Quem fez, quem faz

Ricardo Moreira Rodrigues esteve em contato com o Centro Cultural das mais diversas formas - usuário, estagiário, funcionário e contratado como artista. Nesta entrevista, o ator conta um pouco dessa trajetória e compartilha as lembranças que guarda de cada uma dessas fases.


  Quando e como você começou a trabalhar no Centro Cultural?
Em 1994, na Divisão de Artes Cênicas. Eu era estudante de educação artística com habilitação em artes cênicas e fui estagiário por dois anos até ser contratado como assistente de programação de teatro infantil, passando depois para teatro adulto.


  Como foi seu primeiro contato com o CCSP?

Eu conheci o CCSP em 1989, aos 14 anos. Nessa época, comecei a me interessar por expressão corporal. Eu vim de Guaianases e a minha prima me trouxe aqui. A minha sensação foi de encantamento mesmo, de ver ferro e vidro em pé, livros, palcos e uma arena, tudo no mesmo lugar. Imagina, eu com 14 anos via o mundo lá de baixo ainda, então o CCSP era gigante, era muito impressionante. A partir daí, vim várias vezes assistir a espetáculos e usar a biblioteca. Até chegar a estagiário eu já era íntimo do CCSP.


  Como foi a transição de estagiário para funcionário?

Um pouco antes de o estágio terminar, fui consultado sobre o interesse em trabalhar aqui de uma forma muito indireta pra não causar expectativa. Durante o meu estágio, eu tive que organizar uma pilha de programas e cartazes de eventos. Demorei meses pra arquivar tudo, mas adorei, eu lia tudo! Depois, conheci os artistas, núcleos e espetáculos sobre os quais eu tinha lido e que voltaram pra cá. Fiquei muito integrado. Por isso, o desligar foi difícil, eu estava acabando a faculdade e não tinha emprego. Quando acabou o estágio, foram 40 dias de expectativa, eu fiquei na expectativa de voltar, eu queria.


  O que significou para você esse convite para se tornar funcionário?

Por eu ser de periferia, minha educação era a da carteira profissional, do compromisso, do INSS, da aposentadoria. Isso é o que o pai ensina, o que ele conhece. Então, acabando o estágio, veio a aflição: "o que eu vou fazer agora?". O Centro Cultural me mostrou quem era a categoria artística daquele momento, o que ela estava fazendo, as linguagens que surgiam e, a partir daí, quais eram as linguagens que me interessavam. E isso foi me fomentando, me formando.


  Como foi a saída do CCSP?

Foi por causa daqui que eu saí daqui, no bom sentido. Uma das produções que passou pelo Centro Cultural foi o Circo Mínimo, do Rodrigo Matheus. Ele me convidou pra fazer administração e produção para ele. Então, eu topei, troquei de horário aqui, eu fazia lá das 9h às 12h, e aqui das 13h30 até as 21h. Ou seja, eu tinha dois trabalhos, morando em Guaianases, indo para a Lapa e voltando aqui pro Paraíso. Quando saí daqui, fui muito questionado. Falavam: "Como assim? Você está na Prefeitura, a Prefeitura é para sempre". Mas eu fui.


  Você saiu do Centro Cultural como funcionário, mas manteve um vínculo, e voltou como artista. Como foi isso?

Eu voltei em 2002, quando fiz a primeira temporada aqui, na sala Jardel Filho, do espetáculo Babel. Depois disso, em 2003, eu participei do Este Mundo é Meu! A primeira pessoa que me recebeu aqui foi o Tonhão, Antônio Andrade, ator que trabalhava como administrador das Artes Cênicas. Ele faleceu de um ataque cardíaco fulminante ao carregar um cenário. Imagina, com 60 anos carregando cenário! Precisa? Não precisa, mas também não precisa abandonar. Sabe fazer? Precisa de alguém para carregar o cenário? Carrega! Isso o circo faz belamente, montar sua lona, pôr serragem no picadeiro, fazer seu espetáculo, desmontar e ir para o trailer.


  Você viveu muitas histórias aqui, não? Conte alguma que tenha te marcado.

Em uma das versões do Este Mundo é Meu!, eu vim fazer uma invasão de palhaços - eram sete palhaços em todo o Centro Cultural. Eu escolhi a Biblioteca. Trouxe uma bicicleta verde gigante, enchi de bexigas laranja e fiquei passeando. Na Biblioteca, todos os códigos são muito claros: deixe sua bolsa, entre, olhe o seu livro, sente, estude, entregue e saia. Em silêncio. Tem que ser assim pra funcionar, mas eu estava numa condição em que podia quebrar alguns códigos. Claro, alguns não estavam a fim, outros compraram o jogo. Aos poucos, as pessoas saíam do seu livro, viam que estava acontecendo algo diferente, curtiam e voltavam pra sua leitura. Isso tudo tinha um tempo certo para não prejudicar a pesquisa de ninguém.


  Você se sente parte da história do Centro Cultural?

Que honra, será que eu posso me sentir parte? Eu quero me sentir parte. Foi transformador pra mim. Eu poderia estar em Guaianases ainda, dando aula de educação artística. Eu devo muito a essa etapa daqui. Sim, eu me considero parte. E ficou muito do Ricardinho aqui.