Quem fez, quem faz

Marisa Nunes
começou a fazer estágio no Departamento de Informação e Documentação Artísticas (Idart) em 1980. Integrou a Divisão de Pesquisas do CCSP e atualmente trabalha no Arquivo Multimeios. Na entrevista abaixo, ela fala sobre a sua relação profissional e afetiva com o espaço e lembra momentos e pessoas que marcaram sua trajetória no CCSP.

  Como você começou a trabalhar no Centro Cultural?
Eu cursava Biblioteconomia e comecei a fazer estágio em 1980 no setor de microfilmagem do Departamento de Informação e Documentação Artísticas (Idart), que funcionava na Casa das Retortas. Em 1982, o Idart foi incorporado ao Centro Cultural São Paulo, e o Centro de Pesquisas do Departamento passou a ser denominado Divisão de Pesquisas. Fui contratada no ano seguinte e passei a trabalhar no atendimento ao público do Arquivo Multimeios, ainda nas Retortas. Era muito gostoso. Eu lembro que o cenógrafo J.C. Serroni fez uma pesquisa no acervo procurando registros fotográficos que ele tinha feito de alguns espetáculos. Ele foi super gentil, chegou a me trazer uma caixinha de chocolate. Eu atendi a Tônia Carrero, o Marcos Frota também, um monte de gente. Quando a Divisão de Pesquisas foi transferida fisicamente para o CCSP em 1992 é que vim trabalhar aqui. Mas, antes disso, eu já vinha das Retortas para fazer convocação no Centro Cultural. Fiquei uns três anos na Equipe de Fotografia, depois fui para a Equipe de Artes Cênicas da Divisão de Pesquisas. Voltei para o Arquivo Multimeios (vinculado, atualmente, à Divisão de Acervo, Documentação e Conservação do CCSP) em 2000, a convite da coordenadora do acervo, Marta Regina Paolicchi. Sou responsável, desde então, pelo dossiê. Faço a indexação dos materiais mantidos pelo Arquivo Multimeios. Além disso, atendo também pessoas que querem conhecer o nosso acervo. Faço uma visita guiada, contando toda a nossa história.

  O que você pode dizer do público do Centro Cultural? O perfil das pessoas que vêm pesquisar o acervo do Arquivo Multimeios é o mesmo nesse tempo todo que você está aqui ou houve algum tipo de mudança?
Teve uma mudança, sim. Antigamente, quem consultava o acervo era um público formado principalmente por estudantes do 2º grau. Eram raros os pesquisadores de formação mais específica. Agora, nós temos muita procura da classe artística e de pesquisadores de arte. Isso porque há um reconhecimento da qualidade do material que nós temos. Eu costumo falar que o Arquivo Multimeios tem, por exemplo, o melhor acervo de fotografias em preto e branco de teatro do Brasil.

  Houve algum evento especificamente marcante para você?
Sim, vi muitos espetáculos que me marcaram, como Quadri Matzi, com a Cristiane Paoli-Quito e a Companhia Dramática; Elas por Ela, com a Tônia Carreiro; uma montagem de O Diário de Anne Frank que trouxe muito público ao Centro Cultural; Áulis, com o Celso Frateschi, um dos espetáculos mais bonitos que já passaram por aqui; A Gaivota, dirigido pelo Francisco Medeiros, além de vários concertos da série Clássicos do Domingo e peças infantis interessantíssimas que vi com a minha filha. Teve também o monólogo Sonata Kreutzer, com o Luís Melo, muito interessante. Eu brincava dizendo que queria conversar com ele. Uma vez o Tonhão, que trabalhava na Divisão de Artes Cênicas, me pegou e chamou o Luís Melo pra conversar comigo, eu fiquei morrendo de vergonha, era muito envergonhada. Só sei que ele me beijou e foi muito marcante essa passagem pra mim. Trabalhar aqui dá a oportunidade de você conhecer muitas pessoas interessantes.

  Como você se sente nas comemorações dos 30 anos do Centro Cultural?
Eu cresci aqui, são mais de 20 anos no Centro Cultural, então a gente se sente meio dono desse espaço, né? É a minha segunda casa, eu me sinto muito à vontade, nem gostaria de me aposentar. Eu me envolvo com todo mundo e me sinto orgulhosa do que eu tenho a oferecer para as pessoas. Tenho amizade com o pessoal de rua que vive aqui, cumprimento, respeito, dou “até logo”, porque são todos “de casa”. As pessoas me perguntam: Você trabalha no Centro Cultural São Paulo? E eu respondo: sim, trabalho lá e adoro o que eu faço. Eu me orgulho de dizer que trabalho no CCSP e as pessoas gostam de saber que eu trabalho aqui. Eu tenho uma amiga do interior que é muito inteligente, antenada e vive falando do Centro Cultural. Ela acha espetacular que eu trabalhe aqui.

  Você conheceu seu marido no Centro Cultural, não conheceu? Quem é ele?
Meu marido é o Nelson de Souza Lima, que trabalha atualmente na Assessoria de Imprensa (Divisão de Informação e Comunicação). Ele trabalhava na seção de almoxarifado e eu ia sempre tomar um cafezinho com ele lá. Ele gostava muito de rádio, fez curso de locução e passou para a equipe de rádio do CCSP. Entre idas e vindas, começamos a ficar juntos mesmo em 1995 e em 1996 nos casamos. Temos uma filha de 14 anos, a Letícia, que frequenta o CCSP desde pequenininha. Ela é cria daqui.

  A gente sempre tem alguém que fez a diferença na nossa vida. Tem alguém aqui do Centro Cultural que fez a diferença na sua vida?
A Maria Thereza Vargas. Eu a vejo como minha mãe. Tudo que eu sei de pesquisa foi ela que me ensinou. Ela é a diferença na minha vida, sempre será, sem dúvida nenhuma. O Lineu Dias também, ele era como um pai pra mim aqui dentro. Certa vez, ele estava fazendo um espetáculo em que o personagem dele era um vaqueiro caipira. Como eu sou do interior, a gente ficou dias falando “caipirês” para ele treinar. Foi muito divertido.

  A experiência no Centro Cultural transformou você de alguma maneira?
Eu vim para São Paulo com 18 anos, fiz vestibular e acabei passando. No interior não tinha nem cinema na época em que eu saí de lá. Eu era caipira, tinha acabado de passar por uma cirurgia do coração. Quando eu cheguei aqui, tudo me deslumbrou e me abriu os horizontes: a cidade, a faculdade, o Centro Cultural. Eu costumava olhar muito para baixo e aqui eu senti que eu comecei a olhar para cima. O Centro Cultural me fez olhar para o horizonte.