Quem fez, quem faz

Ana Maria Campanhã trabalha no Centro Cultural São Paulo desde 1985 e integra atualmente a equipe da Ação Cultural e Educativa da instituição. Nesta entrevista, ela fala sobre o trabalho de visitas monitoradas ao qual se dedicou durante anos, reflete sobre a sua relação com o espaço e o público e compartilha lembranças de sua trajetória no CCSP.



  O que é o Centro Cultural para você?

O Centro Cultural? É vida. Porque tem vida, tem vida aqui dentro, né? Tem aqui e tem a vida que chega também, as pessoas que vêm. Então, é vida.


  Como você começou a trabalhar no Centro Cultural?

Eu comecei a trabalhar no Departamento de Informação e Documentação Artísticas (Idart), na Casa das Retortas, onde fiquei até abril de 1983, fazendo o tombamento de pesquisas relacionadas à arquitetura, porque eu sou arquiteta de formação. Eu sabia que o Centro Cultural ia inaugurar em maio de 1982 e queria vir trabalhar aqui, porque eu passava em frente e achava o prédio interessante. Alguma coisa me chamava para cá. Em 1985, vim finalmente para o Centro Cultural. Queria trabalhar com a monitoria, mas, por causa da minha formação, o então diretor do CCSP, José Geraldo Martins de Oliveira, com quem eu já tinha trabalhado nas Retortas, achava que eu tinha que ficar na equipe de arquitetura. Permaneci nesse setor, envolvida com a elaboração de layouts dos espaços – inclusive, o meu primeiro trabalho foi fazer o layout da Discoteca, que na época ficava na Lapa e estava sendo transferida para cá. E gostava disso, porque gosto de trabalhar com gente. Consegui me transferir um tempo para a monitoria, mas, aos poucos, fui novamente chamada para o setor de arquitetura por indicação do Luiz Telles (um dos arquitetos responsáveis pela criação do projeto do CCSP), que já conhecia e gostava do meu trabalho. Isso aconteceu na época da montagem de uma grande exposição sobre direitos humanos, Cidade, cidadão, cidadania, organizada pela Marilena Chauí, então Secretária Municipal de Cultura (de 1989 a 1992). Só depois de um bom tempo eu consegui voltar de vez para as visitas monitoradas.


  Como começaram as visitas?

As visitas monitoradas começaram bem antes de mim, logo nos primeiros anos do Centro Cultural, sob a coordenação da Equipe Técnica de Integração com a Comunidade, vinculada à Divisão de Difusão Cultural (atual Divisão de Informação e Comunicação). Em 1993, ainda no setor de arquitetura, eu propus à diretora do CCSP na época, Maria Luiza Librandi, o retorno da monitoria. Eu disse: “Eu quero remontar a equipe de monitoria”. Aí ela falou: “Como? Mas você vai ter trabalho dobrado? Você trabalha na arquitetura, como vai fazer?”. Disse para ela não se preocupar e comecei a ligar para as pessoas para ver quem ia querer trabalhar comigo. A gente dividiu o núcleo de arquitetura em dois para montar o espaço da monitoria. Junto a mim trabalhavam vários colegas: a Cristina Schultz, a Angela Perrotti, o Mauricinho Faria e outros que já não estão mais aqui. Formou-se um grupo e nós atendíamos as pessoas tanto aqui quanto em visitas feitas em escolas e entidades.


  O que vocês tinham como objetivo ao fazer uma visita monitorada?

A primeira coisa era saber o interesse do grupo. Por essa razão, nunca houve uma visita com um roteiro já descrito. Quando as escolas ligavam, a primeira questão era saber qual o principal interesse da visita, para poder evidenciar o leque que temos aqui dentro. Nem sempre era uma exposição, as Bibliotecas ou os teatros. Cada visita era específica de acordo com o público. Uma coisa que fazíamos era mostrar o trabalho dos funcionários do Centro Cultural para os grupos que vinham para as visitas. Se recebíamos um grupo do qual fazia parte alguém que tinha um parente que trabalhava numa gráfica, por exemplo, por que não levar esse grupo para conhecer a Gráfica do CCSP e mostrar como é feito um folheto? No fim da visita, o grupo saía com o material pronto, tendo acompanhado todo o percurso para isso chegar até a mão dele.


  O que movia vocês a fazer as visitas?

Para mim era importante fazer com que as pessoas sentissem que esse espaço era delas e que elas podiam voltar quando quisessem. E elas voltam, hoje vêm aqui estudar, trazem os filhos. Isso não tem dinheiro que pague. A gente representava a instituição naquele momento e eu queria que as pessoas se sentissem bem nesse lugar e pudessem partilhar daquilo que eu partilhava - e também trazer coisas novas, que talvez eu não partilhasse, não conhecesse. Isso sempre acontecia em qualquer visita, até mesmo quando vinha algum estrangeiro. A gente se entendia e eu não falo outro idioma.


  Como você percebe que entende a pessoa mesmo sem falar a língua dela? 

Pelo olhar, né? A primeira coisa é pelo olhar.


  Conte alguma história que te marcou especialmente. De preferência uma história feliz.

Aqui é difícil ter uma história triste. Logo que o Centro Cultural foi inaugurado muitas pessoas agendavam visitas, pois aqui era um sucesso. As pessoas não vinham apenas para conhecer o espaço, mas também para conversar.
Uma das visitas que me marcou bastante foi de um grupo escolar da cidade de Piúma (Espírito Santo) que realizava frequentemente visitas de estudos em São Paulo e Rio de Janeiro. Os alunos vieram várias vezes ao Centro Cultural e, quando voltavam para o Espírito Santo, participavam de uma feira de ciências na escola, apresentando o que tinham conhecido para a comunidade. Em uma dessas vindas, eles me convidaram para assistir e eu acabei indo. Foi muito gratificante saber que mesmo longe as pessoas falavam do espaço e de como ele foi marcante para elas.

  E além das visitas monitoradas?
A exposição sobre direitos humanos foi marcante. Nós passamos uma noite toda fazendo a montagem para inaugurar a mostra a tempo. Tivemos problemas com a equipe de montagem e os funcionários do CCSP acabaram montando todos os dezesseis estandes. Foi um grande aprendizado.
O que me encanta é a força entre os colegas, sempre. Acho que isso é o que faz o Centro Cultural, porque passam as gestões, os interesses, mas as pessoas que gostam daqui e compram esse conceito permanecem. Pessoas que gostam daqui e acreditam que esse espaço é público e para o público trabalham com amor.

  Das coisas que você faz hoje, o que te apaixona tanto quanto as visitas?
O letramento, o coral, o grande baile, todas as coisas que eu acompanho. É legal perceber o olhar de cada um que faz o coral, de cada um que frequenta o grande baile, de cada pessoa que participa de qualquer uma das oficinas. A minha grande paixão é tudo que envolve trabalhar com pessoas. Eu acho que esse lugar ensina a todos, é só prestar atenção no aprendizado que acontece aqui o tempo inteiro.

  Você se considera parte dos 30 anos do CCSP?
Claro, como muita gente que chegou depois e que faz parte. Há os que começaram junto com o Centro Cultural e fazem parte, mas há também quem chegou depois e faz parte. Acho que esse é o sentido do trabalho, de tudo acontecer. Tive a oportunidade de passar por vários setores e conhecer muitas pessoas. Insisti muito em sair da arquitetura e ficar na monitoria, porque a monitoria era livre. Ela circulava por todos os lados e conseguia unir as pessoas, fazer as atividades acontecer entre as várias equipes de trabalho. Embora houvesse as divisões, sempre conseguíamos unir os setores.
 
  Como você vê o público do Centro Cultural? Quem são as pessoas que se apropriam desse espaço?
Tem muitos estudantes, adultos, além do pessoal da terceira idade que vem dançar com os jovens. Tem ainda o pessoal que vem jogar xadrez, que participa das oficinas, que frequenta as exposições. É bastante diverso. Ainda bem, né? É isso que faz o espaço crescer.