Quem fez, quem faz

Eliane Aída Espindola Correa, mais conhecida como Lili, está no Centro Cultural São Paulo desde que ele foi fundado, em 1982. Acompanhou de dentro toda a trajetória da instituição, desde seu primeiro diretor, Ricardo Otahke, com quem trabalhou como secretária. Na entrevista abaixo, Lili comenta seu desenvolvimento no Centro Cultural São Paulo, espaço em que adquiriu, além da experiência profissional, conhecimentos sobre cultura e arte, e realizou, atravessando 11 gestões diferentes, um trabalho baseado em uma relação de amor com a instituição.



  Como você chegou ao Centro Cultural?

Eu cheguei por meio de um tio meu que trabalhava como chefe da segurança, era tenente aposentado. Na época, eu estava desempregada e vim trabalhar na Prefeitura. Anos depois, eu prestei um concurso e me efetivei na época do governo de Jânio Quadros. Eu trabalhava como secretária da primeira diretoria, com o Ricardo Otahke. Não sabia bem o que era trabalhar na Prefeitura, o que era o Centro Cultural. Em 1983, fui transferida para a Divisão de Artes Cênicas e Música, em que passei por 11 administrações diferentes. Comecei a conhecer teatro, música popular e erudita. Sempre trabalhei como secretária, eu fui a única secretária das Artes Cênicas do CCSP. Conheci várias pessoas, como diretores de teatro e de dança. Hoje, eu faço divulgação dos eventos, contratação, pagamento de processo, tudo que envolve a atividade administrativa de curadoria e programação artística.


  De que forma você acredita que evoluiu dentro do Centro Cultural?

Obtive muito conhecimento sobre cultura. Conheci amigos... existem pessoas maravilhosas aqui dentro, que eu respeito e das quais eu gosto muito. Cada gestão é diferente, a gente trabalha de acordo com a coordenação geral do CCSP. Eu gosto do que faço, gosto dos artistas, dos bailarinos, dos músicos e das pessoas que trabalham aqui, pelas quais eu também tenho um carinho muito especial. Vira uma irmandade, é minha segunda família aqui.


  Houve algum evento especificamente marcante para você?

Houve uma apresentação do Zeca Pagodinho em que ele entrou no palco, pegou o filho no colo e quis levantar para a platéia na sala Adoniran Barbosa. Na hora que ele levantou o garoto, o menino caiu. Todo mundo se assustou, né? Ele disse: "Filho de vocês não cai no chão? O meu também cai". Isso me marcou porque foi muito engraçado. Ele é louco mesmo. Isso eu não esqueci. Houve outros espetáculos muito bonitos. Por exemplo, no evento Cartas Portuguesas, com a Carla Camuratti, foi montado um cenário com uma floresta no palco, tinha muita terra e um lago. Foi um espetáculo muito lindo, eu não esqueço. Também me lembro do nosso trabalho no Navegar é Preciso, um evento enorme, em que o governo brasileiro atuou em parceira com Portugal e com a África. Eu me empenhei muito, junto à diretora da divisão na época, a Tatinha [Maria Aparecida Salto de Camargo Penteado]. Eu trabalhava aos sábados e domingos para isso acontecer. No final, o evento ocorreu da melhor maneira possível. Foi muito gratificante. Também foi uma emoção assistir ao show do cantor Luiz Melodia. Eu sou fã dele até hoje, apesar de ele hoje estar meio sumido. Mas naquela época me emocionou muito vê-lo assim pertinho de mim, ao vivo e a cores.


  Como você vê o público do Centro Cultural?

Tende sempre a crescer, cresceu muito já. Na época que eu comecei a trabalhar aqui, não havia tanto público assim. Hoje há muito mais estudantes por aí, o pessoal aposentado que fica nessas mesas de xadrez. Acho que aumentou bastante.


  Você acha que o CCSP é um espaço acessível a diversos públicos?

Sim, as pessoas participam porque a programação é boa e eles têm acesso financeiro. Qualquer moçadinha pode ter acesso. Se forem a outros lugares para ver um show, vão pagar de R$50 a R$60. Acho que a tendência é trazer cada vez mais público sim. E também a garotada adora estudar aqui. É sábado, é domingo, isso aqui está sempre cheio.


  O que você sente ao participar das comemorações de 30 anos? Sonhar ainda é necessário?

Eu vou continuar sonhando, eu quero ver isso aqui bonito, com uma boa programação. Quando eu sair e me aposentar, quero entregar para uma pessoa que ame fazer tudo que eu fiz nesses teatros, nesses 30 anos. Eu quero deixar meu cargo para alguém que continue tudo aquilo que eu faço por este Centro Cultural. A minha raiz está nos teatros. Eu entrei bobinha, não sabia nem o que era cultura direito. Hoje, eu sei o que é um espetáculo de dança, de teatro. Você tem que gostar do que faz, fazer com amor, com carinho, tem que mostrar que sabe fazer bem feito, dedicar-se. E eu me dedico, pode mudar gestão, pode vir outra, o meu amor, o meu carinho pelo meu trabalho continuam os mesmos e sempre vão continuar até eu sair daqui aposentada.