não pode entrar o ego. Tem gente que tem o ego muito forte e quando a gente olha o arranjo logo vê que não foi feito com o coração, percebe que foi por exibição. Em algum ponto do arranjo ele extrapolou, exagerou, e o Ikebana não é para exagerar, é para mostrar a beleza.

A prática do Ikebana pode ser considerada terapêutica ou educativa?
A escola Ikenobo ensina que o homem está em primeiro plano, porque o Ikebana é para a formação do ser humano. Explica que não é só para fazer um arranjo, é preciso educar o homem na natureza. Nós sempre ensinamos a fazer o arranjo com a altura das flores alternada, pois o meio, entre uma altura e outra, significa respeito, e essa é a mensagem educativa que tentamos passar. Para viver em sociedade é preciso ter respeito com o outro. Também é uma boa terapia, pois enquanto você pensa na escolha dos vasos, das flores e na combinação das cores, galhos e folhas, você se esquece das preocupações. E ao terminar, você está com a cabeça mais leve.. 

Com relação ao público do CCSP, tem algo que te chamou a atenção?
Conversei com uma senhora e ela disse que iria acompanhar todas as atividades para passar o dia aqui. E o pessoal que circula aqui tem outra cabeça, é mais culto, não é aquela troca de receitinha. Para nós está sendo gratificante poder expor num lugar assim. Nós não queremos divulgar só para japoneses, tem muita gente que já ouviu falar, mas nunca viu um arranjo de Ikebana. Muitas pessoas que nunca tinham visto perguntavam se as flores eram artificiais. Fizemos um livro de assinaturas e tinha gente do Rio Grande do Sul, Florianópolis, Estados Unidos, Canadá, Bolívia. Outra coisa que me chamou a atenção foi um casal de meia idade: ela chamava o marido para ver a exposição, mas ele queria ficar olhando as meninas que dançam nos corredores.

Por falar em adolescentes, qual é sua experiência com os jovens?
Infelizmente, são poucos jovens que aprendem o Ikebana. Eu dou aula em uma escola particular para crianças do 1º ao 9º ano. Os pequenos fazem tudo que a gente pede, mas os adolescentes de 13, 14 anos, são mais desinteressados. Para motivá-los, eu promovo competições e tem dado certo, mas como o jovem se cansa rapidamente da rotina, eu preciso renovar sempre.

Nessa edição foi realizado um trabalho inédito com deficientes visuais. Como foi essa experiência?
Foi impressionante a participação deles. A Maria Helena Chenque, curadora de Programas Acessíveis, pediu que fosse realizada visita monitorada com eles à exposição. Consideramos arriscado porque tem vasos e galhos grandes e isso poderia machucá-los. Então, sugerimos que eles participassem da oficina. Foi uma experiência inédita e foi um sucesso. A gente explicava a montagem e com as mãos eles escolhiam os materiais. Percebemos a sensibilidade deles e foi muito gratificante para nós, acho que foi a primeira vez que uma oficina de Ikebana foi feita para deficientes visuais.
Foi impressionante a participação deles. A Maria Helena Chenque, curadora de Programas Acessíveis, pediu que fosse realizada visita monitorada com eles à exposição. Consideramos arriscado porque tem vasos e galhos grandes e isso poderia machucá-los. Então, sugerimos que eles participassem da oficina. Foi uma experiência inédita e foi um sucesso. A gente explicava a montagem e com as mãos eles escolhiam os materiais. Eles fazem melhor que as pessoas que enxergam, pois notei que montar um arranjo com os olhos fechados você imagina melhor. Percebemos a sensibilidade deles e foi muito gratificante para nós, acho que foi a primeira vez que uma oficina de Ikebana foi feita para deficientes visuais

E a oficina de caligrafia?
Também foi um sucesso. Era para 20 pessoas, mas foi chegando mais gente... A grafia japonesa começou com desenhos, é baseada em simbologia, como o desenho de uma árvore, de um pássaro, por exemplo. O professor ensina alguns símbolos e as técnicas de como deslizar o pincel no papel, que é bem fino, feito de arroz. Mesmo uma pessoa que nunca viu consegue fazer. E os ocidentais escrevem mais bonito, porque eles não têm medo de errar, diferente dos orientais, que por medo de errar fazem uma letra mais tímida.

Vocês se consideram parte dos 30 anos do CCSP?
Como participamos com a exposição de Ikebana há 22 anos, nos consideramos parte da história do CCSP, é uma parceria que deu certo. Todo ano nós fazemos os arranjos em homenagem ao diretor e ao secretário. Mas, esse ano, nós convidamos o diretor Ricardo Resende para fazer o próprio arranjo e ele aceitou e mostrou muita sensibilidade. Nós temos intenção de participar, com prazer, dos próximos 30 anos do CCSP. Temos uma pequena raiz que está brotando. Aqui é um lugar especial e fazemos a exposição com orgulho.